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Em 1972, em Collinsport, no Maine, Barnabas Collins (Johnny Depp) desperta após dois séculos enterrado e volta à Mansão Collinwood para salvar o nome da família, ameaçado pela ruína financeira, por parentes cheios de segredos e pela vingança de Angelique Bouchard (Eva Green). Dirigido por Tim Burton, “Sombras da Noite” mistura comédia, fantasia e horror gótico para acompanhar um aristocrata vampiro que retorna ao mundo moderno com mais pose do que juízo, tentando recuperar uma casa que o tempo quase levou embora.

A história começa em 1752, quando Joshua Collins e Naomi Collins deixam Liverpool, na Inglaterra, levando o pequeno Barnabas para uma nova vida na América. A mudança parece prometer riqueza, nome respeitado e distância suficiente de uma antiga maldição familiar. Em Collinsport, no Maine, a família prospera, ergue a imponente Mansão Collinwood e cria uma dinastia ligada à pesca, ao dinheiro e ao prestígio local. Por algum tempo, os Collins parecem ter vencido o passado apenas trocando de continente.

Duas décadas depois, Barnabas Collins (Johnny Depp) aparece como herdeiro rico, poderoso e sedutor. Ele domina a cidade com a naturalidade de quem nasceu cercado por criados, salões e sobrenome forte. O problema nasce quando ele parte o coração de Angelique Bouchard (Eva Green), uma mulher apaixonada, ressentida e dona de poderes que não aceitam humilhação. Ferida, Angelique transforma Barnabas em vampiro e o enterra vivo, retirando dele a fortuna, o amor, a liberdade e qualquer chance de defender sua família.

Esse ponto de partida dá ao filme seu melhor tempero. Tim Burton trabalha com um herói que já começa derrotado, embora conserve a empáfia de quem ainda acredita mandar em alguma coisa. Barnabas não é exatamente um monstro trágico nem um galã arrependido. É um homem antigo, vaidoso, perdido e perigoso, que acorda em outro século sem saber que o mundo continuou funcionando muito bem sem pedir autorização a ele.

O vampiro acorda em 1972

Quando Barnabas é libertado por acidente em 1972, “Sombras da Noite” troca o castigo fechado da tumba pelo espanto diante de uma década barulhenta, colorida e menos obediente. O vampiro retorna à Mansão Collinwood esperando encontrar grandeza, respeito e uma casa preservada à altura de seu nome. O que vê é bem diferente. A propriedade está deteriorada, a família perdeu influência e o império dos Collins virou lembrança empoeirada nos corredores.

A matriarca Elizabeth Collins Stoddard (Michelle Pfeiffer) ainda tenta manter alguma ordem. Ela vive na mansão com a filha Carolyn Stoddard (Chloë Grace Moretz), uma adolescente arredia, e com outros parentes igualmente difíceis de administrar. Entre eles estão Roger Collins (Jonny Lee Miller), mais interessado em conforto do que em responsabilidade, e o pequeno David Collins (Gulliver McGrath), um menino sensível, marcado pela ausência da mãe e cercado por adultos que nem sempre sabem ouvi-lo.

A chegada de Barnabas muda o clima da casa. Ele se apresenta como parente distante, mas carrega um segredo impossível de sustentar por muito tempo. Elizabeth percebe que aquele homem estranho pode ajudar a recuperar a fortuna perdida, mesmo que sua presença traga riscos. A família Collins precisa de dinheiro, de prestígio e de uma figura capaz de enfrentar Angelique. Barnabas precisa de teto, aliados e alguma explicação aceitável para ter surgido do nada com aparência de nobre antigo.

Collinwood recebe novos segredos

A Mansão Collinwood funciona quase como outra personagem. Seus salões, quartos fechados e corredores escuros guardam a memória de uma família que já foi poderosa e agora vive de restos. É ali que o filme reúne seus personagens mais curiosos, cada um com uma pequena rachadura. A Dra. Julia Hoffman (Helena Bonham Carter), psiquiatra contratada por Elizabeth, observa a família com olhos profissionais, mas também com interesse pessoal quando descobre a verdadeira natureza de Barnabas.

