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Em Tricidade, núcleo urbano da Polônia, localizado na voivodia da Pomerânia, norte do país, Leopold Bilski averigua um possível assassinato. Nesse balneário entre as cidades de Gdansk, Gdynia e Sopot, o mar Báltico é a única testemunha dos instantes finais de Monika Bogucka, que um longo flashback mostra bebendo numa boate, e o promotor se convence de que por trás da morte da garota há muito mais do que a polícia gostaria de saber. Assim se desenrola “As Cores do Mal: Vermelho” (2024), a versão cinematográfica de “Czerwień” (“vermelho”, em tradução literal), romance policial que a polonesa Małgorzata Oliwia Sobczak levou à praça com sucesso em 2019. Obstinado, Adrian Panek volta a captar a tensão da pena da escritora e faz de “As Cores do Mal: Preto” mais uma sucessão de pequenas reviravoltas, até que todas as evidências alinhem-se e se chegue à solução um tanto estarrecedora. O texto de Panek vale-se do livro de Sobczak para ilustrar o amálgama entre poder, autoridades desonestas e a fauna do submundo, mas confere uma identidade própria ao que se vê — ainda que a trama pareça amarrada em dados momentos. Agora, o desaparecimento de um menino leva Bilski a dividir com o público os mal-estares do primeiro longa, uma sensação que o diretor-roteirista leva ao extremo.

Lobos e cordeiros

Desde a primeira cena, a bruma de um mistério repulsivo vai dominando os personagens. Aqui, o diretor recorre a tomadas lentas a fim de sugerir que nada é o que parece, um dos grandes trunfos do enredo, enfronhando-se, como quem não quer nada, na arqueologia social da Polônia contemporânea de modo a escancarar a ruína das instituições quando da debacle do comunismo na União Soviética, a partir do final dos anos 1980, oficializada em 26 de dezembro de 1991. Nada é explícito, mas logo resta claro que Bilski personifica um esforço de moralização do judiciário. Corajosamente, certo de seu dever e determinado a chegar aos raptores — delinquentes que, acredita, operam fundamentalmente por impulso —, o promotor vê alguma correspondência entre seu novo caso e a fama de Kartuzy, outro lugarejo nebuloso da Pomerânia. Lambanças do jornalismo e crimes de ricaços estreitam-se num amplexo insano, e Jakub Gierszał dá a Bilski a aura de justiceiro que mantém a história quente, sem aquela mesmice exasperante própria das franquias.


Filme: As Cores do Mal: Preto
Diretor: Adrian Panek
Ano: 2026
Gênero: Drama/Policial/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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