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“Relacionamento Aberto” começa onde muitos filmes sobre traição costumam fazer barulho: portas batidas, acusações, um corredor estreito para a culpa passar. Selma Vilhunen toma outro rumo. A infidelidade existe, machuca e desarruma o casamento, mas não vira espetáculo. O que interessa é o que sobra depois do choque, quando a raiva precisa conviver com desejo, orgulho, medo e uma vontade incômoda de continuar. A pergunta que move o drama não é apenas quem traiu quem. O filme prefere outra, mais difícil de responder: que tipo de acordo ainda é possível quando as regras antigas já não dão conta do que se sente?

Juulia e Matias são um casal de meia-idade abalado pelo envolvimento dele com Enni. Em vez de encerrar a relação ou aceitar a ferida como derrota íntima, Juulia propõe abrir o casamento e experimentar uma forma de não monogamia. A entrada de Miska amplia esse arranjo, criando um quadrado afetivo em que todos tentam parecer mais preparados do que estão. A melhor sacada de “Relacionamento Aberto” está aí: perceber que uma escolha pode ser lúcida e ainda nascer do desespero; que um pacto pode ser honesto e produzir novos sofrimentos; que a palavra “liberdade” fica mais bonita antes de chegar à rotina, ao corpo e à comparação.

Amor em negociação

O filme evita dois atalhos fáceis. Não trata o poliamor como desvio moral, tampouco como prova de sofisticação afetiva. Também não reduz o casamento a uma instituição sem pulso, incapaz de abrigar desejo, nem transforma a traição em condenação definitiva de Matias. Vilhunen observa a distância entre o que os personagens conseguem dizer e o que conseguem suportar. Formular um acordo é uma coisa; viver suas consequências na sala, na cama, na imaginação e nos horários do cotidiano é outra. “Relacionamento Aberto” se instala nesse descompasso, quando a teoria parece limpa e a experiência chega torta.

Juulia tenta agir com uma racionalidade que talvez seja também escudo. Matias reorganiza a própria culpa dentro de uma nova gramática afetiva, como se a abertura do casamento pudesse converter uma falha em negociação. Enni precisa existir além do lugar estreito de amante, embora entre nesse arranjo carregando expectativas e inseguranças próprias. Miska não funciona apenas como contraponto romântico: sua presença muda a temperatura do jogo porque obriga todos a encarar a simetria que diziam aceitar. O filme cresce quando deixa claro que ninguém ali cabe em uma categoria fixa. São pessoas capazes de generosidade, cálculo, coragem, vaidade, desejo de verdade e medo de perder território, às vezes dentro da mesma cena.

Essa contradição dá sentido ao título. Os adultos de “Relacionamento Aberto” conversam, combinam regras, tentam respeitar limites e procuram evitar a violência da mentira. Ainda assim, continuam pequenos diante do ciúme, da comparação, da insegurança e da necessidade quase infantil de confirmação. Querem amar sem posse, mas sofrem quando percebem que o outro também tem vida fora do seu alcance. Querem ser modernos, mas reagem com afetos antigos. Tentam controlar a própria liberdade, o que já diz bastante sobre a fragilidade do projeto. O filme não zomba dessa incoerência. Observa-a com uma atenção que, nos melhores momentos, é mais dura do que parece.

A direção acompanha essa proposta com uma dramaturgia de conversas, pausas e pequenos abalos. “Relacionamento Aberto” não força uma explosão a cada cena. Seu ritmo é o de uma crise que precisa continuar funcionando no cotidiano, entre encontros, explicações, silêncios e ajustes sucessivos. A mise-en-scène privilegia espaços íntimos e situações de convivência, como se a vida privada tivesse virado uma mesa permanente de negociação. Há algo quase burocrático no modo como os personagens tentam organizar o desejo, e esse detalhe torna tudo mais desconfortável. O amor aparece menos como impulso livre do que como agenda, contrato, rearranjo, tentativa de manter de pé uma casa que range.

