Todo mundo já pensou em casar com a primeira namorada, ter com ela os filhos que ofereceriam amparo aos dois quando o sol da vida começasse a descer e a velhice fosse uma realidade inescapável — e depois dela a morte, serena e consagradora. Nove décimos da humanidade nunca saberão o que é isso, o que não quer dizer que a felicidade conjugal seja impossível, muito pelo contrário: quanto mais se abre o leque, mais aumentam as chances de surgir, afinal, a tampa da panela. Protagonistas de “Entre Nós — Uma Dose Extra de Amor”, Olivia, Jenny e Connor rejeitam ideias tradicionais de compromisso, e essa sublevação tão pessoal acaba dando em encrenca. Chad Hartigan contorna um tabu sem a pretensão de dar soluções fáceis, mas elementos que possibilitam ao espectador uma reflexão madura sobre carências próprias desses tempos de solidão a dois ou mais.
Paquera no casamento
A primeira sequência presta-se a uma bela alegoria sobre o quão preparados para o envolvimento afetivo podem estar um homem despojado e uma mulher independente, aproveitando tudo quanto lhes oferecem a beleza e a juventude. Enquanto Connor e os outros convidados perambulam pelo salão, Olivia devora seu jantar, rápido, porque tem que trabalhar naquela mesma noite, dali a pouco. Eles estão no casamento de Greg e Matthew, amigos em comum, e o roteiro de Ethan Ogilby vai elencando um rol de situações que insinuam algum vínculo prévio e (muito mal resolvido). Essa impressão se confirma quando Connor visita Greg no pub onde ele trabalha como bartender e Olivia serve mesas, e ainda que todas as evidências apontem para um clímax, Hartigan conduz o enredo para o inverso do que se esperava quando uma mostra uma garota sozinha num malogrado primeiro encontro. Quase tudo o que vem depois deriva daí, mas o filme dribla qualquer conclusão ligeira e aborda as gravidezes indesejadas de Olivia e Jenny com uma prudência rara, com menções colaterais a temas como livre-arbítrio e (ir)responsabilidade. Jonah Hauer-King, Zoey Deutch e Ruby Cruz vão da leviandade para o choque da descoberta que justifica o longa com uma convicção tal que faz de “Entre Nós — Uma Dose Extra de Amor” um filme nada óbvio.

