Diretores verdadeiramente talentosos sabem preparar refrescos docinhos de frutas azedas, ácidas até, não sem um esforço muitas vezes inglório, quase sobre-humano, cujas implicações só eles mesmos conhecem. Suspenses talvez sejam as histórias mais marcadamente cheias de altos e baixos, pelos quais, por óbvio, não se espera — ou não deveria se esperar. Para dizer o mínimo, é sutil a diferença entre uma história protocolar e o legítimo clássico, que o passar dos anos só ajuda a cristalizar como um instante de brilho raro de um cineasta habilidoso, tomado pela inspiração. Wes Craven (1939-2015) poderia muito bem acionar o piloto automático e deixar que “A Última Casa à Esquerda” se conduzisse por si só, com os resultados previsíveis que não tocam ninguém. O que se vê, porém, é um dos maiores nomes do terror a ratificar a grandeza de seu ofício, fazendo do banal algo que não perece.
A bomba embaixo da mesa
Aqui, o diretor, eternizado como o gênio por trás dos filmes da série “Pânico” e “A Hora do Pesadelo”, destoa um pouco das produções que o fizeram célebre, cultuado e milionário, mas só um pouco. Craven e a corroteirista Ulla Isaksson socorrem-se do nonsense e dos jumpscares, os sustos repentinos que levam o espectador a pular da cadeira, mas sabem dosar o impacto do recurso com elucubrações pertinentes sobre o pendor juvenil para graves enroscos com a lei, materializados em cenas que colocam à prova a moral da plateia. Não há os banhos de sangue que caem tão bem produções meio artesanais a exemplo de “Verão do Medo” (1978) ou no ainda mais explícito “Convite Para o Inferno” (1984). Craven só transforma a ida de duas garotas a um show de rock num estupro que acaba em morte. E o que choca mesmo é saber que ele nem precisou esforçar-se muito, uma vez que inspirou num episódio verídico. Nada pode ser tão hediondo como a vida real, e Craven se destaca por ter vislumbrado isso já em sua estreia.

