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O amor juvenil tem uma estranha vocação para se acreditar indestrutível justamente na hora em que começa a ruir. Enquanto ainda há urgência, beijos apressados, promessas ditas com a gravidade de quem acabou de inventar o mundo, tudo parece resistir às intrigas familiares, à moral alheia, ao escândalo de uma paixão que não nasceu para pedir licença. O problema começa quando a vida deixa de ser obstáculo externo e passa a cobrar presença, paciência, rotina, renúncia. “Sua Culpa: Londres” entende essa passagem apenas pela metade: sabe que Noah e Nick já não podem viver de arrebatamento, mas continua filmando cada crise como se ainda bastasse uma música, um olhar úmido e uma briga de ciúme para que o amor pareça maior do que é.

Depois dos eventos de “Minha Culpa: Londres”, Noah, vivida por Asha Banks, e Nick, interpretado por Matthew Broome, reaparecem como um casal enfim recomposto, disposto a provar que a ligação entre os dois não foi uma imprudência adolescente, mas uma escolha. O detalhe incômodo — ele é seu meio-irmão — segue rondando a trama como fantasma domesticado, menos explorado em seu peso moral do que usado como tempero melodramático. Charlotte Fassler e Dani Girdwood preferem deslocar a tensão para uma fronteira mais reconhecível: Noah consegue uma bolsa em Oxford, Nick mergulha nas exigências do trabalho, e aquilo que parecia paixão invulnerável começa a ser corroído não por uma grande tragédia, mas por horários desencontrados, mensagens respondidas tarde demais, novas amizades e a suspeita de que o desejo, quando não é alimentado, arruma outro lugar para se esconder.

Esse é, potencialmente, o melhor filme dentro do filme. A menina que precisava sobreviver às próprias explosões sentimentais agora precisa aprender a existir sem que Nick seja o eixo de todos os seus movimentos. Noah chega a Oxford com a promessa de uma vida que não se resume ao romance, e Asha Banks dá à personagem uma mistura interessante de encanto e teimosia, como se ela própria ainda não soubesse distinguir autonomia de fuga. Quando o roteiro de Melissa Osborne a coloca diante de novos círculos sociais, novos homens, novas versões de si mesma, a atriz sustenta bem a hesitação de alguém que quer amadurecer sem abrir mão da intoxicação amorosa que a trouxe até ali. O filme, porém, nem sempre confia nessa força. Muitas vezes prefere reduzir suas descobertas ao combustível mais fácil do ciúme.

Nick, por sua vez, sofre de um mal comum aos galãs de romances seriados: é mais interessante quando falha do que quando posa de amor definitivo. Matthew Broome tem presença, sabe ocupar o quadro com esse ar de rapaz ferido que aprendeu a transformar silêncio em defesa, mas o personagem fica atolado numa masculinidade previsível, dividida entre a obsessão pelo trabalho e a incapacidade de admitir que Noah talvez tenha uma vida interior independente dele. Há bons momentos quando Nick percebe que o controle, disfarçado de cuidado, já não basta para mantê-la por perto. Nesses instantes, “Sua Culpa: Londres” se aproxima de um drama romântico adulto, disposto a observar o desgaste de uma paixão que precisa trocar o vício pela confiança. Pena que o filme recue tantas vezes para o repertório dos mal-entendidos, das aproximações perigosas e das cenas feitas para inflamar torcidas, não para iluminar personagens.

Fassler e Girdwood conhecem o apelo desse universo e não fingem fazer outra coisa. A Londres que cerca os protagonistas continua mais emocional que geográfica, um lugar de interiores bonitos, noites calculadas e encontros marcados pelo brilho ligeiramente artificial dos romances de streaming. Oxford entra como promessa de prestígio, liberdade e ameaça; o trabalho de Nick, como prisão dourada. A direção conduz tudo com competência visual, sem grandes ousadias, apostando na proximidade dos rostos e numa montagem que tenta transformar qualquer hesitação em acontecimento. O resultado prende, sobretudo para quem já comprou a história de Noah e Nick no primeiro filme, mas também denuncia certa pobreza dramática: a cada vez que o casal poderia conversar como duas pessoas feridas, o roteiro lhes entrega uma nova razão para reagir como adolescentes encurralados.

Ainda assim, há alguma verdade no desconforto que o longa provoca. Amores muito jovens costumam confundir intensidade com destino, e “Sua Culpa: Londres” funciona melhor quando deixa aparecer essa confusão. Noah e Nick não estão apenas ameaçados por terceiros; estão ameaçados pela versão idealizada que construíram um do outro. O ciúme, aqui, não é só medo de perder, mas pânico de descobrir que a pessoa amada talvez sobreviva perfeitamente fora da bolha do casal. Esse ponto, quando aflora, dá ao filme um interesse que seus excessos quase soterram.

“Sua Culpa: Londres” não chega a romper com a gramática açucarada, impaciente e um tanto repetitiva que sustenta tantas continuações românticas feitas para espectadores já convertidos. Tem cenas que parecem existir menos por necessidade dramática que por obrigação de alimentar a chama da franquia. Mas Asha Banks e Matthew Broome ainda conseguem vender a ideia de um amor que, mesmo imaturo, dói de verdade em quem o vive. O filme não é sobre a grandeza desse sentimento; é sobre sua dificuldade de crescer sem perder o espetáculo. No fim, Noah e Nick continuam menos apaixonados um pelo outro do que pela imagem perigosa de que, sem sofrimento, talvez aquilo tudo nem pareça amor.


Filme: Sua Culpa: Londres
Diretor: Charlotte Fassler e Dani Girdwood
Ano: 2026
Gênero: Romance
Avaliação: 3/5 1 1
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