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Em 1952, na cidade de Nova York, Marty Mauser (Timothée Chalamet) trabalha na sapataria do tio, mantém um caso com uma mulher casada e tenta reunir dinheiro para competir no exterior. Aos 23 anos, ele acredita ser o melhor jogador de tênis de mesa dos Estados Unidos, talvez do mundo. O problema é que nenhuma entidade esportiva deseja financiar sua viagem. Dirigido por Josh Safdie, “Marty Supreme” acompanha esse rapaz talentoso e insuportavelmente confiante enquanto ele procura patrocinadores, favores e contatos capazes de levá-lo ao campeonato mundial no Japão.

Marty está convencido de que uma vitória internacional mudaria sua vida e daria prestígio ao tênis de mesa nos Estados Unidos. Também espera ganhar dinheiro suficiente para sustentar a mãe e abandonar o emprego na loja de sapatos. A justificativa parece generosa, mas quase todas as suas escolhas atendem primeiro aos próprios desejos. Ele usa amigos, parentes e amantes sem dedicar muita atenção às despesas emocionais deixadas pelo caminho.

Um campeão preso à sapataria

O cotidiano de Marty combina talento esportivo com dificuldades bastante comuns. Durante o expediente, ele vende sapatos sob a vigilância do tio Murray Mauser (Larry “Ratso” Sloman), dono do estabelecimento e responsável por ajudar financeiramente a família. A mãe do rapaz, Rebecca Mauser (Fran Drescher), possui personalidade dominadora e depende do apoio do irmão. Marty deseja libertar-se desse arranjo, embora espere que as mesmas pessoas cansadas de suas promessas também paguem pela próxima aventura.

Sem apoio oficial, cada passagem, hospedagem e inscrição vira um problema. Marty apresenta a viagem internacional como investimento seguro, pois realmente acredita que sua habilidade pagará todas as contas. Seu entusiasmo, porém, vem acompanhado de uma irresponsabilidade quase infantil. Quando uma porta se fecha, ele procura outra pessoa disposta a ouvir a história do jovem prodígio abandonado pelas instituições esportivas.

Timothée Chalamet interpreta Marty com uma energia incansável. O personagem fala depressa, interrompe interlocutores e transforma pedidos de dinheiro em apresentações grandiosas sobre o futuro do esporte. Há algo divertido nessa confiança sem freio, principalmente porque o público percebe o tamanho do buraco antes dele. Marty pode dominar uma mesa de tênis, mas administrar prazos, dívidas e relações pessoais exige habilidades que ele ainda não desenvolveu.

O romance que cobra atenção

A vida amorosa do jogador acrescenta outra fonte de pressão. Rachel Mizler (Odessa A’zion), amiga de infância de Marty, está casada e mantém um caso com ele. Rachel leva a relação a sério e espera alguma consideração pelo futuro dos dois. Marty gosta da companhia dela, mas trata o romance como parte de uma agenda já ocupada por campeonatos, dinheiro e planos de grandeza.

Odessa A’zion oferece a Rachel uma presença inquieta e emocionalmente franca. Ela impede que a personagem seja apenas mais uma amante disponível para o protagonista. Rachel possui desejos próprios, sente o peso das escolhas e sabe que o casamento pode desmoronar. Quanto mais Marty promete, menos tempo possui para cumprir cada palavra. A relação expõe sua facilidade para conquistar pessoas e sua dificuldade em assumir o que provoca na vida delas.

A situação também revela uma contradição importante. Marty exige que todos respeitem seu sonho, embora raramente ofereça o mesmo cuidado aos projetos alheios. Ele deseja confiança absoluta de Rachel, do tio e da mãe, mas prefere deixar indefinido aquilo que poderia limitar sua liberdade. Safdie observa esse comportamento sem transformar o protagonista em exemplo moral ou vítima incompreendida. Marty é brilhante, sedutor, egoísta e, em alguns instantes, genuinamente vulnerável.

Dinheiro abre algumas portas

Quando percebe que o círculo familiar não poderá financiar sua ambição, Marty procura pessoas mais ricas e influentes. Uma delas é Kay Stone (Gwyneth Paltrow), antiga estrela de cinema que vive cercada por luxo, lembranças profissionais e certo cansaço com a própria rotina. Marty se aproxima dela por atração, curiosidade e interesse. Kay pode oferecer acesso a ambientes nos quais um vendedor de sapatos dificilmente seria recebido.

