“A Espiã” parte da Holanda ocupada pelos nazistas e passa longe do drama de guerra lavado, pronto para sair com selo de nobreza. Paul Verhoeven começa com perseguição, fuga e massacre. Depois coloca Rachel Stein, cantora judia dada como morta, dentro da resistência, agora sob o nome de Ellis de Vries. A nova identidade não alivia sua situação. Muda o tipo de perigo. Ellis precisa escolher palavras, controlar reações, aceitar aproximações que a enojam ou assustam e perceber, rápido, quem pode entregá-la.
A perseguição nazista comanda os acontecimentos. Há prisão, morte, humilhação, caça a judeus, gente lucrando com a desgraça alheia. Verhoeven não suaviza esse ponto. O que ele faz, sem muita delicadeza, é enfiar a câmera também nos acordos de sobrevivência que aparecem sob ocupação. Medo, vaidade, vingança, conveniência, desejo de salvar a própria pele. A resistência surge com fissuras internas. Os ocupantes não aparecem só como placas de maldade. Isso poderia dar errado com facilidade, porque o nazismo não pode ser rebaixado a tempero de thriller. “A Espiã” escapa melhor nas passagens em que a perseguição nazista não vira pano de fundo para a próxima traição.
Ellis precisa mentir
Carice van Houten segura Rachel/Ellis longe da espiã funcional, aquela que existe apenas para cumprir viradas de enredo. Ela reage com o rosto, com a demora de uma resposta, com a rigidez de um sorriso que precisa convencer. Há o medo de quem escapou da morte, a rapidez de quem fala com um oficial alemão sem denunciar o próprio pavor, o cansaço de quem já não sabe se a próxima suspeita virá dos nazistas ou dos aliados. Ellis não vira mártir. Ela calcula, erra, usa o que tem à mão e aprende que o disfarce pode salvá-la numa noite e condená-la na seguinte.
A nudez e a sedução não entram como enfeite. Os homens ao redor fazem de Rachel/Ellis uma senha, uma isca, uma ameaça a ser controlada. Ela circula por salas onde desejo e poder militar se confundem, e onde uma hesitação pode custar caro. Verhoeven filma sexo, humilhação e violência sem recuar. Isso tira “A Espiã” do verniz de drama histórico comportado. Também deixa cenas em que a imagem parece gostar demais da exposição que denuncia. Em alguns momentos, vemos o preço pago por Ellis. Em outros, o filme se demora além do necessário.
O roteiro de Gerard Soeteman e Verhoeven depende de nomes falsos, listas, mensagens e conversas que mudam o destino de alguém. Quem sabe demais vira alvo. Quem sabe de menos obedece. Quem mente melhor atravessa mais uma porta. A montagem empurra a história de uma ameaça para outra, com fugas, infiltrações, traições, acordos provisórios e revelações em sequência. Durante boa parte dos 145 minutos, essa pressa combina com a vida de Ellis. Ela nunca se acomoda. Não há quarto, gabinete ou festa em que possa baixar a guarda.
A certa altura, porém, “A Espiã” passa a confiar demais no próximo segredo. Vem outra acusação, outra inversão, outra prova de que alguém não era quem parecia ser. A dor histórica fica próxima de uma fórmula de suspense que precisa alimentar o público a cada trecho. Verhoeven lida melhor com a dúvida quando ela nasce de uma situação específica: um aliado que precisa de Ellis e a vigia; um oficial que se aproxima sem deixar de representar perigo; uma promessa que pode virar armadilha. Quando a trama insiste em repetir que toda aparência esconde outra coisa, o cálculo fica à mostra.
Verhoeven força a nota
Verhoeven não procura discrição. “A Espiã” mistura melodrama, violência, erotismo e espionagem com gosto por cenas carregadas. Quem espera reverência em histórias sobre a Segunda Guerra pode estranhar. A ocupação, porém, não vira vitrine limpa. Ela aparece nas delações, nas alianças apressadas, na rapidez com que alguém salva a si mesmo empurrando outro para a morte. A resistência perde pose de monumento e aparece mais exposta como escolha de luta.
O desenho de época funciona melhor quando serve aos disfarces de Ellis. Figurino, cabelo, documentos e nomes falsos marcam sua passagem por ambientes onde ela precisa ser lida de outra maneira. O disfarce não é só roupa. É postura, voz, tempo de resposta, controle do rosto. Van Houten trabalha bem essas mudanças porque não faz de Ellis uma profissional imune ao desgaste. Ela entra em cena sabendo que está sendo observada. Isso aparece quando responde, sorri, cala ou espera.
“A Espiã” tem falhas claras. A sucessão de viradas às vezes pesa mais do que as pessoas envolvidas nelas. Certos momentos parecem montados para manter tudo fervendo, não para aprofundar uma relação ou uma escolha. Verhoeven gosta do choque, e isso dá ao filme sua personalidade. Também o aproxima do sensacionalismo quando violência e exposição física parecem calculadas demais. Não é um defeito lateral. Vem junto com o pacote.
Rachel/Ellis, mesmo cercada por tanto enredo, continua sendo o que mais segura “A Espiã”. Ela precisa sobreviver sem nome fixo, diante de gente que cobra obediência, desejo, informação ou prova de lealdade. Alguns colaboram por convicção. Outros cedem por medo. Outros usam uma causa para se vingar ou se proteger. Verhoeven não transforma isso em sermão, felizmente. Carice van Houten dá a Rachel/Ellis medo, esperteza e desgaste, sem fazer dela santa da resistência nem simples instrumento de sedução.
O filme deixa a lembrança de uma mulher obrigada a passar por salas onde quase todos querem algo dela, inclusive aqueles que dizem estar do mesmo lado. Verhoeven filma esse percurso com pressa, melodrama e pouca vontade de polir a guerra. Quando as revelações se acumulam demais, “A Espiã” parece desconfiar da própria protagonista. Quando volta a Ellis ajustando rosto, voz e mentira para sair viva de uma sala, basta observar o tempo que ela leva antes de responder.

