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Em “Indústria do Prazer”, Eleni vive há anos com o desaparecimento da melhor amiga. A falta de resposta deixou de ser apenas uma lembrança ruim e passou a organizar sua vida. Jornalista, ela se envolve em uma ação clandestina para expor uma rede de exploração sexual, e o filme de Goce Cvetanovski transforma essa busca em suspense criminal, com aproximações graduais, suspeitas trocadas de lugar e a promessa de chegar a quem manda no esquema.

O risco aparece cedo. Filmes sobre tráfico sexual costumam receber uma espécie de proteção moral, como se o assunto bastasse para garantir relevância. Não basta. Uma história sobre mulheres desaparecidas, crime organizado e exploração precisa ser julgada também pela maneira como usa a câmera, distribui atenção entre vítima, investigadora e criminoso, e decide quanto do horror vai virar suspense. “Indústria do Prazer” acerta quando fica colado à inquietação de Eleni. Escorrega quando trata a rede criminosa como trilha de pistas até uma figura de comando.

A repórter

Eleni entra na ação porque o sumiço da amiga nunca se encerrou para ela. Não é uma repórter neutra em busca de pauta forte. Ela quer saber o que aconteceu, e essa insistência dá alguma carne ao enredo. A investigação não nasce apenas de curiosidade profissional, mas de uma ausência que continua ativa. O filme entende isso sem precisar transformar cada decisão da protagonista em discurso explicativo.

Os momentos mais convincentes mostram Eleni chegando a uma organização que se revela aos poucos. Ela pergunta, calcula, aproxima-se de pessoas perigosas e percebe que cada nova informação piora sua posição. Saber mais não a protege. Em vários momentos, saber mais significa ficar perto de gente capaz de fazê-la desaparecer também.

Cvetanovski trabalha com fotografia escura, iluminação marcada e enquadramentos que colocam Eleni diante de corredores, salas fechadas e rostos sob suspeita. A opção combina com a história, porque há ali coerção, vigilância e medo. Mas esse tipo de acabamento pede cuidado. Em filmes sobre violência sexual, a imagem pode começar a admirar demais a própria composição e esquecer o que está filmando. “Indústria do Prazer” evita esse desvio em parte, pois mantém Eleni como ponto de referência. Em algumas passagens, porém, tudo parece limpo demais para uma história sobre comércio de mulheres.

A procura pelo chefe da organização dá ao filme uma direção simples. Há intermediários, há nomes a descobrir, há um comando a ser alcançado. Para o suspense, isso facilita a condução. Para o assunto tratado, a solução empobrece. O tráfico sexual aparece como sistema, mas o roteiro concentra expectativa na chegada a uma autoridade criminosa, como se a violência pudesse ser organizada em degraus até a origem do mal. O horror fica mais administrável. Também fica menor.

O thriller

Na segunda parte, o filme tenta manter a apuração em movimento e justificar por que Eleni insiste tanto. O desaparecimento da amiga sustenta a personagem, mas as voltas ao passado e às motivações reduzem a pressão da busca. A história continua avançando, só que seus encaixes ficam visíveis demais. Crime organizado, jornalismo, perda pessoal e confronto final precisam caber numa mesma linha.

Essa linha já foi muito usada. A jornalista entra no caso, descobre nomes, aproxima-se de cúmplices e chega perto do comando. “Indústria do Prazer” lida com uma violência que dificilmente obedeceria a passos tão ordenados, mas escolhe muitas vezes a clareza da investigação. O filme se torna acessível, às vezes até eficaz, embora simplifique aquilo que deveria parecer mais espalhado, menos localizável, menos disposto a se entregar em sequência de revelações.

Slagana, ou Slagjana Vujosevik, conduz Eleni como alguém dividida entre cálculo e insistência. Ao seu redor estão Musa Isufi, Ismail Kasumi, Damjan Cvetanovski e Eleni Dekidis, em papéis ligados à operação, à ameaça e ao crime organizado. Num filme sobre violência contra mulheres, o criminoso não pode tomar a cena apenas por ocupar o posto de maior poder. “Indústria do Prazer” tenta manter Eleni no centro, mas o suspense criminal costuma se interessar demais por predadores, intermediários e chefes. Quando isso acontece, o filme passa mais tempo rondando quem ameaça a protagonista do que acompanhando a protagonista.

A origem macedônia chama atenção num mercado acostumado a thrillers de países mais presentes nas plataformas. A Macedônia do Norte pode marcar espaços, relações de poder e modos de representar crime organizado. O passaporte, sozinho, não torna o filme mais original. O que importa é o que Cvetanovski faz com a repórter em campo, com a amiga desaparecida e com a escolha de contar tudo como perseguição e descoberta.

O diretor assina roteiro e montagem, além da direção, e essa concentração aparece na tentativa de manter a narrativa sempre próxima de Eleni. O filme evita desvios bruscos e conserva a história presa ao avanço da jornalista. Há coesão nesse percurso, mas algumas personagens ficam estreitas. A repórter marcada pela perda, os aliados da ação clandestina, os criminosos e a figura de comando entram no tabuleiro com funções reconhecíveis cedo demais.

O título brasileiro, “Indústria do Prazer”, carrega uma aspereza que o filme nem sempre acompanha. A palavra indústria sugere comércio, repetição e lucro. Prazer soa como a mentira usada para esconder exploração. O filme toca nessa combinação, mas costuma recuar para soluções de suspense quando poderia sujar mais a investigação, deixar a ameaça menos organizada, menos pronta para caber numa progressão policial. Há violência, ameaça e denúncia. Falta encarar com menos arrumação o que essa organização faz às mulheres.

“Indústria do Prazer” não é descartável. A premissa coloca Eleni em uma situação de perigo crescente, a fotografia tenta traduzir um ambiente de medo e a direção não trata o tráfico sexual como simples pano de fundo policial. O filme, porém, depende demais da jornalista movida por perda pessoal, dos degraus rumo ao chefe da organização e da promessa de revelação final. São caminhos usados tantas vezes pelo suspense criminal que a história acaba menor do que o assunto.

O peso contra o filme está nesse percurso gasto, em que a investigação avança, a ameaça se aproxima e a rede ganha um rosto. “Indústria do Prazer” incomoda pelo desaparecimento que move Eleni e pelo comércio de mulheres que descreve. Quando precisa transformar isso em cena, volta muitas vezes ao desenho conhecido do thriller, com pistas, aproximações e um comando esperando no alto da escada.


Filme: Indústria do Prazer
Diretor: Goce Cvetanovski
Ano: 2023
Gênero: Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
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