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Nada é capaz de deter o cinema de Taiwan. Cada vez mais criativos, os diretores taiwaneses misturam num único longa uma pletora de assuntos, e o que causa mais espécie é que, depois de uma infinidade de cenas sofisticadas, frenéticas, esteticamente irretocáveis, em que dezenas de personagens se cruzam por mais de duas horas, tudo chega ao fim de uma maneira orgânica, com uma ou outra grande reviravolta (ou não), mas sempre cativando o espectador e nunca fazendo pouco de sua inteligência. É assim que acontece em “Uma História Nebulosa”, um conto de fadas moderno empenhado em perscrutar o humor dos habitantes da ilha frente às profundas transformações sociais de uma terra enxovalhada, mas que não se dobra. Amalgamando olhar poético, crônica política e um toque de realismo mágico, Yu-Hsun Chen urde uma trama delicada, de melancolia pungente, mas que serve de conforto.

Léguas cansativas

Não há nada mais corriqueiro na vida do homem do que a própria banalidade, uma guerra perdida que insistimos em travar com os fantasmas menos óbvios que habitam nossas profundezas. Pensamos, uns mais, outros menos, sobre se é possível voltarmos ao que fomos, se podemos ter outra vez os desejos que constituíam nossa própria essência, e essa dúvida vai crescendo, até sermos obrigados a enfrentá-la de uma vez. Em 1953, no 42º ano da República da China, Huang Chiu-Yue tenta manter-se longe de encrenca, metendo-se pelos canaviais para entregar a comida do irmão, Huang Yu-Yun, um revolucionário que se desentendeu com a cúpula do Partido Nacionalista Chinês e agora é caçado. É justamente na esteira de um desses encontros que Yu-Yun é capturado e preso — e antes, numa das cenas mais bonitas do longa, eles fazem planos que chegam até 1980, quando Yue seria professora, teria dois filhos e, quem sabe, netos. Como nossas aspirações têm pouco valor em meio às trapaças do destino, a mãe deles está doente e morre cerca de um ano depois, na mesma época em que Yu-Yun é mandado ao pelotão de fuzilamento. Yue sabe da notícia e lança-se ao mundo para sepultar o cadáver. Muito da substância de “Uma História Nebulosa” está nessa jornada de riscos e ultrajes, durante a qual a protagonista passa a conhecer a lama da vida e do espírito humano. Ela chega a ser sequestrada, e só não é vendida como escrava sexual porque entra em cena Chao Kung-Tao, um condutor de riquixá que apieda-se da garota e a leva até a Funerária Paraíso, onde está o corpo de Yu-Yun. Habilmente, Chen vale-se de um lirismo incômodo para jogar luz sobre as zonas cinzentas do homem, num pessimismo imbricado em esperança. Cada vez melhor, Caitlin Fang une sensibilidade e técnica, e a parceria com Will Or é um daqueles primores que a indústria cinematográfica taiwanesa acostumou-se a nos oferecer.


Filme: Uma História Nebulosa
Diretor: Yu-Hsun Chen
Ano: 2025
Gênero: Ação/Aventura/Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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