Adonis Creed entra em “Creed III” depois de ter conseguido quase tudo que os filmes anteriores colocaram à sua frente. Já não precisa provar que merece o sobrenome do pai, nem convencer o mundo do boxe de que não é uma nota de rodapé na história de Apollo Creed. Vive com Bianca e a filha, administra a carreira fora das cordas e parece ter aprendido a transformar vitória em rotina. Para um herói de filme esportivo, esse ponto de partida é menos confortável do que parece. Depois da consagração, o roteiro precisa encontrar uma ameaça que não pareça só uma repetição de cartel.
Damian Anderson aparece justamente aí. Ele volta depois de anos preso, quer lutar e observa Adonis como alguém que chegou a uma vida que também poderia ter sido sua. “Creed III” o leva ao posto de rival, com direito ao caminho esperado até o combate, mas sua utilidade dramática não se limita ao papel de oponente. Damian traz de volta um período que Adonis preferiu manter distante da vida que construiu. A fama do protagonista, antes ligada a disciplina e talento, passa a esbarrar numa pergunta menos esportiva: que lembranças precisaram ser empurradas para fora da história oficial do campeão?
Antes da fama
O terceiro filme da série já não depende da velha pergunta sobre legitimidade. Adonis foi testado, venceu, perdeu, voltou, formou família, tornou-se empresário de si mesmo. O roteiro de Zach Baylin e Keenan Coogler procura outro tipo de desgaste, ligado àquilo que ele não resolveu quando deixou a juventude para trás. A ausência de Rocky Balboa ajuda nessa mudança. Sem o antigo mentor, não há conselheiro para organizar a dor do protagonista numa frase de treinamento. Adonis precisa responder por si.
Michael B. Jordan, também diretor, trabalha melhor quando mostra esse homem acostumado a se portar bem em público e pouco preparado para conversar sobre o passado. O filme não abandona os ritos do boxe: há treino, rivalidade, volta ao ringue e luta decisiva. A ameaça, porém, não surge de um campeão estrangeiro, de um adversário fabricado para humilhar Adonis ou de uma disputa comum por cinturão. Damian pertence a um tempo anterior à fama. Sua volta mexe com uma versão de Adonis que a celebridade e a vida doméstica ajudaram a encobrir.
Jonathan Majors impede Damian de virar só o ressentido que o roteiro empurra para o ringue. O filme às vezes facilita esse caminho, pois precisa acelerar a rivalidade e deixar claro que os dois acabarão frente a frente. Majors compensa parte dessa pressa no modo como Damian ocupa as conversas. Ele entra sem pedir licença, mede o espaço, responde com orgulho e trata a chance no boxe como reparação tardia. A raiva tem destino certo, mas não aparece como capricho de vilão.
A relação entre os dois envolve prisão, infância, culpa, talento interrompido e oportunidades que tomaram rumos opostos. “Creed III” não dá a tudo isso o mesmo tempo. A corrida até o combate final encurta passagens que pediam mais convivência, e algumas relações laterais ficam menores do que poderiam. Bianca e Mary Anne lembram que Adonis tem uma vida fora da academia e das arenas, mas muitas vezes entram para comentar a rigidez dele e devolver o foco à disputa com Damian. Tessa Thompson e Phylicia Rashad tornam essas aparições melhores do que o espaço reservado a elas.
Essa concentração em Adonis combina com um capítulo interessado em deixá-lo sem amparo de figuras maiores, mas reduz parte do entorno. Damian renderia mais se o filme acompanhasse melhor sua vida depois da prisão e sua ligação com o boxe para além da necessidade de enfrentar Adonis. O passado dos dois tem elementos suficientes para um drama menos apressado. O filme, preso ao caminho do confronto, precisa fazer anos de ressentimento caberem em poucas etapas.
A luta final
Nas cenas de boxe, Jordan mostra escolhas mais nítidas como diretor. O ringue não aparece apenas para repetir treino, entrada triunfal, rivalidade pública e decisão por pontos ou nocaute. Ali, Adonis tenta resolver com o corpo o que evitou dizer fora dali. A coreografia e a estilização dos combates afastam a luta de um simples placar. Quando Adonis e Damian se enfrentam, cada avanço e cada defesa carregam a convivência interrompida entre os dois. Esse uso do boxe combina com uma série que sempre tratou a pancada como forma de pedir perdão, reconhecimento ou pertencimento.
“Creed III” também preserva o prazer básico do filme de boxe. Há preparação física, treino, arena, rivalidade crescente e catarse. O filme não tenta fingir superioridade diante desses componentes, e isso o torna mais honesto do que seria uma tentativa de negar a própria franquia. A estreia de Jordan na direção não reinventa a série. Ela evita, porém, que o terceiro capítulo pareça apenas continuação protocolar, porque tira Rocky de cena e coloca Adonis diante de alguém que não aceita a versão confortável de sua vitória.
A parte menos convincente surge quando a luta final precisa encerrar ressentimento, culpa e abandono acumulados por anos. Mesmo bem filmado, o combate recebe uma tarefa grande demais. O filme rende mais enquanto deixa Adonis e Damian se testarem nas conversas, na disputa por espaço e nas tentativas de manter controle. Ao levar tudo para uma solução no ringue, “Creed III” escolhe uma saída familiar à franquia, mas limpa demais para o que havia sido apresentado.
A escolha não anula o filme. Mostra apenas onde ele aceita a convenção do drama esportivo sem brigar muito com ela. Jordan dá a Adonis um capítulo próprio ao retirar Rocky do quadro e trazer Damian como alguém que conhece o protagonista antes da fama, antes do dinheiro, antes da imagem administrada. Há pressa em pontos decisivos, há personagens laterais usados com economia, há uma resolução mais arrumada do que a relação entre os dois pedia. Também há cenas de boxe bem concebidas e um rival que retira Adonis da celebração tranquila de suas conquistas.
“Creed III” troca a busca por reconhecimento por algo menos vistoso: a dificuldade de viver depois de ter vencido sem encarar tudo que ficou para trás. O filme resolve esse acerto com limpeza excessiva, mas chega ao combate final com Adonis menos protegido do que no começo. Damian não cura a franquia, nem a renova sozinho. Ele obriga o campeão a olhar para a juventude que sua carreira não conseguiu apagar.

