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“Paixão de Escritório” chega à Netflix com a engenharia reconhecível da comédia romântica: uma protagonista que controla tudo, um homem que entra na rotina para bagunçar o sistema, regras corporativas no caminho do desejo e personagens secundários encarregados de comentar a confusão. O filme dirigido por Ol Parker sabe exatamente onde pisa. Não há constrangimento em assumir os códigos do gênero, e isso, em tese, é uma virtude. Rom-com nenhuma precisa pedir desculpas por trabalhar com aproximações previsíveis, desencontros calculados e gestos de reconciliação. O problema aparece quando a familiaridade vira piloto automático. “Paixão de Escritório” tem carisma suficiente para não naufragar, mas passa boa parte do tempo tentando extrair frescor de uma fórmula que ele mesmo trata com cautela demais.

A trama acompanha Jackie Cruz, presidente e CEO da Air Cruz, uma executiva que transformou controle em método de sobrevivência. Ela comanda a empresa, administra a própria imagem e sustenta uma postura rígida diante de qualquer brecha afetiva no ambiente de trabalho. A chegada de Daniel Blanchflower, advogado britânico interpretado por Brett Goldstein, desestabiliza esse arranjo. A atração entre os dois nasce dentro de uma zona complicada: há hierarquia, política interna, reputação e uma diferença de posição que o filme não pode fingir que não existe. Esse é o ponto mais promissor da premissa. O romance não surge em campo neutro. Surge num espaço em que desejo e poder estão misturados desde o início.

Só que “Paixão de Escritório” prefere aparar as pontas dessa tensão. O ambiente corporativo funciona mais como cenário de conflito leve do que como força real de desconforto. As regras internas aparecem para criar obstáculo, gerar piada e empurrar o casal para uma espécie de clandestinidade emocional, mas raramente ganham peso dramático. O filme parece interessado na ideia de uma CEO que perde o controle, mas não tanto nas implicações de uma relação em que esse controle continua existindo de outras formas. Essa escolha preserva a leveza, claro. Também limita o alcance da comédia.

A força de Lopez

Jennifer Lopez é o centro de gravidade de “Paixão de Escritório”. O filme depende dela e sabe disso. Sua presença carrega uma memória forte da comédia romântica, mas também uma imagem pública de disciplina, glamour e autogestão que combina com Jackie Cruz. A personagem não é escrita com grandes nuances, porém Lopez encontra pequenas variações dentro do molde: uma reação mais seca, uma hesitação, um desconforto que atravessa a pose de executiva impenetrável. Ela vende a autoridade de Jackie sem transformar a personagem numa caricatura fria. Quando o texto permite, sugere uma vulnerabilidade mais física do que verbal.

Ainda assim, há um limite claro no que uma estrela consegue resolver sozinha. “Paixão de Escritório” se apoia tanto no carisma de Lopez que, por vezes, deixa de construir melhor a personagem ao redor dela. Jackie é definida por traços bastante nítidos: ambição, rigidez, autocontrole, dificuldade de ceder. Falta, porém, uma zona de imprevisibilidade que a tire da função de protagonista endurecida que precisa reaprender a sentir. A atriz faz o possível para arejar esse desenho, mas o roteiro nem sempre acompanha. O resultado é uma personagem mais forte pela imagem que Lopez projeta do que pelas contradições que o filme de fato desenvolve.

Brett Goldstein oferece um contraponto interessante, ainda que irregular. Daniel tem uma energia mais seca, menos polida, quase deslocada do universo elegante que cerca Jackie. Esse contraste poderia produzir uma fricção mais afiada, especialmente porque ele não parece pertencer naturalmente ao imaginário glamouroso que o filme cria para ela. Em alguns momentos, a diferença funciona: ela opera na contenção e no brilho; ele, no humor mais direto e menos sedutor. Em outros, falta ao casal a faísca que faz uma rom-com atravessar seus clichês com alguma convicção. A relação avança porque a estrutura determina que avance, não porque a tensão entre os dois sempre pareça irresistível.

É nas bordas que o filme encontra parte de sua vitalidade. Betty Gilpin, Tony Hale e Amy Sedaris ajudam a quebrar a compostura do conjunto. Quando os coadjuvantes entram em cena, “Paixão de Escritório” fica menos preocupado em parecer elegante e mais disposto a brincar com o ridículo das situações. Há um humor mais solto nesses personagens, uma liberdade que falta ao romance central. Isso rende bons momentos, mas também deixa uma impressão incômoda: o filme parece mais vivo quando se afasta do casal que deveria ser seu coração. As laterais têm ruído, timing e alguma acidez. O centro, muitas vezes, volta rápido demais para a rota segura.

Fórmula sem surpresa

O impasse de “Paixão de Escritório” não é ser previsível. Previsibilidade faz parte do contrato da comédia romântica. O público reconhece o percurso e, em muitos casos, quer justamente essa sensação de reencontro com uma estrutura familiar. O prazer está no modo como o caminho é percorrido: na química, no ritmo, na escolha de uma cena, no detalhe que dá personalidade ao que já se conhece. É aí que o filme fica devendo. A direção mantém tudo organizado, a narrativa flui, o acabamento é limpo, mas quase nada parece atravessado por uma necessidade mais forte. Falta aquele desvio que faz a fórmula respirar.

A tentativa de atualizar o gênero pelo registro adulto também fica pela metade. O filme toca em desejo, trabalho, exposição e regras internas, mas trata esses elementos como tempero, não como matéria. A relação entre uma CEO e um funcionário poderia render uma comédia mais desconfortável sobre imagem profissional, negociação de poder e fantasia corporativa. Em vez disso, o roteiro prefere converter quase tudo em obstáculo funcional. A escolha não invalida o filme, porque “Paixão de Escritório” nunca promete ser uma comédia amarga ou especialmente provocativa. Mas reduz seu impacto. Ele flerta com temas mais espinhosos e logo recua para o conforto de uma rom-com bem arrumada.

Mesmo com essas limitações, o filme não é descartável. Há competência em sua superfície e uma compreensão honesta do tipo de entretenimento que oferece. Para quem procura uma sessão leve, com estrela reconhecível, humor pontual e romance de consumo rápido, “Paixão de Escritório” entrega alguma coisa. A duração próxima de duas horas, porém, pesa quando a dinâmica central começa a repetir seus próprios movimentos. O filme continua simpático, mas perde elasticidade. Em vez de crescer junto com o casal, parece circular em torno da mesma ideia: uma mulher muito controlada, um homem capaz de desestabilizá-la, um conjunto de regras esperando para ser quebrado.

O resultado é uma comédia romântica assistível, irregular e menos ousada do que poderia ser. Jennifer Lopez sustenta cenas frágeis, o elenco de apoio injeta vida no entorno e a premissa tinha material para discutir trabalho, desejo e poder com mais esperteza. Mas “Paixão de Escritório” prefere não bagunçar demais a própria mesa. Fica no lugar seguro, onde o charme resolve parte do problema e a fórmula resolve o resto. Para uma sessão descomplicada na Netflix, funciona. Para uma rom-com realmente marcante com Jennifer Lopez, falta risco, atrito e um pouco mais de desordem.


Filme: Paixão de Escritório
Diretor: Ol Parker
Ano: 2026
Gênero: Comédia/Romance
Avaliação: 3/5 1 1
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