“Branca de Neve e o Caçador” chegou aos cinemas em 2012 com a missão de revisitar um dos contos mais conhecidos da cultura ocidental. Sob direção de Rupert Sanders, o filme transforma a clássica história da princesa perseguida pela madrasta em uma fantasia sombria de guerra, sobrevivência e disputa pelo poder. O longa abandona boa parte do encanto infantil da versão popularizada pela Disney para apostar em uma atmosfera mais pesada, voltada para batalhas, intrigas políticas e jornadas de autodescoberta.
Quando criança, Branca de Neve (Kristen Stewart) vive feliz ao lado do pai, um rei respeitado que governa um reino próspero. Tudo muda quando Ravenna (Charlize Theron), uma mulher misteriosa e de extraordinária beleza, surge após uma batalha e rapidamente conquista a confiança do monarca. O casamento acontece quase sem demora. Na mesma noite, porém, Ravenna revela sua verdadeira face. Ela assassina o rei, toma o trono e inicia um governo marcado pelo medo e pela destruição.
A jovem princesa é aprisionada em uma torre durante anos enquanto observa seu reino definhar sob o comando da nova rainha. Ravenna utiliza magia para preservar a juventude e a beleza. Seu principal conselheiro é o Espelho Mágico, entidade que a orienta e alimenta sua obsessão pela imortalidade. Quando o espelho revela que Branca de Neve possui a chave para um poder ainda maior, a rainha percebe que manter a princesa viva atrás das grades passou a ser um risco.
Uma princesa em fuga
A oportunidade de escapar surge de forma inesperada. Branca de Neve consegue deixar a prisão e atravessa os limites do castelo, alcançando a temida Floresta Negra. O local funciona quase como um personagem da história. Árvores retorcidas, névoa constante e criaturas ocultas criam um ambiente hostil até para os soldados mais experientes.
Furiosa, Ravenna envia seus homens para recuperar a fugitiva. Entre eles está Eric (Chris Hemsworth), um caçador viúvo que afoga a dor da perda na bebida e na solidão. A rainha promete algo que ele acredita desejar acima de qualquer recompensa material. Convencido pela proposta, ele aceita participar da caçada.
O plano, entretanto, começa a desmoronar quando Eric descobre que foi usado. A confiança desaparece e o homem que deveria capturar Branca de Neve passa a protegê-la. A partir desse momento, o filme assume a estrutura clássica da aventura de estrada. Os dois atravessam territórios perigosos enquanto tentam permanecer vivos diante da perseguição constante da rainha.
Aliados pelo caminho
Durante a jornada, Branca de Neve deixa de ser apenas uma vítima dos acontecimentos. O isolamento da torre havia mantido a personagem distante do mundo real, mas a convivência com Eric a obriga a amadurecer. Ela aprende a enfrentar ameaças, a tomar decisões difíceis e a assumir responsabilidades que antes pertenciam ao pai.
Ao mesmo tempo, William (Sam Claflin), amigo de infância da princesa, descobre que ela está viva. Filho de um dos antigos aliados da coroa, ele parte em busca da jovem. Sua presença acrescenta uma camada emocional à narrativa porque representa uma ligação com a infância perdida de Branca de Neve e com o reino que existia antes da ascensão de Ravenna.
Ao longo do caminho surgem novos aliados, incluindo personagens inspirados nos anões da história original. O roteiro adapta essas figuras para um universo mais sombrio e menos fantasioso. Eles continuam importantes para a narrativa, mas aparecem integrados a um contexto de guerra e resistência.
A força de Charlize Theron
Embora Kristen Stewart ocupe o papel central, é Charlize Theron quem domina boa parte das cenas. Sua Ravenna é uma vilã movida por medo, ambição e ressentimento. A personagem acredita que a beleza é sua única ferramenta de sobrevivência e constrói toda a sua autoridade em torno dessa convicção.
A atriz entrega uma interpretação intensa, muitas vezes operando em um registro quase teatral. Em determinados momentos, a atuação flerta com o exagero, mas essa escolha combina com a dimensão operística que o filme procura alcançar. Ravenna não governa apenas um castelo. Ela governa uma fantasia construída para esconder inseguranças profundas.
Chris Hemsworth também contribui para o equilíbrio da narrativa. Seu Eric possui a aparência tradicional do herói de ação, mas carrega vulnerabilidades que tornam o personagem mais interessante do que um simples guerreiro encarregado de proteger a protagonista.
Entre conto de fadas e épico medieval
Rupert Sanders demonstra habilidade ao construir imagens grandiosas. Castelos decadentes, florestas encantadas, exércitos reunidos e paisagens amplas ajudam a criar a sensação de que o destino de todo um reino está em jogo.
O filme funciona melhor quando investe nessa escala épica. As sequências de aventura possuem energia e mantêm o interesse mesmo quando o roteiro segue caminhos previsíveis. Em contrapartida, algumas relações entre os personagens recebem menos desenvolvimento do que mereciam, especialmente diante da duração relativamente extensa da obra.
Ainda assim, “Branca de Neve e o Caçador” consegue sustentar sua proposta ao transformar um conto amplamente conhecido em uma fantasia adulta, marcada por disputas de poder e pela busca de identidade. Em vez de esperar por resgate, sua protagonista aprende a ocupar o centro da própria história.
Mais de uma década após o lançamento, o filme ainda é uma das adaptações mais ambiciosas do universo de Branca de Neve. Nem todas as apostas funcionam com a mesma força, mas a combinação entre aventura, fantasia sombria e um elenco carismático garante uma experiência envolvente. E, convenhamos, qualquer produção em que Charlize Theron transforma um espelho em seu assessor particular já começa alguns passos à frente da concorrência.

