Discover

Lançado em 2005, “A Sogra”, dirigido por Robert Luketic, acompanha Charlotte “Charlie” Cantilini, vivida por Jennifer Lopez, uma jovem trabalhadora, romântica e bastante acostumada a encontros frustrantes. Ela vive entre bicos, compromissos e a esperança de achar alguém minimamente funcional no cardápio sempre acidentado da vida amorosa. Quando conhece Kevin Fields, interpretado por Michael Vartan, tudo parece enfim sair do improviso. Ele é gentil, estável, bonito e interessado de verdade. Para Charlie, que já atravessou sua cota de decepções, o romance surge quase como um prêmio por resistência.

O problema atende pelo nome de Viola Fields, personagem de Jane Fonda. Mãe de Kevin, ela acaba de perder o emprego como apresentadora de TV e vê o noivado do filho como mais uma ameaça ao seu lugar no mundo. Sem o programa, sem o controle da rotina profissional e com medo de ser deixada para trás, Viola transfere sua frustração para Charlie. A futura nora passa a ser tratada como invasora, embora tenha cometido apenas o crime gravíssimo de amar o filho da pessoa errada.

Viola transforma afeto em disputa

A força de “A Sogra” está nessa premissa simples, quase doméstica, mas muito reconhecível. Viola não quer apenas opinar sobre o casamento. Ela quer impedir que Charlie ocupe um espaço que, na cabeça dela, sempre pertenceu à mãe. A partir desse medo, a personagem monta pequenas sabotagens, encena fragilidade, exagera reações e tenta empurrar a noiva para situações constrangedoras. O riso nasce da desproporção entre o gesto e a ameaça imaginada por Viola.

Jane Fonda abraça a personagem com prazer evidente. Viola é vaidosa, dramática, autoritária e, ao mesmo tempo, patética em sua dificuldade de aceitar perdas. A demissão na TV pesa sobre cada atitude dela, porque o filme sugere uma mulher acostumada a ter câmera, equipe, ordem e plateia. Ao perder esse palco, ela tenta montar outro dentro da família. Kevin vira o centro dessa disputa, e Charlie vira a pessoa a ser afastada antes que o casamento avance.

Charlie abandona a delicadeza pura

Charlie começa a história tentando agir com educação. Ela quer ser aceita, respeita Kevin e procura lidar com Viola sem transformar o noivado em campo de batalha. Só que a gentileza logo cobra caro. Cada tentativa de aproximação abre espaço para uma nova manobra da sogra. O filme ganha ritmo quando Charlie percebe que permanecer calada apenas facilita o trabalho da adversária.

Jennifer Lopez segura bem essa virada. Sua Charlie não perde a doçura, mas passa a responder com mais firmeza. A personagem deixa de ser apenas a noiva simpática e assume uma postura mais esperta diante das armadilhas. Essa mudança dá ao filme sua parte mais divertida, porque as duas mulheres começam a disputar poder em ambientes aparentemente civilizados. Um jantar, uma conversa familiar ou um preparativo de casamento bastam para que a tensão mude de temperatura.

Ruby rouba a cena sem pedir licença

Ruby, interpretada por Wanda Sykes, é uma das melhores peças da comédia. Assistente antiga de Viola, ela acompanha os planos da chefe com uma mistura de lealdade, cansaço e sarcasmo. Ruby sabe que Viola passou do ponto, mas também conhece bem o tamanho do furacão que teria de enfrentar caso tentasse impedi-la. Por isso, sua presença funciona como uma espécie de termômetro da loucura alheia.

Wanda Sykes encontra graça nos comentários secos, nas pausas e na expressão de quem já viu aquela mulher transformar qualquer contratempo em crise pessoal. Ruby ajuda Viola, mas raramente parece convencida de que aquilo dará certo. Essa diferença entre obediência profissional e julgamento silencioso rende alguns dos momentos mais leves do filme. Quando a trama ameaça exagerar demais, Ruby traz a comédia de volta para o chão.

Kevin demora a enxergar o incêndio

Kevin, vivido por Michael Vartan, ocupa uma posição curiosa. Ele é o motivo da briga, mas nem sempre percebe a dimensão do problema. Apaixonado por Charlie e ligado à mãe, ele tenta manter a paz sem encarar o que está acontecendo diante dele. Essa demora irrita Charlie e favorece Viola, que se aproveita da cegueira emocional do filho para avançar com seus planos.

O personagem também revela uma fragilidade comum nas comédias românticas familiares. O homem disputado costuma ser menos ativo do que as mulheres ao redor dele. Em “A Sogra”, isso fica ainda mais evidente porque Charlie e Viola têm energia, intenção e presença. Kevin parece gentil, mas sua gentileza nem sempre resolve. Quando ele hesita, Charlie precisa se defender sozinha dentro de uma família que ainda não a reconhece por completo.

Uma comédia sobre posse e insegurança

Robert Luketic trabalha com uma comédia de gestos grandes, caretas calculadas e situações que caminham para o absurdo sem abandonar totalmente o cotidiano. A direção aposta no choque entre duas imagens femininas fortes. De um lado, Charlie representa a mulher comum que tenta construir uma vida amorosa possível. Do outro, Viola representa uma mãe em crise, incapaz de aceitar que o filho adulto tenha outro centro afetivo.

O prazer do filme está na escalada da implicância, no duelo entre Jennifer Lopez e Jane Fonda e na maneira como uma história de casamento vira uma disputa por território emocional. A comédia tem exageros, alguns previsíveis, mas encontra charme quando permite que suas atrizes brinquem com a vergonha, o ciúme e a etiqueta social. No fim das contas, Charlie só quer casar com Kevin. Viola só quer continuar indispensável. Entre as duas, sobra para Ruby assistir ao estrago com a expressão de quem deveria receber adicional de periculosidade.


Filme: A Sogra
Diretor: Robert Luketic
Ano: 2005
Gênero: Comédia/Romance
Avaliação: 3.5/5 1 1
Leia Também