Um dos filmes que mais guardo com carinho da minha infância é “Da Magia à Sedução”, filme lançado em 1998, estrelado por Nicole Kidman e Sandra Bullock. Já assisti dezenas de vezes e recentemente decidi repetir a sessão para ver se ainda existia o mesmo encantamento pela história. Vi que sim. Muito me surpreendi quando, ao ler críticas antigas da época do lançamento, percebi que ele não havia sido recebido como eu imaginava. Adivinhem só, nos anos 90, parte da crítica rejeitou o enredo e apontou uma confusão tonal, dizendo que o filme era adulto demais para crianças e infantil demais para adultos.
Naquela época eu já amava. Imagine hoje, quando o filme parece mais bem compreendido. Há várias camadas nessa história que talvez faltasse um pouco de bagagem à crítica para compreender. O enredo, baseado no livro de Alice Hoffman, fala sobre duas irmãs, Sally (Bullock) e Gillian (Kidman), que cresceram isoladas pela vizinhança de sua pequena cidade, porque pertenciam a uma linhagem muito antiga de bruxas. Na prática, os vizinhos nunca as viram praticar nenhum tipo de magia, mas a fama corre. As meninas crescem sob os cuidados das tias Frances e Jet, que tentam transmitir a elas os conhecimentos mágicos da família. No entanto, Sally deseja negar essas raízes e viver como uma mulher normal.
Amor, maldição e violência
Quando adulta, Sally se apaixona por Michael (Mark Feuerstein), com quem se casa e tem duas filhas. O casal vive uma vida perfeita e apaixonada, até a morte de Michael, devido a uma maldição que prevê a morte de todos os homens que amam as mulheres da família. Gillian, que vive uma vida badalada, se relaciona com Jimmy Angelov (Goran Višnjić), com quem tem um relacionamento conturbado e marcado por violência doméstica. Durante uma crise provocada pelo parceiro, Gillian pede ajuda de Sally para resgatá-la, mas acaba envolvendo a irmã na morte de Jimmy, depois que Sally tenta sedá-lo para protegê-las. As duas levam o corpo dele para a casa da família e tentam esconder o ocorrido, mas, por causa de um feitiço feito para tentar consertar a situação, Jimmy retorna dos mortos e passa a atormentar Gillian.
Importante ressaltar que, mesmo depois de adultas, elas ainda são alvos de fofoca e bullying da vizinhança, assim como as filhas de Sally. É interessante o fato de o filme abordar como a sociedade trata as mulheres que não se encaixam nos padrões tradicionais. Se as mulheres não se comportam dentro de um padrão esperado, são vistas como bruxas, prostitutas e perigosas. Outro fator interessante é a abordagem da violência doméstica praticada por Jimmy. Mesmo quando Gillian tenta pôr um ponto final na relação, ele retorna para atormentá-la. O mesmo acontece na vida real, quando o ciclo de violência não acaba com o fim do relacionamento. O agressor sempre encontra formas de criar uma aproximação ameaçadora na vida da vítima.
Gary (Aidan Quinn) é um policial de Tucson que aparece na vida da família para investigar o paradeiro de Jimmy Angelov, que tem um histórico de violência com outras mulheres. Sally e Gillian tentam esconder o crime que provocou o desaparecimento de Jimmy e precisam mentir para Gary. No entanto, durante as investigações, Sally se dá conta de que Gary é o homem que ela havia imaginado em um feitiço durante a infância, com características impossíveis que teria criado para nunca se apaixonar.
A força da união feminina
A única salvação para Sally e Gillian é aceitar quem são, enfrentar a presença de Jimmy e se unir às outras mulheres da comunidade, exatamente aquelas que as rejeitam, para se livrar do agressor. O filme é muito vanguardista ao apontar que a união feminina é capaz de conter o mal provocado pela violência, pelo medo e pela rejeição.
“Da Magia à Sedução” é um filme leve e encantador, com pitadas de terror e fantasia que tornam a atmosfera muito mais interessante e inovadora. É um filme que foi mal compreendido, mas finalmente reconhecido como a joia preciosa que é.

