Que o amor vai muito além do apelo carnal todos sabemos, mas o que poucos admitem é que o sentimento amoroso exige a disposição de aprender, que, por seu turno, exige o talento para observar. Albert Einstein (1879-1955) ganhou a vida observando as particularidades do espaço e do tempo, as correspondências entre massa e energia, mas os fenômenos que tocam ao coração sempre foram uma incógnita para o gênio, que se esforçou para entendê-los e até pôde inspirar pupilos mais românticos. James Marsh fez de “A Teoria de Tudo” (2014) muito mais que a biografia de Stephen Hawking (1942-2018), físico de raro talento dedicado a provar um conjunto de ideias que ligasse tudo o que esta Terra já viveu em 4,5 bilhões de anos. Marsh decerto importou para seu filme as boas sacadas vistas em “A Teoria do Amor”, uma improvável reconstituição da intimidade do cientista mais importante do século 20, apresentado como um encantador alcoviteiro. Conforme Fred Schepisi desdobra o roteiro de Andy Breckman e Michael Leeson (1941-2016), o tom nonsense da história vai cedendo espaço à torcida para que a vocação oculta de Einstein seja exitosa, com o final feliz sem surpresas. Mas muito desejado.
A lógica do acaso
Dentro de uma única vida cabem universos inteiros. Viver é equilibrar-se entre polos, enquanto o destino, esfíngico e silencioso, costura sua trama por entre nossas escolhas e o acaso. O ser humano é, a um só tempo, autor e personagem da existência, e isso o condena a uma jornada em que o controle é sempre parcial. Einstein sabe disso como poucos, e por essa razão não acha estranho que um mecânico o procure para entregar-lhe o relógio da sobrinha. Schepisi explica como Ed Walters conhece Catherine Boyd investindo nos lances absurdos tão próprios da vida como ela é, ao passo que aproveita para esboçar algumas justificativas para o que se vai assistir pouco tempo depois. Catherine parece meio frustrada com o noivado com James Moreland, um psicólogo social em franca ascensão no meio acadêmico, e o tio vê. A engrenagem do filme move-se inteira em torno das idas e vindas no triângulo amoroso formado por Catherine, James e Ed, do qual um travesso Einstein também participa, ora sem querer, ora com as palavras muito bem escolhidas. Metodicamente, Meg Ryan, Tim Robbins e Stephen Fry têm a oportunidade de brilhar sozinhos e levando a subtrama da relação pródiga de impedimentos e um recomeço. Entretanto, é Walter Matthau (1920-2000) a estrela maior aqui, numa composição mediúnica de um Einstein apaixonante como nunca se viu.

