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“Unabomber: Terrorista” parte de uma escolha que define quase tudo: não recontar a história de Ted Kaczynski como investigação policial, nem fazer da caçada ao Unabomber o motor dramático do filme. Tony Stone prefere ficar perto da rotina, dos ruídos e da deterioração mental do personagem. A câmera insiste na cabana, no mato, no corpo inquieto, na irritação acumulada contra qualquer sinal de mundo exterior. Essa proximidade dá força ao longa, porque evita a engrenagem mais previsível da cinebiografia criminal. Também o limita. O resultado é um filme tenso, sustentado por Sharlto Copley, mais potente quando observa o colapso de Kaczynski do que quando precisa encarar o alcance real de sua violência.

O filme acompanha Kaczynski nas montanhas de Montana, em uma vida marcada por isolamento quase absoluto. Ex-professor universitário, ele rejeita a sociedade industrial, vê a tecnologia como agressão e interpreta qualquer presença humana como invasão. Máquinas, estradas, aviões e ruídos externos formam um cerco que parece crescer mesmo quando nada se move. “Unabomber: Terrorista” acerta ao não tratar essa radicalização como estouro repentino. Ela vem por acúmulo: irritação, paranoia, sabotagem, ataque. O filme entende que a violência não nasce do nada, mas evita o atalho igualmente perigoso de absolvê-la por meio de explicações fáceis.

Essa é uma das virtudes da direção de Stone. O longa não organiza causas e efeitos para entregar uma resposta fechada sobre Kaczynski. Também não tenta transformá-lo em gênio incompreendido, armadilha comum em retratos de criminosos reais. A inteligência do personagem aparece contaminada por arrogância, ressentimento e incapacidade de reconhecer a humanidade dos outros. O perigo nasce dessa mistura. “Unabomber: Terrorista” observa uma mente que vai se estreitando até transformar convicção em autorização para destruir.

Dentro da cabana

Sharlto Copley carrega o filme com uma atuação áspera, física, sem gesto de sedução. Seu Kaczynski tem fala irregular, movimentos duros e uma raiva sempre por perto, mesmo nos momentos de silêncio. Há algo travado em sua maneira de ocupar o espaço, como se qualquer ruído, qualquer aproximação, qualquer sinal de vida alheia fosse uma ofensa pessoal. Copley não procura simpatia. Não torna o personagem mais palatável, nem força humanidade para aliviar a repulsa que ele provoca. O filme depende muito de sua presença, mas a atuação não pede admiração.

A cabana, nesse sentido, funciona menos como cenário e mais como forma mental. É onde Kaczynski vive, mas também a imagem de sua ruptura com qualquer ideia de convivência. Stone filma esse espaço sem romantizar a precariedade. A madeira, a sujeira, o frio e a repetição dos gestos cotidianos criam uma prisão construída pelo próprio personagem. Há beleza na paisagem ao redor, só que o filme não a trata como refúgio poético. A natureza aparece atravessada por tensão, como se também tivesse sido sequestrada pela visão do protagonista.

O som tem papel decisivo nessa construção. Motores, máquinas e interferências externas não são apenas barulho ambiente; eles dão forma ao incômodo de Kaczynski e aproximam o público de sua percepção alterada sem pedir concordância com ela. O filme faz sentir o atrito entre isolamento e mundo moderno, mas não confunde crítica à tecnologia com justificativa para atentados. A diferença importa. “Unabomber: Terrorista” funciona melhor quando mostra como uma ideia pode endurecer até perder qualquer limite moral.

O ritmo segue a mesma lógica. O filme não corre em direção aos momentos mais conhecidos do caso, nem se apoia em grandes viradas. Prefere a insistência, a repetição, o desgaste. Em vários momentos, essa lentidão favorece o desconforto. Em outros, expõe o limite do projeto. Fechado na rotina e na percepção de Kaczynski, o longa se torna mais convincente como estudo de isolamento do que como reflexão sobre terrorismo doméstico. A história fora da cabana aparece menos do que deveria.

O que fica de fora

Esse é o ponto mais frágil de “Unabomber: Terrorista”. O filme não absolve Ted Kaczynski, não o transforma em mártir antitecnológico, não trata seus crimes como consequência inevitável de suas ideias. Ainda assim, ao passar tanto tempo perto dele, deixa pouco espaço para as vítimas, para o medo produzido pelos atentados e para as consequências concretas de sua violência. Não se trata de exigir outro filme, com investigação detalhada, tribunal e cronologia explicada. A questão é mais delicada: quando uma obra entra tanto na cabeça de um agressor real, precisa encontrar alguma forma de lembrar o que ficou fora dela.

Stone parece perceber o risco, mas nem sempre encontra saída. A força formal do filme vem do confinamento: a cabana, a paisagem, o som, o corpo de Copley em atrito com tudo. Só que essa mesma força cria um fascínio pela degradação do personagem. Não é um fascínio celebratório, mas está ali. O filme observa Kaczynski com tanta concentração que, por vezes, o horror de seus atos fica distante demais. O incômodo permanece, mas poderia cortar mais fundo se o mundo atingido por ele tivesse presença maior.

Mesmo com essa ressalva, “Unabomber: Terrorista” escapa da cinebiografia burocrática. Não reduz Kaczynski a um diagnóstico simples, não organiza sua trajetória como lista de fatos e não oferece conforto moral pronto. O longa prefere uma aproximação seca, dependente da atmosfera e da atuação para sustentar a tensão. Quando funciona, a escolha é eficiente. O filme mostra um homem que transforma rancor em método e isolamento em superioridade imaginária. Quando falha, parece incapaz de sair do círculo mental que construiu.

A crítica mais justa precisa permanecer nesse meio-termo. Como drama sobre radicalização, “Unabomber: Terrorista” tem força. Como vitrine para Sharlto Copley, é ainda mais firme. O ator dá ao filme uma presença desagradável e instável, sem a vaidade de compor um criminoso fascinante. Como leitura mais ampla sobre os crimes do Unabomber, porém, o longa é incompleto. Seu olhar é intenso, mas parcial. Falta ar fora da cabana. Falta peso histórico fora da cabeça de Kaczynski.

O saldo é de um filme relevante dentro dos próprios limites. “Unabomber: Terrorista” vale pelo desconforto que sustenta, pela recusa do didatismo e pela atuação central de Copley. Seu impacto, porém, vem acompanhado de uma pergunta que o filme deixa latejando sem resolver por completo: olhar tão de perto para Ted Kaczynski ajuda a compreender sua violência ou apenas nos mantém presos à lógica deformada que ele construiu? Essa tensão torna o filme interessante. Também impede que ele seja plenamente convincente.


Filme: Unabomber: Terrorista
Diretor: Tony Stone
Ano: 2022
Gênero: Biografia/Drama
Avaliação: 3/5 1 1
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