“México 86” nasce de uma desconfiança simples e produtiva: uma Copa do Mundo nunca começa no apito inicial. Antes do primeiro jogo, há uma disputa menos fotogênica por prestígio, dinheiro, influência e narrativa. O filme de Gabriel Ripstein se instala justamente nesse intervalo, quando o futebol ainda não virou festa popular, mas já funciona como moeda política. Em vez de apostar no drama esportivo mais previsível, feito de arquibancadas, gols decisivos e emoção pronta para consumo, a comédia olha para corredores, reuniões e pequenos teatros de poder que ajudam a transformar uma crise em oportunidade nacional.
A trama acompanha a articulação que levou o México a sediar a Copa de 1986 após a desistência da Colômbia. Esse dado histórico serve como ponto de partida, mas não é o que torna o filme mais interessante. “México 86” não está tão preocupado em reconstruir uma epopeia quanto em observar como uma candidatura improvável pode ser vendida como destino natural. A sacada funciona porque desloca o futebol para um lugar menos confortável: não o da paixão pura, mas o da negociação. O campo, aqui, é quase uma consequência. O jogo de verdade acontece antes, entre burocratas, dirigentes, interesses privados e discursos nacionais embalados com a solenidade certa.
Diego Luna ocupa o centro desse tabuleiro como Martín de la Torre, personagem que funciona justamente por não caber numa caricatura única. Ele não é apenas um oportunista de manual, nem um idealista movido por grandeza patriótica. Sua graça está no meio desse caminho. Martín parece acreditar no que defende, mas também sabe que acreditar pode ser útil quando se precisa convencer os outros. Luna trabalha bem essa ambiguidade, com uma presença que mistura simpatia, cálculo e urgência. O personagem se move como alguém que entende a política menos como convicção e mais como circulação: estar na sala certa, falar com a pessoa certa, transformar obstáculo em argumento.
O jogo fora do jogo
O melhor de “México 86” está em perceber que a linguagem dos grandes eventos esportivos sempre vem acompanhada de uma retórica inflada. Tudo soa maior do que é: a chance histórica, a missão nacional, a honra coletiva, a capacidade de fazer o impossível. O filme se diverte com essa grandiloquência sem precisar explicá-la demais. Há humor na forma como o país, a FIFA e os personagens orbitam uma mesma fantasia organizada: a de que sediar uma Copa é, ao mesmo tempo, um prêmio, uma vitrine e uma prova de competência diante do mundo.
Essa escolha dá ao longa uma leveza eficiente. “México 86” tem ritmo de comédia de bastidores, mais interessado em capturar o espírito de uma engrenagem institucional em movimento do que em detalhar cada etapa do processo. A burocracia não aparece como algo parado, mas como um espaço de improviso. As decisões parecem nascer de pressão, charme, insistência e de uma capacidade quase atlética de dobrar a realidade até que ela caiba no plano. O filme é mais esperto quando mostra que, em torno do futebol, até o improviso pode ser apresentado como estratégia.
O problema é que essa leveza, tão útil para o ritmo, também cobra seu preço. A sátira aponta para temas duros: corrupção, lobby, manipulação de imagem, nacionalismo fabricado e interesses econômicos escondidos atrás da celebração esportiva. Só que “México 86” prefere manter tudo em temperatura média. Ri do sistema, mas raramente deixa o riso ficar desconfortável. A esperteza institucional, em vários momentos, ganha um verniz simpático, como se a habilidade de contornar regras fosse mais charmosa do que problemática. O filme sabe que está lidando com uma zona moral cinzenta, mas nem sempre sustenta o incômodo que essa zona pede.
Isso não enfraquece a comédia por completo. Torna-a menos cortante. “México 86” diverte porque entende o absurdo das engrenagens de poder, mas poderia ser mais incisivo se tratasse esse absurdo com menos complacência. Há uma diferença importante entre mostrar a malandragem como sintoma de um sistema e transformá-la em traço simpático de identidade nacional. Quando se aproxima da primeira opção, o filme encontra sua melhor força crítica. Quando escorrega para a segunda, perde densidade e fica perto demais do charme que deveria examinar com mais desconfiança.
Riso calculado
A decisão de privilegiar o extracampo também ajuda “México 86” a escapar de um caminho batido. Muitos filmes sobre futebol se apoiam na catarse da torcida, na superação individual ou no suspense da partida. Aqui, o suspense é outro: como se fabrica uma certeza pública a partir de uma sequência de interesses particulares? Essa pergunta sustenta o filme mesmo quando a história real já é conhecida. Não se trata de descobrir se o México sediará a Copa, mas de observar como um fato consumado pode ser reorganizado como narrativa de audácia, inteligência e destino.
O elenco acompanha essa lógica sem transformar a sátira em farsa escancarada. A presença de Karla Souza, Álvaro Guerrero e Daniel Giménez Cacho ajuda a compor um ambiente em que cada personagem parece carregar algum tipo de agenda, ainda que o impulso dramático esteja concentrado em Diego Luna. O mais interessante é a sensação de que ninguém está totalmente fora do jogo. Todos, de algum modo, entendem que a Copa é um evento esportivo, mas também um negócio de imagem. Essa percepção dá ao filme um comentário político claro, mesmo quando a direção prefere a fluidez ao confronto.
O lançamento em 2026 torna essa leitura ainda mais direta. Com o México novamente associado ao imaginário da Copa, “México 86” chega em um momento em que sua premissa conversa com o presente sem precisar forçar paralelos. Grandes eventos esportivos raramente pertencem apenas ao esporte. Eles mobilizam memória, orgulho e festa, mas também reorganizam prioridades, encobrem interesses e produzem versões oficiais de sucesso. O filme percebe essa atualidade. O que falta é mais ambição para lidar com ela.
Ainda assim, o saldo é positivo. “México 86” é uma comédia política ágil, sustentada por uma boa premissa e por um protagonista que dá movimento ao material. Funciona melhor quando observa o poder como performance e o futebol como produto de bastidor. Falha quando suaviza aquilo que poderia incomodar mais. Sua graça está no riso calculado; sua fraqueza, também. O filme entende que uma Copa pode nascer de fé, vaidade, oportunismo e negociação. Só não leva essa mistura até onde ela poderia chegar. Ri do poder, sim, mas prefere não encará-lo por tempo demais.