Essa aproximação também coloca o jogador diante de Milton Rockwell (Kevin O’Leary), marido de Kay e empresário acostumado a avaliar pessoas pelo retorno que podem proporcionar. Milton possui os recursos que faltam ao atleta, mas dinheiro nunca chega sem condições. Marty precisa convencer o casal de que sua habilidade pode render prestígio, publicidade e lucro. Cada conversa lhe garante alguns minutos de atenção, enquanto o campeonato permanece distante e o custo da viagem continua fora de seu alcance.

Gwyneth Paltrow interpreta Kay com elegância e uma melancolia discreta. A atriz aposentada observa Marty com desejo, diversão e cautela. Ela percebe a manipulação, mas também reconhece naquele jovem uma fome profissional que perdeu ao abandonar as telas. Kevin O’Leary, por sua vez, dá a Milton uma frieza adequada ao homem que transforma relações em negócios. Marty acredita controlar os dois, embora dependa da autorização e do dinheiro deles.

A mesa separa talento e conversa

Nas partidas, Marty finalmente entra em um ambiente no qual sua confiança possui fundamento. Ele é habilidoso, competitivo e capaz de incomodar jogadores mais experientes. Josh Safdie mantém a câmera próxima dos atletas e encurta o intervalo entre o golpe, a reação do adversário e a cobrança seguinte. O ritmo transmite a velocidade do esporte e também a falta de sossego do protagonista.

Fora da mesa, a mesma agilidade produz confusão. Marty procura Wally (Tyler Okonma), amigo e taxista, quando precisa de ajuda ou alguma saída para problemas que ele próprio criou. O personagem avança pela cidade reunindo favores e distribuindo promessas. Muitas situações engraçadas surgem de sua recusa em aceitar uma negativa. Para Marty, um “não” costuma significar que a outra pessoa ainda não ouviu argumentos suficientes.

Essa insistência torna “Marty Supreme” uma comédia

“Marty Supreme” faz da ambição uma corrida contra o próprio ego

Em 1952, na Nova York onde o tênis de mesa ainda parece uma curiosidade de salão, Marty Mauser (Timothée Chalamet) trabalha na sapataria do tio e procura dinheiro para disputar campeonatos internacionais. Aos 23 anos, ele acredita ter talento para se tornar o melhor jogador do mundo. Falta, porém, apoio oficial para pagar passagens, hospedagem e inscrições. Dirigido por Josh Safdie, “Marty Supreme” acompanha a tentativa desse jovem de transformar habilidade esportiva em fama, prestígio e renda, mesmo que outras pessoas precisem arcar com seus excessos.

Marty possui a autoconfiança de um campeão e a conta bancária de um vendedor de sapatos. O contraste resume boa parte da comédia dramática escrita por Safdie e Ronald Bronstein. O protagonista fala do futuro com tamanha convicção que consegue atrair parceiros, amantes e possíveis patrocinadores. O problema surge quando chega a hora de cumprir as promessas. A cada porta aberta, Marty deixa uma dívida financeira ou afetiva esperando no corredor.

Um campeão preso à sapataria

A rotina na loja pertence ao mundo do qual Marty deseja escapar. Seu tio Murray Mauser (Larry “Ratso” Sloman) mantém o negócio funcionando e ajuda a sustentar Rebecca Mauser (Fran Drescher), mãe autoritária do rapaz. Marty deveria vender calçados e contribuir com a família, mas passa boa parte do tempo calculando maneiras de entrar no circuito internacional. Ele considera a sapataria uma parada provisória. O tio enxerga um sobrinho brilhante, mas pouco confiável, incapaz de tratar o dinheiro alheio com o devido cuidado.

Marty defende que a ascensão de um norte-americano poderia aumentar a popularidade do tênis de mesa nos Estados Unidos. A ideia tem fundamento, embora também ajude o jovem a disfarçar a própria vaidade sob uma causa esportiva. Ele quer representar o país, melhorar a vida da mãe e divulgar a modalidade. Acima de tudo, quer que todos reconheçam uma grandeza que, em sua opinião, já deveria ter sido aceita sem discussão.

O filme deixa essa contradição exposta desde o começo. Marty é talentoso, disciplinado nas partidas e capaz de estudar os adversários. Fora da mesa, costuma agir com uma irresponsabilidade quase infantil. Ele cobra confiança dos outros, mas raramente oferece segurança em retorno. Seu projeto depende de dinheiro, contatos e favores, recursos que desaparecem sempre que sua impaciência assume o controle.

Rachel paga parte da conta

A relação com Rachel Mizler (Odessa A’zion) revela o custo pessoal dessa ambição. Amiga de infância de Marty, ela é casada e mantém um caso com o jogador. Rachel espera atenção e alguma definição sobre o futuro, enquanto ele trata o romance como mais uma situação que poderá resolver depois. O campeonato sempre parece mais urgente que a vida da mulher que o acompanha há anos.

