Em “Feras no Jardim”, Embeth Davidtz acompanha a infância de Bobo Fuller, vivida por Lexi Venter, uma menina de oito anos que cresce na fazenda da família na antiga Rodésia, atual Zimbábue, quando a Guerra Bush se aproxima do fim, em 1980. A casa onde ela corre, brinca, observa os adultos e convive com empregados também guarda armas, raiva, luto e uma sensação permanente de ameaça. O filme parte desse contraste para narrar uma criança que ama pessoas colocadas em campos opostos pela história.
Bobo, cujo nome completo é Alexandra Fuller, vive entre dois mundos que ela ainda não consegue separar. De um lado está a mãe, Nicola Fuller, interpretada pela própria Embeth Davidtz, uma mulher instável, exausta, presa à fazenda e ao passado colonial da família. De outro está Sarah, vivida por Zikhona Bali, presença de cuidado, rotina e afeto em uma casa que muitas vezes parece funcionar por teimosia. A menina circula por esses espaços com a confiança de quem ainda acha que o mundo adulto possui alguma lógica.
A fazenda vira trincheira
A guerra não chega a Bobo apenas por batalhas ou grandes discursos. Ela entra pela tensão dos adultos, pela vigilância da propriedade, pela forma como a família fala da terra e pelo medo que acompanha cada mudança política. A fazenda dos Fuller não é mostrada como refúgio inocente. É casa, herança, posto de defesa e sinal de poder. Quando o país se prepara para deixar para trás a Rodésia e assumir o nome de Zimbábue, aquela família branca percebe que a terra onde vive já não obedece às antigas certezas.
Nicola é uma figura difícil de acompanhar sem desconforto. Ela cuida da filha, mas também a expõe a um ambiente atravessado por álcool, instabilidade e rancores. Embeth Davidtz não suaviza a personagem para ganhar simpatia fácil. Nicola é maternal em alguns gestos e brutal em outros. Essa contradição chega a Bobo em pedaços. A menina não dispõe de maturidade para julgar a mãe, mas sente o peso de cada alteração de humor dentro da casa.
Tim Fuller, interpretado por Rob van Vuuren, aparece como pai ligado à manutenção da propriedade e à tentativa de segurar uma ordem que se desfaz ao redor. A presença dele ajuda a compor uma família que vive entre deveres rurais, medo político e apego a uma África que insiste em não caber mais no imaginário colonial dos Fuller. Vanessa Fuller, vivida por Anina Reed, irmã de Bobo, também sente essa pressão, embora já enxergue a casa com menos fantasia infantil.
Sarah oferece outro abrigo
Sarah ocupa um dos pontos mais sensíveis de “Feras no Jardim”. Ela cuida de Bobo, estabelece rotina, oferece escuta e sustenta parte da vida doméstica, mas nunca está em igualdade com os patrões. Zikhona Bali interpreta a personagem com uma contenção bonita, sem transformar Sarah em figura santa ou decorativa. Sua relação com Bobo tem carinho, mas também carrega a desigualdade de uma casa onde afeto e hierarquia dividem o mesmo cômodo.
É nesse vínculo que o filme ganha algumas de suas melhores cenas emocionais. Bobo procura Sarah porque ali existe presença, e presença, para uma criança assustada, vale mais do que qualquer explicação adulta. Ao mesmo tempo, a menina repete comportamentos e palavras do ambiente em que foi criada. Ela é amorosa, curiosa, atrevida e, em certos instantes, cruel sem saber direito o alcance do que faz. Essa mistura dá humanidade à personagem, sem transformá-la em símbolo limpo demais.
Lexi Venter é o grande achado do filme. Sua Bobo tem cabelo desgrenhado, energia de bicho solto e uma coragem que às vezes parece coragem apenas porque falta juízo. Ela corre, encara adultos, fala demais, pergunta na hora errada e atravessa a fazenda com uma liberdade que seria engraçada se o cenário não fosse tão perigoso. A leveza nasce dessa infância sem filtro, mas o riso vem sempre acompanhado por uma ponta de apreensão.
A guerra vista de baixo
A decisão mais forte de Embeth Davidtz está no ponto de vista. A diretora filma a guerra a partir da altura emocional de Bobo. O público sabe mais do que a menina sobre colonialismo, racismo e violência política, mas recebe muitas informações no mesmo ritmo confuso com que ela percebe os acontecimentos. Esse recorte impede que “Feras no Jardim” vire aula histórica ou panfleto. A obra prefere acompanhar o efeito da guerra dentro de uma casa, de uma família e de uma criança.
Essa escolha também pede atenção do espectador. O filme não entrega tudo mastigado. Muitos conflitos aparecem em gestos, silêncios, olhares e reações que Bobo registra antes de ter linguagem para organizar. A diretora trabalha bem essa limitação. Quando algo fica fora de quadro, a sensação não é de economia vazia, mas de infância cercada por assuntos proibidos. A menina escuta, absorve, imita e sofre, mesmo quando os adultos fingem que ela não está ali.
“Feras no Jardim” pode incomodar quem espera uma narrativa de guerra mais convencional. O interesse está menos na cronologia dos fatos históricos e mais no estrago íntimo causado por eles. A Guerra Bush pressiona a fazenda, mas o filme observa especialmente a decomposição de uma família que insiste em preservar privilégios, lembranças e modos de vida em um país prestes a virar outra página. A política aparece no chão da casa, na cozinha, no quintal e nos corpos cansados.
Uma casa sem inocência
A crítica do filme é firme porque nasce do enredo, não de frases prontas. Bobo ama a mãe, confia em Sarah, convive com o pai e absorve a lógica de uma família que se sente dona de uma terra em transformação. O desconforto está nessa proximidade. A criança é vítima de um ambiente instável, mas também aprende com ele. Embeth Davidtz filma essa ambiguidade com coragem e uma secura que combina com o material.
“Feras no Jardim” cresce quando deixa o espectador preso à pergunta mais incômoda. O que uma criança guarda quando cresce em uma casa onde amor, medo e privilégio usam a mesma porta de entrada? O filme não precisa entregar uma resposta fechada. Basta acompanhar Bobo andando pela fazenda, buscando colo onde ainda existe algum calor, enquanto os adultos tentam salvar um mundo que já perdeu autorização para continuar igual.

