Imigrar também é contrabandear ideias, percepções, memórias, afetos. Algumas vezes estão materializados. Noutras, são éter.
Penso nisso enquanto ouço Angela Maria (1929-2018) aqui no vilarejo de Koritno, em Bled. A voz inconfundível dela ecoa em ondas sonoras que partem do meu dispositivo Alexa, a 9,7 mil quilômetros de Macaé, sua cidade natal. Se estou numa das faixas mais conhecidas de sua obra, como “Gente Humilde”, suponho que não seja a primeira vez que tal som atravesse estas cercanias estrangeiras. Mas, no momento exato em que ouço “Fósforo Queimado”, pego-me a pensar: existe a possibilidade de nunca, em toda a história, essa canção ter sido tocada aqui?
A ideia parece improvável. Contudo, longe de ser impossível.
Afinal, Koritno é um vilarejo pequeno, onde as pessoas fixas rareiam e, embora andem vicejando como se pragas fossem, ainda não são tantos assim os turistas passantes. Angela Maria foi gigantesca no Brasil, mas não exatamente uma estrela no estrangeiro.
Este inusitado pioneirismo sonoro, se houve, ilustra tudo aquilo que atravessa fronteiras escondido na bagagem dos imigrantes.
Quando me mudei para a Eslovênia, trouxe malas, alguns sonhos e uma quantidade razoável de inseguranças. Mas trouxe também coisas que nenhum funcionário da imigração teria como registrar. Trouxe lembranças do interior paulista. Trouxe referências de humor. Trouxe receitas que nunca cozinhei direito. Trouxe histórias que ouvi de parentes já mortos. Trouxe músicas.
Muitas músicas.
Algumas delas talvez tenham desembarcado aqui pela primeira vez dentro da minha cabeça.
É uma forma peculiar de contrabando. Não há quadrilhas. Não há fundos falsos em caminhões. Não há perseguições cinematográficas na fronteira. O produto atravessa legalmente, escondido na memória.
E, uma vez do outro lado, espalha-se.
Um brasileiro convida amigos eslovenos para um churrasco e apresenta uma canção. Um português ensina uma expressão da sua terra. Uma síria prepara uma receita da infância. Um argentino conta uma história. Um nigeriano mostra uma fotografia. Sem perceber, todos vão abastecendo o lugar de chegada com pequenas mercadorias culturais.
As cidades mudam por causa disso.
Os países mudam por causa disso.
O mundo inteiro talvez funcione graças a esse comércio informal de ideias.
Enquanto Angela Maria canta na sala, imagino as ondas sonoras de “Fósforo Queimado” atravessando o ar de Koritno pela primeira vez. Não sei se é verdade. Talvez algum turista brasileiro tenha feito exatamente a mesma coisa vinte anos atrás. Talvez um colecionador improvável de música latino-americana tenha vivido aqui em segredo.
Mas gosto de pensar que cada imigrante acrescenta algo ao estoque invisível do lugar onde passa a viver.
Como um contrabandista extremamente pacífico, do tipo daquele que cruza fronteiras carregando apenas novidades.

