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Houve um tempo em que o amor não ousava dizer seu nome. Nesse passado nem tão remoto, homens amavam mulheres, negros casavam-se com negras, muçulmanos pensavam nas ocidentais como devassas que os arrastariam para o mais fundo do inferno e o mundo se encerrava num imenso campo minado, onde todo passo obedecia à fria lógica de jamais sobrepujar as convenções, mesmo que isso significasse ter de, dia após dia, bater de frente com sua própria natureza e admitir uma serena infelicidade, adequada aos outros. “O Reino de Deus” não é só uma história de amor entre dois homens: é um retrato da solidão, a solidão especialmente cruel de quem precisa fugir de si mesmo, renegar sua própria natureza. O diretor Francis Lee chega aos conflitos dessa alma presa num existir brutal lançando mão de cenas do cotidiano exaustivo que estrangula as paixões e só deixa espaço para a sobrevivência. Mas o desejo se faz ouvir.

Um lugar silencioso

Ainda que não se dê conta, Johnny Saxby está à procura de seu lugar no mundo — e não é nas Montanhas Pennine, no norte da Inglaterra. Johnny é fustigado pela carência de tudo, martírio que tenta suavizar com noitadas de bebedeira e sexo fortuito, entre uma e outra ida à cidade, para vender os animais que cria na pequena fazenda onde cresceu. Melancólico, nesse primeiro recorte de sua vida cabem também registros de seu ganha-pão, com inseminações de vacas e partos de ovelhas, além de consertos no curral e nos muros da propriedade, o que acaba exigindo reforços. Meio por acaso, surge Gheorghe, imigrante romeno que se defende realizando trabalhos braçais na região, e o encontro dos dois vira a ocasião perfeita para que Johnny se enxergue. Cheio de óbvias referências a “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005), o enredo só ganha identidade própria graças ao trabalho de Josh O’Connor e Alec Secăreanu, nessa ordem. O’Connor recorre a seu inegável carisma para burlar os momentos de pieguice do roteiro do diretor, que ficam mais evidentes no desfecho um tanto simplório. Aqui, o amor até pode ser uma força indomável, como dizia o cartaz de divulgação do longa de Ang Lee, mas O’Connor e Secăreanu penam para nos convencer.


Filme: O Reino de Deus
Diretor: Francis Lee
Ano: 2013
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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