Em “A Crônica Francesa”, Wes Anderson parte da morte de Arthur Howitzer Jr., editor de uma revista norte-americana instalada na cidade fictícia de Ennui-sur-Blasé, para acompanhar a preparação do último número da publicação. A situação poderia render um filme de luto, cheio de retornos ao passado e contas pendentes com o editor morto. O caminho escolhido é outro. A revista passa a mandar na maneira de contar: cada bloco tem narrador, assunto, cenário, ritmo próprio e uma mudança visual que lembra a passagem de uma seção para outra.
“A Crônica Francesa” assume sua divisão em episódios sem tentar escondê-la. Há um passeio pela cidade, uma trama ligada ao mercado de arte, uma crônica sobre agitação estudantil e um segmento gastronômico-policial. As partes chegam com narração, quadros frontais, trechos em cor, trechos em preto e branco, cortes rápidos e cenários desenhados até o último objeto. Ruas, galerias, celas, cozinhas e salas de redação não parecem lugares encontrados pela câmera, mas ambientes preparados para receber personagens, frases, poses e pequenas interrupções.
A ligação com a revista não fica restrita à homenagem ao jornalismo. O filme trata a reportagem como escolha de tamanho, ordem, título e ênfase. Um fato vira matéria porque alguém separa personagens, decide onde começar, onde cortar, que detalhe merece ficar. O cinema de Anderson faz algo parecido: coloca pessoas e objetos em posições exatas, regula o tempo de uma pausa, usa a fala como peça de composição e trata cada mudança de quadro como uma virada de página. A comparação com uma edição impressa vem do modo como o filme se comporta, não de uma declaração externa.
Última edição
Há prazer em ver “A Crônica Francesa” transformar uma publicação fictícia em regra de funcionamento. O último número da revista não aparece só para reunir histórias independentes. Ele determina a alternância de narradores, a troca de assunto, o corte de uma seção para outra e a sensação de que cada episódio já chega com título, assinatura e espaço definido. A cidade de Ennui-sur-Blasé, com nome carregado de ironia, não deve ser lida como França real. É uma França feita de cartazes, cafés, becos, referências literárias, cinema antigo e fantasia estrangeira. O filme nunca tenta sujar demais essa imagem. Prefere arrumá-la.
A dificuldade aparece quando essa arrumação começa a decidir demais pelos personagens. O artista, a jornalista, o estudante, o chef, o editor e o cronista urbano entram em quadros de grande beleza, sempre cercados por objetos, cores, móveis e linhas que orientam a atenção. Quase sempre sabemos onde olhar. Depois de algum tempo, tanta indicação reduz a chance de surpresa. Os personagens vivem menos como pessoas em movimento do que como figuras escolhidas para caber no espaço disponível.
O elenco coral reforça essa impressão. Benicio del Toro, Adrien Brody, Tilda Swinton, Léa Seydoux, Frances McDormand, Timothée Chalamet, Lyna Khoudri, Jeffrey Wright, Mathieu Amalric, Stephen Park, Bill Murray e Owen Wilson não aparecem para desenvolver longas trajetórias dramáticas. Muitos entram por voz, postura, roupa, velocidade de fala, expressão seca ou maneira de ocupar um canto do quadro. Isso combina com uma revista, na qual um perfil mostra uma parte de alguém e passa adiante. Também deixa a ligação com essas figuras mais curta do que poderia ser.
A comédia nasce da compostura. A política estudantil, o mercado de arte, a gastronomia, o crime e a rotina editorial são tratados por uma câmera que raramente aceita bagunça. O humor vem da rigidez dos gestos, da fala seca, da posição exata dos atores e da calma com que acontecimentos graves são colocados em quadros muito arrumados. Essa graça aparece em vários momentos, mas se repete. Quando cada entrada já vem preparada para ser admirada, a surpresa diminui e a piada começa a chegar antes da cena.
Tudo no lugar
“A Crônica Francesa” leva longe a preferência de Anderson por molduras: quadro, página, lembrança, sala de redação, cidade, seção de revista. Cada história parece ter passado por um editor antes de chegar à tela. O fato bruto quase nunca entra. Ele aparece revisado, cortado, diagramado, com assinatura e legenda imaginária. O jornalismo mostrado aqui pertence menos à pressa de uma redação e mais ao mundo dos textos longos, das mesas cheias de papéis, dos correspondentes excêntricos, dos mapas, dos arquivos e das revistas capazes de transformar uma cidade inteira em matéria para leitura.
Essa nostalgia dá charme ao filme e também o prende a uma imagem limpa demais do ofício. Anderson parece ter grande afeição por capas, mesas, máquinas, pastas, fotografias, colunas e nomes de seção. A homenagem ao jornalismo fica próxima de uma coleção de objetos e tipos humanos ligados à cultura impressa, como se a redação fosse um lugar de precisão gráfica e personagens pitorescos, não um ambiente feito também de pressa, erro, disputa e sujeira cotidiana.
Reduzir “A Crônica Francesa” a ornamento, porém, seria perder sua graça real. A alternância entre cor e preto e branco separa modos de relato. A montagem empurra a passagem de uma matéria a outra sem deixar o filme repousar por muito tempo. A direção de arte cria Ennui-sur-Blasé como se um suplemento cultural tivesse sido dobrado e colocado de pé. A superfície não esconde uma obra que estaria em outro lugar. Ela é o lugar onde o filme trabalha.
O ponto menos convincente está nas pessoas que habitam essa cidade montada com tanta exatidão. A morte de Arthur Howitzer Jr. organiza a despedida da revista, mas pesa pouco como perda concreta. O fechamento do último número importa mais do que a ausência do editor. O resultado tem beleza, humor e invenção visual, mas mantém quase tudo sob controle: as ruas, os quartos, as ideias, os personagens, até a melancolia.
“A Crônica Francesa” convence quando faz a revista virar cinema sem parecer apenas brincadeira de estilo. A parte mais fraca está na dificuldade de deixar personagens e dramas durarem depois que a seção muda. Anderson entrega um filme cheio de soluções visuais e carinho pela cultura impressa, mas fechado demais no prazer de arrumar cada canto da tela. É uma obra que se visita pelo desenho, pela graça das entradas e pela imaginação editorial. O sangue circula pouco.

