Junto com a filosofia, a crença num deus qualquer, surgido da esperança de dias melhores e de tempos que possam escapar à tensão da vida mundana, orienta o espírito do homem para uma percepção menos niilista da existência. Por ser tão poderosa, a fé desperta paixões e interesses difusos de constituição divinal, e é nesse oceano de possibilidades que “Invasores de Corpos” navega. Philip Kaufman tonifica seu filme realçando o absurdo do livro homônimo de Jack Finney (1911-1995), de 1955, e o roteiro de W.D. Richter é pródigo de lances que aterrorizam sem precisar de alienígenas horrendos que chegam em titânicas naves. Kaufman reúne num mesmo pacote os laivos de autodestruição do homem a questões muito mais concretas e muito mais urgentes.
Vizinhos impertinentes
Quanto mais longe fica o homem do mundo, mais se aproxima de sua própria alma. Seus mistérios, ainda que absorventes, tornam-se menos indóceis, e a vida até parece mais fácil. Um lado ambivalente da natureza humana, pleno de luzes e sombras, mantém-se a salvo da curiosidade quase sempre destrutiva de quem nos rodeia, mas sempre existem flancos. Kaufman e Richter chegam a uma versão intimista de “Vampiros de Almas” (1956), clássico de Don Siegel (1912-1991), batendo na tecla de nossa resistência ao desconhecido, algo que pode não ser necessariamente ruim. Aqui, Matthew Bennell e Elizabeth Driscoll, um casal da São Francisco dos anos 1970, estranha o comportamento de amigos e parentes, embora nem desconfiem que eles não são mais donos de seus corpos e tenham virados autômatos de criaturas que aparecem em casulos e migram para os terráqueos para fechar esse primeiro ciclo e conquistar de vez seu novo habitat. Donald Sutherland (1935-2024) e Brooke Adams seguram boa parte dos 115 minutos, contando com a ajuda de Leonard Nimoy (1931-2015), que rouba a cena na pele do psiquiatra David Kibner.

