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Lançado pela Netflix em 2020, “O Diabo de Cada Dia”, dirigido por Antonio Campos, acompanha famílias, pregadores e policiais do interior americano em uma história de fé, violência e heranças mal resolvidas. Ambientado entre o fim da Segunda Guerra Mundial e os anos 1960, o filme parte do trauma de Willard Russell (Bill Skarsgård), veterano que volta do Pacífico assombrado pelo que viu e fez, para chegar ao filho Arvin Russell, vivido na infância por Banks Repeta e, na fase adulta, por Tom Holland. O que une essas figuras não é apenas o sangue, mas um ambiente em que religião, poder local e brutalidade andam perigosamente próximos.

Willard Russell retorna da guerra tentando montar uma vida comum, mas a paz doméstica nunca chega inteira. Ele se casa com Charlotte (Haley Bennett), constrói uma família e cria o pequeno Arvin (Banks Repeta) em Knockemstiff, uma comunidade rural de Ohio onde todo mundo parece saber demais e ajudar de menos. O pai tenta proteger a casa com trabalho, fé e sacrifício, mas seus medos ganham uma forma cada vez mais rígida. A religião, que poderia oferecer amparo, passa a ocupar a rotina familiar com uma intensidade sufocante.

Essa primeira parte é essencial para compreender Arvin. O menino cresce vendo o pai transformar dor em ritual, esperança em cobrança e amor em vigilância. Antonio Campos não trata esse ambiente com pressa. Ele observa quartos, quintais, igrejas e estradas com um olhar seco, deixando que cada espaço revele a precariedade daquela gente. Há pobreza, isolamento e uma masculinidade ferida que não sabe pedir ajuda. Quando Arvin chega à vida adulta, interpretado por Tom Holland, o espectador já sabe que sua dureza não nasceu do nada.

A cidade também adoece

A passagem do tempo leva Arvin para uma rotina de pouca conversa e muita atenção. Ele vive com a avó Emma (Kristin Griffith), com o tio Earskell (David Atkinson) e com Lenora Laferty (Eliza Scanlen), jovem criada sob o peso de perdas e crenças religiosas muito severas. Arvin se torna uma espécie de guardião silencioso de Lenora. Ele não é um herói expansivo, nem um justiceiro de pose estudada. É um rapaz que aprendeu cedo a reconhecer perigo no tom de voz dos outros.

Tom Holland, conhecido por papéis mais solares, aparece aqui em registro contido e desconfiado. Seu Arvin fala pouco porque sabe que, naquele mundo, qualquer frase pode virar provocação, fofoca ou ameaça. A cidade não oferece instituições confiáveis para protegê-lo. A escola humilha, a igreja pressiona e a autoridade pública parece mais preocupada com aparência do que com justiça. A violência surge, então, menos como surpresa e mais como ferramenta disponível para quem já perdeu a confiança no restante.

Pregador, xerife e estrada

A entrada do reverendo Preston Teagardin (Robert Pattinson) muda o eixo da história. Jovem, vaidoso e eloquente, ele chega à igreja com o tipo de charme que costuma abrir portas antes mesmo de alguém verificar suas intenções. Pattinson interpreta Preston com uma fala arrastada, quase teatral, e transforma o pregador em uma presença repulsiva sem precisar exagerar nos gestos. Ele seduz pela autoridade do cargo, pela roupa bem cortada e pelo talento de manipular culpa.

Fora da igreja, o xerife Lee Bodecker (Sebastian Stan) tenta preservar sua imagem pública enquanto lida com problemas familiares e interesses pessoais. Sua irmã Sandy Henderson (Riley Keough) vive um casamento sombrio com Carl Henderson (Jason Clarke), homem que cruza estradas em busca de desconhecidos vulneráveis. O casal introduz ao filme uma camada de suspense criminal que se mistura ao drama religioso. As rodovias, os postos e os carros deixam de ser lugares de passagem. Viram zonas de risco, onde gentileza pode ser armadilha e silêncio pode custar caro.

Arvin diante da violência

“O Diabo de Cada Dia” acompanha Arvin enquanto ele percebe que a bondade, sozinha, não basta para proteger quem está perto. Essa percepção é amarga, porque o filme nunca transforma a reação do personagem em triunfo simples. Arvin age movido por afeto, raiva e memória. Em outro contexto, talvez tivesse sido apenas um jovem fechado, desconfiado, com dificuldade de se abrir. Naquele pedaço de América, porém, cada ameaça parece pedir uma resposta antes que alguém mais pague a conta.

O roteiro faz as histórias se aproximarem aos poucos. Willard, Arvin, Lenora, Preston, Lee, Sandy e Carl pertencem a círculos diferentes, mas todos habitam o mesmo território moral contaminado. A fé aparece em púlpitos, rezas e promessas, mas também encobre abusos, vaidades e covardias. O filme é duro, às vezes pesado demais, mas encontra sua consistência quando liga cada gesto a uma consequência. Ninguém está perdido no enredo por acaso. Cada personagem carrega uma pequena dívida com o passado ou com o próprio desejo.

Um elenco em atrito permanente

O elenco sustenta essa atmosfera de desconforto. Bill Skarsgård dá a Willard uma fragilidade que torna o personagem mais perturbador, pois sua devoção nasce de amor e desespero em partes difíceis de separar. Banks Repeta, como Arvin criança, observa o mundo com espanto contido, enquanto Tom Holland assume a fase adulta com uma tensão física constante. Robert Pattinson, por sua vez, cria um dos personagens mais incômodos do filme, um homem que usa a palavra sagrada com a habilidade de quem sabe exatamente onde tocar a ferida alheia.

Antonio Campos filma tudo com sobriedade, sem transformar miséria em espetáculo. Há momentos em que “O Diabo de Cada Dia” acumula sofrimento em excesso, e o espectador pode sentir que o filme insiste demais na crueldade de seu universo. Ainda assim, a narrativa se mantém firme porque o enredo avança por escolhas concretas. Alguém aceita uma carona. Alguém entra em uma igreja. Alguém ignora um sinal. Alguém decide proteger uma pessoa querida sem calcular o preço inteiro dessa proteção.

É uma crítica severa a uma comunidade onde pecado e poder dividem a mesma mesa, muitas vezes com bênção pública e culpa privada. “O Diabo de Cada Dia” não oferece conforto fácil, mas também não trata Arvin como símbolo vazio de vingança. Ele é um sobrevivente tentando escapar de uma herança que recebeu antes de poder recusá-la. Quando a estrada reaparece, já não parece caminho de fuga. Parece apenas o próximo lugar onde ele terá de escolher entre continuar calado ou fazer algo antes que outro adulto perigoso ocupe o volante.


Filme: O Diabo de Cada Dia
Diretor: Antonio Campos
Ano: 2020
Gênero: Crime/Drama/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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