A vida seria uma beleza sem os incansáveis apelos dos meios de comunicação, berrando que sem o automóvel X estamos condenados ao limbo social por gente que não importa ou que frequentar tal ou qual restaurante é o passaporte para o mundo dos iluminados. Quando se fala da casa própria, então, aparecem especialistas de todos os muitíssimos tópicos e subtópicos e orquestrações em torno do assunto, messianicamente incumbidos dessa bênção. “Sonhador Americano” é uma história que adultos de qualquer parte da Via Láctea conhecemos: a do trabalhador que, chegando a certa quadra do existir, percebe que ainda não deu o passo decisivo numa jornada já extensa. Paul Dektor abre um debate caudaloso, cheio de circunvoluções e entrelinhas, materializado por um anti-herói tão incomum quanto corajoso, seduzido por uma bela ilusão de sair do aluguel.
A casa mágica
Baseado num caso verídico levado ao ar pela Rádio Pública de Chicago, o roteiro de Theodore Melfi e Christopher Wehner detalha a rotina algo monótona de Phil Loder, professor de economia que se esforça, mas não consegue aplicar na vida prática as mil teorias que vem examinando durante a carreira. Dektor brinca com as ideias de êxito e fracasso ao mostrar um Phil autoconfiante numa sala com belos exemplares da elite dos Estados Unidos, mas que não garante uma vaga no estacionamento da universidade, dia a dia tomado pelos carrões de calouros milionários. Antes de voltar para o apartamento de quarto e sala no subúrbio, ele para seu Saab em frente a um palacete clássico, até ser expulso pelo dono. Fazendo tudo exatamente igual todos os dias, ele compra seu sanduíche de queijo e presunto na cantina, abre uma gaveta à procura de um sachê de mostarda e no fundo está sua salvação, numa página de jornal amarelada com um anúncio promissor. Alguém oferece uma mansão de cinco milhões pela bagatela de míseros 240 mil dólares, desde que o potencial comprador aceite dividir o imóvel com a atual residente, Astrid Finnelli, uma adoentada viúva sem filhos. Como tudo para ele sempre foi meio inusitado, Phil decide fechar negócio e o filme aponta para boas viradas, construídas a partir da relação que o professor tem com Astrid. Peter Dinklage e Shirley MacLaine acham o tom preciso de tragicomédia, com um olhar para a(s) solidão(ões) sem espaço para caricaturas.

