“O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos” chega ao fim com a sensação de um projeto que sabe onde quer pousar, mas nem sempre sabe quanto precisava carregar até lá. Peter Jackson retorna à Terra-média com domínio visual, senso de escala e intimidade com aquele universo, mas também com um impasse que atravessa toda a trilogia: a aventura de Bilbo Bolseiro, mais direta e doméstica em sua origem, foi ampliada até assumir proporções quase incompatíveis com seu centro dramático. O resultado é um encerramento vigoroso em vários momentos, irregular em outros, e revelador das virtudes e dos limites dessa segunda passagem cinematográfica por Tolkien.
O filme começa em estado de urgência. Smaug deixa a Montanha Solitária, a destruição de Cidade do Lago reorganiza as forças ao redor de Erebor, e homens, anões e elfos passam a disputar não apenas sobrevivência, mas território, dívida, orgulho e tesouro. A premissa funciona porque transforma a vitória aparente em crise. Erebor foi retomada, mas o que parecia conquista se converte em ameaça. Thorin Escudo de Carvalho, enfim cercado pela riqueza que perseguiu, afunda numa obsessão que corrói suas decisões e contamina seus vínculos. A guerra, nesse sentido, começa antes do primeiro choque entre exércitos. Ela nasce quando a lucidez dos líderes cede espaço ao ressentimento, à posse e à incapacidade de negociar.
Bilbo perde espaço
O problema é que Bilbo, interpretado por Martin Freeman com a mesma mistura de desconforto, esperteza e humanidade dos filmes anteriores, parece deslocado dentro da própria conclusão. Ele continua sendo a consciência moral da história, mas a engrenagem épica cresceu tanto ao seu redor que sua presença frequentemente assume mais a função de comentário do que de impulso. Freeman encontra bons momentos nesse lugar de observador perplexo, especialmente quando Bilbo percebe a distância entre a aventura que imaginava viver e a guerra que se formou diante dele. Ainda assim, o filme o deixa pequeno demais por tempo demais.
Esse deslocamento pesa porque Bilbo era justamente o ponto de vista que diferenciava “O Hobbit” de “O Senhor dos Anéis”. Em “O Hobbit: Uma Jornada Inesperada”, havia força em acompanhar um sujeito cauteloso, caseiro e improvável sendo arrastado para fora de sua zona de conforto. Em “O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos”, essa perspectiva se dilui em frentes de combate, alianças quebradas, criaturas digitais, acertos de continuidade e personagens que disputam espaço. A trilogia sempre quis conversar com “O Senhor dos Anéis”, mas aqui essa aproximação cobra um preço alto. O filme tenta alcançar a solenidade de uma saga maior quando talvez seu melhor personagem pedisse uma escala mais humana.
O arco de Thorin, por outro lado, dá ao longa seu eixo emocional mais firme. Richard Armitage trabalha bem a passagem do rei ferido ao líder tomado por desconfiança, sem reduzir o personagem a um antagonista circunstancial. A obsessão pelo tesouro aparece como uma doença moral, mas também como resultado de uma trajetória marcada por perda, exílio e humilhação. Quando Thorin se fecha aos pedidos de ajuda e à possibilidade de acordo, o filme encontra algo mais forte do que preparação para a batalha: passa a observar o custo íntimo da restauração de um reino. É ali que Jackson chega mais perto do drama, não apenas do tamanho.
O tamanho pesa
Visualmente, “O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos” tem a segurança de uma máquina muito bem calibrada. A Montanha Solitária, os campos ao redor de Erebor e os exércitos em movimento carregam a assinatura grandiosa de Peter Jackson. A música de Howard Shore reforça a continuidade emocional da Terra-média e ajuda a manter algum lastro afetivo mesmo quando a narrativa se espalha demais. A montagem busca urgência, alternando frentes de conflito e tentando fazer a batalha avançar sem abandonar por completo os personagens principais. Quando a imagem de guerra está ligada a uma escolha moral ou a uma perda concreta, o filme ganha peso.
Mas o excesso cobra sua parte. O uso intenso de efeitos digitais cria sequências amplas e ambiciosas, porém também aproxima parte da ação de uma lógica em que multiplicar inimigos, golpes e deslocamentos não significa necessariamente aumentar a tensão. A batalha é longa, barulhenta e pensada para encerrar tudo em chave monumental, mas nem cada avanço no campo de combate carrega consequência dramática equivalente. Em certos trechos, a coreografia da destruição parece interessar mais do que a vulnerabilidade dos corpos envolvidos. A grandeza, que deveria ampliar o drama, às vezes passa por cima dele.
Esse é o dilema central do filme. Peter Jackson sabe filmar a Terra-média como poucos diretores saberiam. Ele entende a geografia emocional desse universo, o peso dos objetos, a solenidade dos juramentos, a melancolia das despedidas. Ao mesmo tempo, “O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos” revela uma confiança excessiva na ideia de que tudo precisa crescer para importar. Mais personagens, mais frentes, mais conexões, mais combates, mais sinais de uma mitologia futura. A expansão dá imponência ao conjunto, mas enfraquece a simplicidade que fazia de Bilbo uma figura tão interessante.
A comparação com “O Senhor dos Anéis” é inevitável, embora não resolva tudo. O problema de “O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos” não é apenas não alcançar o mesmo patamar da trilogia anterior. Poucos filmes de fantasia alcançaram. A questão é que ele parece, em vários momentos, tentar ocupar um lugar semelhante sem ter a mesma densidade narrativa para sustentá-lo. “O Senhor dos Anéis” construía sua grandeza a partir de uma ameaça existencial que atravessava povos, histórias e destinos. Aqui, a grandiosidade nasce de uma adaptação expandida, que transforma um desfecho em monumento de guerra.
Ainda assim, seria injusto tratar o filme como fracasso. Há emoção na despedida, vigor na direção, entrega evidente do elenco e um prazer reconhecível em retornar àquele mundo. O longa funciona melhor quando aceita que seu coração não está na quantidade de exércitos em cena, mas nas pequenas rupturas entre lealdade, medo e ambição. Bilbo tentando preservar alguma decência, Thorin lutando contra a própria sombra, Bard tentando responder por um povo devastado: são esses elementos que sustentam o que a máquina do espetáculo quase engole.
“O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos” encerra a trilogia de modo satisfatório, mas não plenamente vitorioso. É um final de grande porte, com imagens fortes e momentos de peso emocional, mas também com sinais claros de uma narrativa que cresceu além do necessário. Sua melhor qualidade e seu maior defeito nascem da mesma ambição: transformar uma aventura em epopeia. Quando essa ambição encontra personagens em conflito, o filme respira. Quando se entrega apenas ao tamanho da guerra, perde parte da alma que Bilbo ainda tenta, discretamente, proteger.

