Houve um tempo em que o amor não ousava dizer seu nome. Nesse passado nem tão remoto, homens amavam mulheres, negros casavam-se com negras, muçulmanos pensavam nas ocidentais como devassas que os arrastariam para o mais fundo do inferno e o mundo se encerrava num imenso campo minado, onde todo passo obedecia à fria lógica de jamais sobrepujar as convenções, mesmo que isso significasse ter de, dia após dia, bater de frente com sua própria natureza e admitir uma serena infelicidade, adequada aos outros. “O Reino de Deus” não é só uma história de amor entre dois homens: é um retrato da solidão, a solidão especialmente cruel de quem precisa fugir de si mesmo, renegar sua própria natureza. O diretor Francis Lee chega aos conflitos dessa alma presa num existir brutal lançando mão de cenas do cotidiano exaustivo que estrangula as paixões e só deixa espaço para a sobrevivência. Mas o desejo se faz ouvir.
Um lugar silencioso
Ainda que não se dê conta, Johnny Saxby está à procura de seu lugar no mundo — e não é nas Montanhas Pennine, no norte da Inglaterra. Johnny é fustigado pela carência de tudo, martírio que tenta suavizar com noitadas de bebedeira e sexo fortuito, entre uma e outra ida à cidade, para vender os animais que cria na pequena fazenda onde cresceu. Melancólico, nesse primeiro recorte de sua vida cabem também registros de seu ganha-pão, com inseminações de vacas e partos de ovelhas, além de consertos no curral e nos muros da propriedade, o que acaba exigindo reforços. Meio por acaso, surge Gheorghe, imigrante romeno que se defende realizando trabalhos braçais na região, e o encontro dos dois vira a ocasião perfeita para que Johnny se enxergue. Cheio de óbvias referências a “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005), o enredo só ganha identidade própria graças ao trabalho de Josh O’Connor e Alec Secăreanu, nessa ordem. O’Connor recorre a seu inegável carisma para burlar os momentos de pieguice do roteiro do diretor, que ficam mais evidentes no desfecho um tanto simplório. Aqui, o amor até pode ser uma força indomável, como dizia o cartaz de divulgação do longa de Ang Lee, mas O’Connor e Secăreanu penam para nos convencer.