Odessa A’zion dá energia e firmeza a Rachel, impedindo que a personagem fique restrita ao papel de amante abandonada. Ela conhece os truques de Marty, percebe quando ele está vendendo outra promessa e sabe que seu charme pode desaparecer diante de uma oportunidade esportiva. Ainda assim, permanece ligada a ele por uma intimidade construída muito antes das ambições internacionais. Quanto mais Marty pede paciência, maior fica o risco enfrentado por Rachel dentro do casamento.

Essa relação também impede que o protagonista seja visto apenas como um azarão simpático. Sua dificuldade financeira desperta solidariedade, mas o comportamento com Rachel cobra uma leitura menos indulgente. Marty deseja liberdade para perseguir seus planos, embora não conceda a mesma liberdade às pessoas que mantém por perto. Ele gosta de ser amado, admirado e financiado. Retribuir exige um tempo que nunca parece disponível.

O dinheiro abre outras portas

A busca por recursos aproxima Marty de Kay Stone (Gwyneth Paltrow), antiga estrela de cinema que vive cercada por riqueza, influência e certo desencanto. Kay reconhece a inteligência do jogador e se diverte com sua ousadia. Marty, por sua vez, percebe que ela pode oferecer acesso a ambientes onde seu talento vale menos que uma boa apresentação pessoal.

Gwyneth Paltrow interpreta Kay com elegância cansada. A atriz observa o jovem sem cair por completo em sua encenação, embora também encontre nele uma interrupção bem-vinda para uma vida confortável e sem novidade. Marty usa encanto e desejo para se aproximar dela, mas sua atenção logo alcança Milton Rockwell (Kevin O’Leary), marido de Kay e empresário com poder suficiente para financiar uma campanha internacional.

Milton avalia pessoas pelo retorno que podem gerar. Essa postura faz dele um interlocutor adequado para Marty, que tenta vender a própria imagem antes de possuir títulos suficientes para sustentá-la. Os dois reconhecem a ambição um do outro, mas ocupam lugares financeiros muito diferentes. Milton controla o cheque. Marty possui a história sedutora de um jovem americano disposto a desafiar os melhores jogadores do planeta.

Wally (Tyler Okonma), amigo e motorista de táxi, pertence ao grupo que conhece a realidade menos glamourosa do protagonista. Sua presença liga Marty às ruas de Nova York e ao círculo de pessoas que ajudam sem contar com salões luxuosos ou contratos promissores. Esse contraste reforça a facilidade com que o jogador transita entre mundos, sempre procurando quem poderá levá-lo à próxima etapa.

A mesa encerra a conversa

Nas partidas, Marty perde o privilégio de dominar tudo pela lábia. O adversário responde com a raquete, e o placar não aceita histórias bem contadas. Safdie mantém a câmera perto dos jogadores, acompanha os movimentos curtos e transforma cada ponto numa disputa física. A montagem interrompe qualquer sensação de conforto e devolve o protagonista às cobranças que deixou fora da quadra.

Timothée Chalamet trabalha Marty com uma inquietação permanente. O corpo inclinado, a fala acelerada e o olhar atento sugerem alguém sempre procurando a próxima oportunidade. Seu desempenho preserva o carisma necessário para que o público compreenda por que tanta gente aceita ajudá-lo. Também expõe o egoísmo que faz essas mesmas pessoas desejarem distância pouco tempo depois.

A comédia surge principalmente das tentativas de Marty de preservar uma imagem grandiosa enquanto pede dinheiro, favores e mais alguns dias de confiança. Ele fala com a solenidade de uma entidade esportiva inteira, apesar de ainda depender do caixa da sapataria e da paciência dos conhecidos. Algumas recusas são recebidas como convites para insistir. Outras encerram conversas e diminuem suas opções.

Josh Safdie mantém “Marty Supreme” em movimento sem transformar o protagonista em exemplo de superação bem-comportado. Marty pode ser fascinante, engraçado, cruel e vulnerável dentro da mesma sequência. Seu talento merece atenção, mas sua campanha pessoal cobra caro de Rachel, Kay, da família e dos amigos. Enquanto o campeonato se aproxima, ele continua procurando dinheiro e aliados para chegar à mesa onde nenhum discurso poderá rebater a bola por ele.


Filme: Marty Supreme
Diretor: Josh Safdie
Ano: 2025
Gênero: Comédia/Drama/Esporte
Avaliação: 4.5/5 1 1
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