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Em “Mensagens para Isabelle”, comédia dramática romântica de 2026 dirigida por Leah McKendrick, Jill (Zoey Deutch) tenta reconstruir a vida em San Francisco após a morte da irmã, Isabelle (Ciara Bravo), enquanto seus recados de voz caem, por acaso, no telefone de Wes (Nick Robinson), um corretor de imóveis em Austin. A partir desse engano incômodo, o filme acompanha uma mulher em luto, presa a um emprego abusivo e ainda em busca de um lugar próprio no mundo.

Jill vive em San Francisco, trabalha em uma cozinha profissional e sonha em crescer como confeiteira. O problema é que seu cotidiano passa pelo comando do Chef Bastien (Nick Offerman), um chefe abusivo, arrogante e pouco disposto a reconhecer talento quando ele não confirma sua própria autoridade. Jill faz o trabalho duro, observa a mediocridade passar na frente e guarda a frustração em silêncio, até onde consegue.

A irmã Isabelle, vivida por Ciara Bravo, era a pessoa com quem Jill dividia essa rotina. Mesmo doente e morando em Austin, Isabelle participava da vida da irmã por telefone, ouvindo desabafos, histórias de trabalho, inseguranças amorosas e pequenas vitórias. Quando Isabelle morre de forma repentina, Jill perde a irmã e também a interlocutora que organizava seus dias. Sem saber lidar com esse vazio, ela continua ligando para o antigo número e deixando mensagens de voz.

É uma escolha simples, mas bastante humana. Jill não está tentando enganar ninguém. Ela apenas usa o telefone para manter viva uma conversa que terminou antes da hora. O gesto tem algo de triste, mas também de familiar para qualquer pessoa que já procurou presença em um hábito antigo. O filme acerta ao tratar esse luto sem solenidade pesada. Jill sofre, mas ainda trabalha, se irrita, tenta sair, erra em encontros e segue preparando comida para os outros.

Um estranho do outro lado da linha

O número de Isabelle, porém, foi repassado para Wes, personagem de Nick Robinson. Ele vive em Austin, trabalha como corretor de imóveis e começa a receber os recados de Jill em seu telefone profissional. No início, a situação parece apenas um erro de sistema. Depois, vira curiosidade. Em seguida, torna-se uma aproximação perigosa, porque Wes passa a saber muito sobre Jill sem que ela saiba nada sobre ele.

Essa é a parte mais interessante e também mais desconfortável de “Mensagens para Isabelle”. A comédia romântica pede que o público torça pelo encontro, mas a história não ignora o problema ético no caminho. Wes acompanha detalhes da vida de Jill, ouve sobre suas tentativas amorosas, descobre sua relação com a confeitaria e percebe a dor que ela carrega pela irmã. Seus amigos Andy (Harry Shum Jr.) e Breeda (Leah McKendrick) percebem que aquela escuta deixou de ser inocente. Eles funcionam como uma pequena consciência externa, ainda que Wes demore a aceitar o tamanho do erro.

O roteiro cria tensão sem transformar Wes em vilão. Ele é gentil, atento e claramente encantado por Jill. Também é alguém que invadiu uma intimidade sem autorização. Nick Robinson trabalha bem essa ambiguidade, porque deixa Wes simpático sem apagar sua falha. Há um rapaz doce ali, mas há também um homem usando vantagem emocional para se aproximar de alguém vulnerável. A graça do filme está em deixar essa contradição respirando.

San Francisco vira ponto de encontro

Quando Wes consegue ir a San Francisco, a história muda de ritmo. Ele deixa de ser apenas a voz do outro lado da linha e passa a ocupar o mesmo espaço de Jill. A cidade entra como cenário de romance, mas também como extensão do momento da protagonista. Jill ainda está perdida, mas conhece suas ruas, seus lugares de descanso e suas rotas afetivas. Wes chega como visitante e precisa se encaixar nesse território que não domina.

