Os tantos inesperados da vida quase sempre flagram-nos em horas de fraqueza, e então somos acareados com nossos demônios. Nessas ocasiões, vemos o quanto de verdade há na figura que nos arrosta todos os dias ao espelho, e com a qual esbarramos mil vezes por segundo no retiro dos pensamentos tenebrosos. Lamentavelmente, nem tudo é tão simples assim e toda história tem dois lados e uma miríade de versões, incômodo que cresce em “Hallow Road: Caminho sem Volta”, um terror psicológico sobre uma família que desaba sob uma nuvem de ressentimento e frustrações. Experiente no assunto, o britânico-iraniano Babak Anvari ilumina medos de natureza muito particular, e chega a uma lição válida para todos.
Vozes na noite
Um casal atravessa a madrugada cercado pela angústia de não saber o paradeiro da única filha. O roteiro de William Gillies fixa-se em vultos que tomam forma aos poucos, dando pistas sobre a razão do mal-estar que persiste até o desfecho, insinuando a ação de forças sobrenaturais, mas também fazendo questão de ressaltar o peso de escolhas infelizes, de pouca monta no começo, mas que não tardam a revelar sua força ruinosa. Maddie é uma paramédica obrigada a abreviar a carreira por um motivo que o diretor explica no terceiro ato, e talvez por isso, ela crê, Alice tenha feito a ligação que o público acompanha num misto de desconforto e excitação, muito pelo vigor de Rosamund Pike e Megan McDonnell. São elas que acham a justa instabilidade numa relação na qual o amor luta para não morrer.

