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Colette seria uma presença incômoda em qualquer assembleia empenhada em decidir quem merece representar quem. Zombou das sufragistas, teve relações decisivas com mulheres, casou-se três vezes, amou homens e teve uma filha. Não perdeu tempo procurando uma definição que explicasse tudo.

A dificuldade de classificar Sidonie-Gabrielle Colette, nascida em 1873 numa aldeia da Borgonha e morta em Paris em 3 de agosto de 1954, acompanha o leitor quando ele abre qualquer um de seus livros. Poucos escritores do século 20 perceberam com tanta nitidez que o desejo humano, quando se move de verdade, costuma demonstrar escasso respeito pelas categorias usadas para contê-lo. Naturalmente, isso não fez de Colette uma pensadora moderna escondida numa mulher da Belle Époque, munida por algum milagre de todas as respostas que levaríamos mais de um século para formular. Às vezes ela não tinha resposta alguma. Olhava melhor.

Foi com a adolescente Claudine que tudo começou. “Claudine na Escola”, publicado em 1900, saiu apenas com o nome de Willy, pseudônimo de Henry Gauthier-Villars, marido de Colette e empresário literário de métodos próximos da cafetinagem autoral. Ele mantinha colaboradores, explorava escândalos e assinava o resultado. Colette forneceu a matéria principal da série, quatro romances em que uma estudante borgonhesa insolente observa colegas, professoras e homens sem a menor disposição de fingir inocência.

Claudine deseja meninas e mulheres, mas isso não a transforma numa personagem edificante à frente de seu tempo. Ela é ciumenta, manipuladora, cruel e, em certos momentos, um pé no saco. O que há de novo é que Claudine deseja, e ninguém entra em cena para castigá-la por isso. Mesmo publicada sob o nome de Willy e inserida numa operação comercial que sabia tirar proveito da imagem picante da colegial, aquela voz já trazia algo que o marido não conseguiria controlar por muito tempo. Uma mulher olhando.

Mulheres desejadas abarrotavam a literatura. Mulheres que desejavam também não eram propriamente novidade, claro, mas o preço costumava vir embutido no pacote — vergonha, castigo, morte, às vezes tudo junto. Claudine não se sente culpada o suficiente. Examina o mundo como se ele estivesse à sua disposição, e essa desfaçatez altera mais profundamente a tradição do que qualquer discurso de emancipação que Colette, de resto, nunca teve disposição para pronunciar.

A separação de Willy, em 1906, deixou-a sem acesso satisfatório ao dinheiro produzido pelos livros e a empurrou para o music-hall. Durante anos, Colette viajou pela França apresentando pantomimas, danças e versões teatrais de suas histórias. Ganhava pouco, dormia mal, adoecia, trocava de roupa em camarins apertados e fazia do próprio corpo parte do ofício.

Na literatura de Colette, o corpo não fica abaixo do pensamento nem espera que a consciência explique o que aconteceu. É com o corpo que seus personagens sabem. Percebem a mudança de um amor pelo modo como alguém evita um toque; reconhecem o envelhecimento na demora diante do espelho; descobrem uma mentira numa alteração da voz, numa peça de roupa escolhida com zelo excessivo. A consciência chega depois, tentando explicar o que a pele já entendeu.

Entre as mulheres com quem Colette se relacionou estava Mathilde de Morny, marquesa de Belbeuf, conhecida como Missy e também como Max. Rica, divorciada, vestida habitualmente como homem, Missy ocupava uma posição para a qual os vocabulários da época ofereciam sobretudo insultos. Seria cômodo dar a Missy um nome que só surgiria muitas décadas depois. Também seria falso. Os documentos deixam claro que sua apresentação masculina não era uma brincadeira ocasional.

Colette não parecia incomodada com essa zona de indefinição. Dividiu a vida e o palco com Missy. Em janeiro de 1907, durante a pantomima “Rêve d’Égypte”, as duas se beijaram no Moulin Rouge. Houve gritaria, intervenção policial e cancelamento do espetáculo.

Seria um equívoco, porém, fazer daquele beijo a chave de Colette. O que interessa é o modo como a experiência do palco, das roupas e dos papéis atravessou sua escrita. Em Colette, vestir-se não é cobrir uma identidade verdadeira que estaria por baixo, esperando para ser revelada. A roupa participa da identidade, assim como a postura, a maneira de entrar numa sala ou de ocupar uma cadeira. Seus personagens não deixam de ser autênticos quando representam. Representar é uma das formas que encontram para existir.

O puro, o impuro e o resto

Essa percepção atinge o ponto máximo em “O Puro e o Impuro”, livro publicado inicialmente em 1932 com outro título e revisto anos depois. Difícil dizer o que ele é. Ensaio? Memória? Coleção de retratos? Investigação sobre o desejo? Tudo isso, e às vezes nenhuma dessas coisas por muito tempo. Colette reúne encontros, conversas e lembranças de homens e mulheres que amaram de maneiras consideradas desviantes, clandestinas ou simplesmente incompreensíveis. Há relações entre mulheres, homens que desejam homens, pessoas que atravessam convenções de gênero.

O título parece anunciar uma classificação moral. O livro faz o contrário. Sempre que alguma ordem começa a se estabelecer, surge um gesto, uma frase ou uma pessoa capaz de bagunçá-la. Colette presta atenção ao que as pessoas fazem, calam e disfarçam. O desejo aparece no meio disso.

Colette tampouco era tão moderna quanto seus leitores de hoje talvez gostassem que fosse. “O Puro e o Impuro” contém generalizações rígidas sobre homens, mulheres e homossexualidade. Colette acreditava em certas diferenças entre os sexos com uma convicção que hoje pode soar limitada, quando não francamente antiquada. Sua curiosidade era imensa, mas não ilimitada; seu mundo continuava sendo, em boa medida, o de cortesãs, aristocratas e criaturas suficientemente protegidas para transformar a transgressão em estilo de vida. Sem dinheiro, sobrenome ou amigos influentes, a mesma liberdade cobrava outro preço.

Colette não era feminista no sentido político do termo e não elaborou uma teoria sobre identidades sexuais. Tampouco precisava disso para construir personagens. Seu método era outro — observar quem entrava numa sala, com que roupa, de que modo ocupava uma cadeira, quanto demorava antes de tocar outra pessoa. É assim que suas mulheres trabalham, envelhecem, desejam, abandonam e exercem poder sem virar exemplos de nada.

A aproximação entre vida e obra, neste caso, é inevitável. Claudine não é um prontuário sexual da autora. Missy não se esconde atrás de cada personagem vestida de homem. “O Puro e o Impuro” não é uma ata fiel dos círculos parisienses frequentados por Colette. Ela transformava tudo — lembrança, amante, escândalo. A mulher que começara publicando como propriedade literária do marido terminou conhecida apenas pelo sobrenome que também era seu nome de família — Colette, seco e suficiente, uma assinatura que dispensava até o primeiro nome.

Setenta e dois anos depois de sua morte, é natural que diferentes grupos reivindiquem essa mulher que beijava mulheres em público, usava roupas masculinas, escrevia sobre desejo feminino e se recusava a representar a senhora respeitável que a sociedade esperava. É compreensível que diferentes grupos a reconheçam como uma antecessora. Ler toda a obra por essa chave, porém, é estreitá-la demais.

Nos melhores livros de Colette, o desejo nunca chega limpo à página. Vem misturado a ciúme, ternura e uma crueldade que às vezes a própria personagem demora a reconhecer. Basta um recuo diante do espelho, uma roupa escolhida com cuidado demais, a mão que hesita antes do toque. Colette sabia ler essas pequenas traições.

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