Alma Pöysti é decisiva para que Juulia não vire uma ideia em movimento. A personagem poderia ser reduzida à esposa traída que sofre com dignidade, à mulher progressista que tenta provar superioridade moral ou à figura pública que precisa sustentar uma imagem de controle. Pöysti evita essas saídas. Sua atuação deixa passar hesitação, orgulho, raiva contida e vulnerabilidade sem sublinhar cada emoção. Juulia pode parecer firme em um momento e perdida no seguinte, sem que isso soe incoerente. Ela é alguém tentando se convencer de que está escolhendo, quando talvez também esteja reagindo ao medo de ser deixada para trás.

A calma que limita

A contenção, porém, tem custo. A sobriedade que impede “Relacionamento Aberto” de cair no melodrama barato também reduz parte de sua potência. A premissa abre um campo vasto de consequências emocionais, morais e sociais, mas o filme nem sempre pressiona essas zonas com a força que poderia. Em alguns momentos, a obra parece proteger a própria elegância, como se um conflito mais áspero ameaçasse a maturidade que deseja sustentar. O resultado é um drama inteligente, às vezes educado demais para o tamanho da confusão que coloca em cena.

Isso aparece quando as novas relações começam a alterar a autoestima dos personagens e a distribuição de poder entre eles. O impacto sobre Juulia, a posição instável de Enni, a culpa reorganizada de Matias e o lugar de Miska poderiam render atritos mais cortantes. O filme prefere uma temperatura média, sustentada por diálogos e impasses, e essa escolha tem coerência. Ainda assim, falta em alguns trechos a sensação de que algo realmente irreversível está acontecendo. A crise se espalha, mas raramente perde a compostura. Para um filme sobre adultos tentando administrar aquilo que não se administra, esse excesso de controle amortece parte do golpe.

A questão não é pedir gritaria, punição ou colapso. “Relacionamento Aberto” não precisa virar novela conjugal para ganhar contundência. O que faz falta é uma disposição maior de encarar o estrago que sua própria premissa anuncia. Ao afastar o sensacionalismo, o filme ganha seriedade; quando se afasta demais dele, perde atrito. A obra formula bem os dilemas, mas nem sempre permite que eles contaminem a forma, o ritmo e a sensação de risco. Em algumas passagens, a inteligência do olhar chega antes da experiência emocional, criando uma distância que o elenco nem sempre consegue vencer sozinho.

Mesmo com essa reserva, o saldo é positivo. “Relacionamento Aberto” tem valor porque trata a honestidade como problema, não como cura. Dizer a verdade não pacifica automaticamente uma relação. Estabelecer regras não impede que alguém se sinta diminuído. Abrir um casamento não elimina a posse, apenas muda o vocabulário com que ela aparece. O filme entende isso sem transformar seus personagens em modelos de conduta, bons ou ruins. Não há manual afetivo, sermão ou celebração ingênua de um novo arranjo. Há pessoas tentando se comportar melhor do que conseguem.

Por isso, “Relacionamento Aberto” funciona mais como drama de observação do que como obra de choque. Poderia ser mais incisivo, mas sua atenção ao detalhe emocional, sua recusa ao julgamento fácil e a atuação de Alma Pöysti sustentam uma experiência menos comum do que parece. Selma Vilhunen filma o amor adulto como um território em que ninguém sai exatamente vencedor, porque todos precisam abrir mão de alguma fantasia sobre si mesmos. A maior qualidade do longa está em reconhecer que amadurecer afetivamente não torna ninguém imune ao ciúme, à vaidade ou ao medo. Seu limite está na cautela. Sua força, em admitir que, diante do desejo, quase ninguém é tão grande quanto gostaria.


Filme: Relacionamento Aberto
Diretor: Selma Vilhunen
Ano: 2023
Gênero: Drama
Avaliação: 3.5/5 1 1
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