“Paixão de Escritório” marca o retorno de Jennifer Lopez às comédias românticas em uma produção lançada pela Netflix em 2026. Dirigido por Ol Parker, o filme acompanha a relação entre uma poderosa executiva do setor aéreo e um advogado recém-contratado que cruza seu caminho em meio a um processo capaz de comprometer sua carreira. Ambientada entre escritórios corporativos, salas de audiência e viagens de negócios, a história tenta combinar romance, humor adulto e intrigas empresariais. O problema é que a produção parece interessada em muitas coisas ao mesmo tempo e raramente consegue fazer com que elas funcionem juntas.
Jackie Cruz (Jennifer Lopez) é a presidente da Cruz Airlines, uma companhia aérea administrada com mão firme e atenção permanente aos detalhes. Sua posição dentro da empresa não é tão confortável quanto parece. Além da responsabilidade de comandar os negócios, ela enfrenta questionamentos do conselho administrativo e busca constantemente a aprovação do pai, Captain Jack Cruz (Edward James Olmos), figura respeitada dentro da companhia.
A primeira impressão que o filme oferece de Jackie é curiosa. Ela participa de um jantar que parece um encontro romântico, mas logo esclarece que está ali para tratar de negócios. A situação, que deveria servir como introdução divertida para a protagonista, acaba revelando um dos maiores problemas do roteiro. Muitas cenas parecem existir apenas para criar constrangimentos artificiais, sem acrescentar muito à construção dos personagens.
Enquanto isso, Daniel Blanchflower (Brett Goldstein) vive uma experiência igualmente desastrosa durante um encontro marcado com uma mulher que conheceu na academia. O filme passa vários minutos preparando o terreno para o momento em que os protagonistas finalmente se conhecem.
Um romance que nasce no trabalho
A aproximação acontece por acaso. Quando Peter Vance (Bradley Whitford), principal advogado da companhia, sofre um problema de saúde pouco antes de um depoimento importante, Daniel recebe a tarefa de representar Jackie. Apesar de ser novo na empresa, ele demonstra competência suficiente para chamar a atenção da executiva.
O que poderia ser o início de uma relação divertida logo esbarra em uma regra bastante rígida. A Cruz Airlines possui uma política de tolerância zero para relacionamentos entre funcionários. Qualquer envolvimento amoroso entre colegas representa um risco profissional significativo.
A partir desse momento, “Paixão de Escritório” passa a seguir um caminho bastante conhecido. Daniel e Jackie precisam trabalhar juntos durante investigações e audiências relacionadas a um processo que ameaça a estabilidade da companhia. Quanto mais tempo passam lado a lado, mais difícil se torna separar trabalho e atração.
O problema é que o roteiro nunca consegue convencer totalmente sobre a gravidade da situação jurídica apresentada. O caso em questão gira em torno da vida pessoal de Jackie de maneira tão exagerada que muitas vezes parece pertencer a outra história. Em determinados momentos, a impressão é que toda a sobrevivência da empresa depende de informações sobre seus relacionamentos amorosos.
Viagem para o paraíso
Uma das etapas da investigação leva os personagens para a República Dominicana. A viagem oferece ao casal a oportunidade de passar mais tempo longe dos escritórios e das salas de reunião.
Essas sequências representam alguns dos momentos mais agradáveis do filme. Jennifer Lopez continua confortável nesse tipo de personagem e possui experiência suficiente para sustentar cenas românticas mesmo quando o texto não ajuda muito. Brett Goldstein demonstra simpatia e carisma, embora a química entre os dois nem sempre alcance a intensidade necessária para tornar o relacionamento memorável.
Ol Parker aposta em cenários ensolarados, música pop e imagens que tentam resgatar o espírito das comédias românticas dos anos 2000. Em alguns trechos funciona. Em outros, a produção parece indecisa entre ser uma história romântica leve ou uma comédia adulta carregada de piadas sexualizadas.
Essa indecisão acompanha praticamente toda a duração do filme.
Piadas que raramente funcionam
Grande parte do humor gira em torno de comentários sexuais, situações constrangedoras e personagens secundários extravagantes. Amy Sedaris, Tony Hale e Betty Gilpin aparecem em papéis que poderiam acrescentar energia à narrativa, mas muitos acabam limitados a participações breves ou gags repetitivas.
Há também uma sequência envolvendo uma gravidez avançada que o roteiro anuncia com tanta antecedência que seu desenvolvimento posterior deixa de surpreender. O mesmo acontece com diversos acontecimentos espalhados pela trama. Muitas soluções chegam de maneira conveniente demais, enfraquecendo qualquer sensação de risco.
Um exemplo particularmente curioso envolve um personagem preso no trânsito a caminho de uma reunião decisiva. Apesar dos obstáculos apresentados, ele surge exatamente no momento necessário para resolver o problema. É uma coincidência tão improvável que provoca mais estranhamento do que diversão.
Em vez de construir conflitos sólidos, o filme frequentemente recorre a atalhos narrativos. Isso prejudica tanto o romance quanto a comédia.
Muito charme, pouca inspiração
Jennifer Lopez continua sendo a principal razão para acompanhar “Paixão de Escritório”. Sua presença mantém a história em movimento mesmo quando o roteiro perde o rumo. A atriz consegue transmitir segurança, vulnerabilidade e humor com naturalidade, algo fundamental para uma personagem que passa boa parte do tempo tentando provar sua competência em um ambiente dominado por homens.
Brett Goldstein, que também assina o roteiro ao lado de Joe Kelly, entrega um protagonista simpático, mas nem sempre consegue transformar Daniel em alguém particularmente interessante. Muitas de suas cenas dependem mais do carisma do ator do que da qualidade dos diálogos.
Existe uma boa ideia no centro da história. Uma CEO poderosa, um advogado recém-chegado, uma empresa cercada por problemas jurídicos e uma política corporativa que proíbe romances formam ingredientes suficientes para uma comédia romântica divertida. O que falta é imaginação para desenvolver essas possibilidades.
“Paixão de Escritório” tem elenco talentoso, cenários atraentes e duas estrelas capazes de sustentar uma história de amor. Ainda assim, a produção desperdiça boa parte desse potencial em situações previsíveis, coincidências excessivas e piadas que raramente alcançam o efeito desejado. O resultado é uma comédia romântica que passa sem causar grandes danos, mas também sem deixar muitas razões para ser lembrada.

