Alicia Silverstone foi o rosto de grandes sucessos da indústria cinematográfica americana durante a década de 1990. Silverstone começou a despontar nos clipes de bandas como Aerosmith, e não muito tempo depois, eternizou a figura da garota fútil, mas aplicada, esperta e romântica em “As Patricinhas de Beverly Hills” (1995), uma espécie de Barbie menos óbvia. O filme de Amy Heckerling cacifou a atriz para papéis um tantinho mais complexos, caso de Jennifer, a protagonista de “Uma Babá Objeto de Desejo”. Em hora e meia, Guy Ferland brinca com clichês, gorando conclusões ligeiras acerca da garota infernal da vez, que, na verdade, nada tem de libidinoso, só a beleza angelical — tornada sua maldição. Ferland tira do romance publicado por Robert Coover (1932-2024) farta matéria-prima para discutir assuntos como machismo, crimes de gênero e precarização do trabalho, deixando para sua mocinha a parte mais custosa.
Fantasias
Emulando Brian De Palma, Ferland mistura suspense, paixões platônicas, dilemas existenciais e uma pitada generosa de sofisticado erotismo, o que dá numa história fluida, envolvente e cheia de gratas surpresas. Os personagens masculinos de “Uma Babá Objeto de Desejo” variam de anti-heróis meio tolos a vilões quase caricatos, monstros que saem de seus tugúrios para atormentar Jennifer. O diretor recorre a boas sequências de fantasia na intenção de confundir o público, mas sempre tomando o cuidado de deixar margem para que se especule acerca do que é mesmo real. Jennifer é chamada para assistir os filhos de Harry e Dolly Tucker, o casal de vizinhos interpretado por J.T. Walsh (1943-1998) e Lee Garlington, e além de não ganhar nenhuma gorjeta por ser chamada em cima da hora, passa a ser alvo dos comentários maledicentes da senhora Tucker, ofendida com a exuberância juvenil da garota. O enredo move-se num fluxo engenhoso, dos delírios sexuais de Harry para os, digamos, pequenos deslizes éticos da aia, que toma um banho de banheira na suíte dos patrões enquanto lava a roupa que havia sujado. Ferland escolhe o que iluminará nesse ambiente cheio de zonas escuras, propondo algum castigo para os abusos involuntários de Jennifer, enquanto também chama atenção para o sadismo dos Tucker, mormente o de Harry. Paulatinamente, fica claro que a babá terá problemas, mas não quando. Eis a mágica aqui.

