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“Os Emigrantes” começa na falta de comida. A família de Kristina e Karl-Oskar vive numa Suécia rural em que a terra já sustenta pouco, a religião pesa nas decisões e a América surge primeiro como tentativa de saída. Erik Poppe filma essa viagem em 148 minutos, demorando-se no lugar onde quase nada sobra antes de levar os personagens ao navio rumo aos Estados Unidos. A miséria muda de escala durante a travessia. A aposta também.

A escolha de colocar Kristina à frente tira o drama do caminho mais previsível. Karl-Oskar, vivido por Gustaf Skarsgård, mede a fome, pensa na terra e conduz a partida. Ele tem razões práticas para querer ir embora. Com Kristina, interpretada por Lisa Carlehed, a migração cobra em outro lugar. Ela envolve filhos, parto, culpa religiosa, medo de perda e a obrigação de continuar mesmo quando a ideia de futuro já feriu a vida presente.

A fotografia de John Christian Rosenlund separa bem a Suécia deixada para trás da América encontrada depois da travessia. As casas pobres parecem usadas, com cômodos apertados e objetos ligados ao trabalho e à falta. A trilha de Johan Söderqvist aumenta o tamanho da viagem. Em algumas passagens, esse capricho deixa a provação bonita demais. Paisagens amplas, música solene e sofrimento emoldurado afastam o filme da aspereza que a história pede. A família convence mais quando a cena volta para a comida escassa, para a casa apertada e para decisões tomadas sem qualquer conforto.

A fome em casa

A parte sueca impede que a partida seja confundida com aventura. A comida falta, a terra responde pouco e a comunidade religiosa aperta quem já vive sem margem. A América surge como saída incerta. Ao partir, a família leva no navio a culpa, a obediência, os medos e as diferenças sociais que já existiam em Småland.

Kristina escapa do lugar de mártir decorativa. Lisa Carlehed interpreta uma mulher que calcula perdas que os outros preferem chamar de esperança. Ela recebe a promessa americana de modo diferente de Karl-Oskar porque, para ela, recomeçar inclui filhos, trabalho, luto e uma fé que muitas vezes pesa mais do que ampara. A atriz evita transformar sofrimento em exibição. Nas pausas, nas reações às decisões da família e no modo como continua sem aderir por inteiro ao entusiasmo dos outros, aparece uma mulher fazendo contas que ninguém faz por ela.

A convivência com Ulrika, vivida por Tove Lo, leva o filme para um caminho menos gasto. As duas mulheres vêm de lugares diferentes dentro da mesma comunidade. Uma está mais presa à religião e à família; a outra já chega marcada por julgamentos sociais. A aproximação entre elas mostra como reputação, sexualidade e obediência eram vigiadas antes da viagem. Depois do oceano, essas regras reaparecem nas relações, nos medos e na forma como cada uma tenta viver com o que trouxe de casa.

Terra nova, contas velhas

Em Minnesota, a chegada traz outro tipo de cobrança. A América de “Os Emigrantes” oferece terra, distância da fome sueca e promessa de autonomia, junto com trabalho, adaptação e medo. A casa precisa ser erguida, a comida precisa aparecer, e a família precisa lidar com um cansaço que a viagem deixou intacto.

Aqui o filme esbarra numa dificuldade antiga das sagas de colonos. A história fica quase toda com a família europeia, e os povos indígenas aparecem com menos variedade do que deveriam. O sofrimento dos emigrantes existe dentro da narrativa, mas o mundo que eles encontram já era habitado. Quando isso fica pequeno na tela, a fronteira americana passa a servir demais aos recém-chegados.

Os 148 minutos têm trechos que precisam de tempo. Uma mudança de país, língua e vida doméstica exige duração. Outros blocos avançam como etapas esperadas de romance adaptado, com fome, decisão, viagem, chegada e adaptação se sucedendo quase por obrigação. O filme rende melhor quando deixa essa ordem de acontecimentos e se fixa nas consequências práticas de cada escolha, como a comida que falta, a casa que precisa existir e a fé incapaz de resolver a exaustão.

“Os Emigrantes” volta a Kristina sempre que quer escapar da saga convencional. Sua vida impede que a migração seja narrada apenas pelo desejo de fundar uma casa em outro país. A esperança, para ela, vem misturada a sono, oração, filhos, trabalho, culpa e a uma paciência que os outros tratam como dever.

Poppe realiza um drama histórico de bom acabamento, com elenco capaz de atravessar boa parte da duração e uma protagonista que afasta o filme da reverência vazia. Leva consigo, também, hábitos conhecidos do gênero. Embeleza a provação em alguns trechos, alonga passagens já resolvidas e dedica menos atenção à fronteira americana do que à família sueca. “Os Emigrantes” revisita a saga de migração sem tratar a América como resposta. Kristina segue viagem porque precisa seguir. A adesão ao futuro escolhido por todos nunca parece completa.


Filme: Os Emigrantes
Diretor: Erik Poppe
Ano: 2021
Gênero: Drama/História
Avaliação: 4/5 1 1
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