A sequência do passeio turístico resume bem o tom do filme. Jill fala sobre sua incerteza profissional, o guia abandona a função, e Wes assume a situação com uma performance espontânea, exagerada na medida certa. Ele diverte os passageiros, canta, chama atenção e termina expulso do ônibus. É um tipo de humor que nasce do constrangimento, não de piada forçada. A cena ajuda a aproximar os dois, mas também mostra o quanto Wes gosta de se apresentar como solução para ambientes em desordem.

Zoey Deutch dá a Jill uma energia muito própria. A personagem poderia cair no clichê da jovem talentosa, triste e irresistível. Em vez disso, surge mais impaciente, mais viva e menos polida. Ela tem doçura, mas também raiva. Tem vocação para a cozinha, mas não se resume ao sonho profissional. Quando enfrenta o descaso no trabalho, sua reação vem de um acúmulo reconhecível. Bastien não é só um chefe grosseiro. Ele representa a porta fechada diante de alguém que já vinha tentando sobreviver a uma perda enorme.

Romance com culpa e açúcar

A comida ocupa um lugar importante na história. Jill aprendeu a cozinhar enquanto fazia companhia à irmã doente em casa, e esse detalhe dá outra camada ao seu desejo de ser confeiteira. Para ela, preparar comida não é apenas carreira. É memória, cuidado e uma forma possível de permanecer ligada a Isabelle sem parar a própria vida. Quando o filme mostra Jill cozinhando para Wes, o gesto tem afeto, mas também expõe a fragilidade da mentira que ainda está entre os dois.

Leah McKendrick, que além de dirigir também interpreta Breeda, equilibra melhor o filme quando mantém o romance perto desse desconforto. “Mensagens para Isabelle” funciona porque sabe que sua premissa é encantadora e problemática ao mesmo tempo. O risco seria transformar a invasão de privacidade em detalhe bonitinho demais. O roteiro nem sempre escapa dessa armadilha, mas compensa com personagens carismáticos e uma protagonista que não perde o centro da história para o par romântico.

O elenco ajuda bastante. Harry Shum Jr. dá a Andy uma presença leve, com aquela energia de amigo que tenta aconselhar sem parecer um fiscal de condomínio emocional. Leah McKendrick faz Breeda com firmeza e ironia discreta. Nick Offerman, como Bastien, entra com a acidez necessária para que a cozinha pareça um lugar de pressão real. Já Zoey Deutch segura o filme com naturalidade, transitando entre luto, raiva e desejo sem transformar Jill em vítima decorativa.

Uma despedida ainda em curso

“Mensagens para Isabelle” é uma comédia romântica sobre recomeço, mas seu melhor material está no que vem antes do romance. O filme observa uma mulher tentando voltar a existir depois de perder a irmã, sem saber onde colocar tudo o que ainda gostaria de dizer. Os recados de voz funcionam porque carregam esse paradoxo. Eles preservam Jill por alguns minutos, mas também prendem sua dor a um número que já pertence a outra pessoa.

O longa tem leveza, boas cenas de encontro e um charme próprio de produção feita para aquecer a sala sem exigir blindagem emocional. Ainda assim, há mais vida quando Jill está diante de escolhas concretas, seja na cozinha de Bastien, nas ruas de San Francisco ou na tentativa de transformar talento em trabalho. O romance com Wes traz encanto, culpa e uma pergunta incômoda que acompanha quase toda a sessão. Até que ponto uma história de amor pode nascer de algo que começou errado?

“Mensagens para Isabelle” permite que Jill recupere a voz fora do telefone. A personagem não precisa abandonar Isabelle para seguir adiante, mas precisa descobrir como falar com a irmã sem desaparecer dentro da ausência dela. Entre receitas, ligações e encontros atravessados por segredo, o filme entrega uma rom-com sensível, simpática e menos açucarada do que sua embalagem sugere. Jill continua caminhando, e isso já muda o destino da próxima mensagem.


Filme: Mensagens para Isabelle
Diretor: Leah McKendrick
Ano: 2026
Gênero: Comédia/Drama/Romance
Avaliação: 3.5/5 1 1
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