Julia é uma das presenças mais saborosas do filme. Helena Bonham Carter dá à personagem uma mistura de cansaço, ironia e oportunismo, fazendo dela alguém que parece sempre um passo atrás de um escândalo. Ela deveria tratar os problemas emocionais da casa, mas acaba envolvida em um caso que nenhum consultório resolveria sem levantar sobrancelhas. Quando percebe que Barnabas é um vampiro, sua curiosidade médica passa a disputar espaço com a ambição.

Victoria Winters (Bella Heathcote) também chega a Collinwood carregando mistério. Contratada como governanta de David, ela desperta em Barnabas uma ligação com lembranças antigas, especialmente pela semelhança com Josette, o grande amor perdido do vampiro. Essa aproximação dá ao filme uma camada romântica sem pesar demais a mão. Burton prefere deixar o sentimento atravessado por estranhamento, desejo e culpa, mantendo a história no território de uma fantasia sombria, mas com sorriso de canto.

Angelique controla a cidade

Enquanto os Collins sobreviveram em decadência, Angelique Bouchard prosperou. Em 1972, ela é dona de poder econômico, influência social e presença dominante em Collinsport. Eva Green interpreta Angelique com charme venenoso, usando cada olhar como ameaça e cada gesto elegante como aviso. Ela não quer apenas punir Barnabas pelo passado. Quer impedir que ele recupere o lugar que perdeu.

A disputa entre Barnabas e Angelique dá força ao enredo porque envolve amor ferido, orgulho, dinheiro e controle público. Ele tenta reerguer os negócios da família para devolver aos Collins alguma relevância. Ela usa a própria vantagem para bloquear esse retorno e manter a cidade sob seu domínio. O embate tem feitiçaria, sedução e ressentimento, mas também tem algo bem terreno. Quem controla os recursos controla a narrativa da cidade e decide quem volta a ser respeitado.

É nesse choque que a comédia ganha espaço. Barnabas fala com solenidade antiga, veste-se como se ainda estivesse no século 18 e reage aos costumes modernos com uma seriedade deliciosamente inadequada. Televisão, música, roupas, carros e hábitos dos anos 1970 parecem ofensas pessoais ao seu código aristocrático. Johnny Depp aposta num vampiro empolado, educado e completamente deslocado, o tipo de figura que tenta preservar a dignidade enquanto o mundo ri pelas beiradas.

Tim Burton entre sombra e piada

“Sombras da Noite” tem a marca de Tim Burton no gosto por famílias esquisitas, mansões enormes, personagens pálidos e paixões pouco saudáveis. O filme não abandona o horror, já que Barnabas continua sendo um vampiro com fome, força e impulsos difíceis de esconder. Ainda assim, a produção se inclina bastante para a comédia, principalmente quando coloca o protagonista tentando sobreviver à modernidade com etiqueta de salão e instinto predatório.

A totalidade é irregular, mas nunca sem personalidade. Algumas piadas funcionam pela diferença entre o tom nobre de Barnabas e a banalidade ao redor. Outras dependem demais do estranhamento entre passado e presente. Mesmo assim, a graça mais duradoura está na forma como o filme olha para uma família que quer voltar ao topo, embora mal consiga administrar a própria sala de estar. Os Collins têm nome, mansão e pose. Falta quase todo o resto.

Michelle Pfeiffer dá firmeza a Elizabeth, a mulher que ainda tenta salvar a casa sem perder a compostura. Eva Green domina suas aparições com uma vilã que mistura desejo, cálculo e raiva antiga. Johnny Depp, por sua vez, trata Barnabas como um aristocrata preso em uma pegadinha histórica, alguém assustador o bastante para morder pescoços e ridículo o bastante para levar a própria pose a sério demais.

“Sombras da Noite” acompanha Barnabas tentando recuperar Collinwood e descobrindo que voltar dos mortos pode ser mais simples do que lidar com parentes, contas, paixões antigas e uma bruxa ressentida. A mansão continua de pé, mas cada porta aberta traz uma nova cobrança para a família Collins.


Filme: Sombras da Noite
Diretor: Tim Burton
Ano: 2012
Gênero: Comédia/Fantasia/Terror
Avaliação: 4/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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