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“O Eterno Feminino” transforma a vida da escritora mexicana Rosario Castellanos em um retrato íntimo sobre ambição, amor, literatura e os obstáculos impostos às mulheres em uma época que insistia em limitar suas possibilidades. Dirigido por Natalia Beristain, o filme acompanha diferentes fases da vida da autora na Cidade do México dos anos 1950 em diante, mostrando como sua busca por reconhecimento intelectual se cruza com um casamento cada vez mais complexo e com as expectativas sociais que cercavam as mulheres daquele período.

Quando a história começa, Rosario Castellanos é apresentada ainda jovem, interpretada por Tessa Ia. Universitária tímida e observadora, ela circula por ambientes acadêmicos onde quase todas as vozes de autoridade pertencem a homens. Enquanto colegas e professores discutem literatura, filosofia e política, Rosario luta para que suas próprias ideias sejam levadas a sério.

A dificuldade não está apenas na publicação de textos ou no acesso a oportunidades profissionais. O problema aparece nas conversas mais simples, nas reuniões intelectuais e até nos relacionamentos pessoais. Em praticamente todos os ambientes, ela precisa provar repetidamente que merece estar ali.

Natalia Beristain não deseja transformar essa fase em uma sequência de discursos sobre feminismo. Em vez disso, acompanha pequenos episódios cotidianos que revelam a estrutura de uma sociedade que aceitava mulheres como ouvintes, mas raramente como protagonistas. Cada porta aberta exige esforço dobrado. Cada reconhecimento vem acompanhado de alguma resistência.

O encontro com Ricardo Guerra

Rosario se aproxima de Ricardo Guerra, interpretado por Pedro de Tavira na juventude e por Daniel Giménez Cacho na fase adulta. Intelectual brilhante e admirado em seu círculo social, Ricardo parece inicialmente representar o parceiro ideal para alguém apaixonada por literatura e pensamento crítico.

Os dois compartilham interesses semelhantes, discutem livros e constroem uma relação baseada na admiração mútua. Durante algum tempo, o relacionamento oferece a Rosario uma sensação de pertencimento que ela raramente encontra em outros espaços.

Quando a carreira da escritora começa a ganhar força, os problemas aparecem. Aquilo que parecia parceria passa a conviver com inseguranças silenciosas. O sucesso profissional de Rosario cria um desequilíbrio que afeta a dinâmica do casal. A admiração continua existindo, mas passa a dividir espaço com ressentimentos, disputas e frustrações difíceis de ignorar.

Ricardo não é retratado como uma caricatura de machismo. Ele é retratado como um homem talentoso, inteligente e afetuoso em muitos momentos. Ainda assim, demonstra dificuldade para lidar com a ascensão da mulher que está ao seu lado.

Entre a escritora e a esposa

Na fase adulta, Karina Gidi assume o papel de Rosario Castellanos e entrega uma interpretação marcada por delicadeza e firmeza. Sua personagem alcança reconhecimento literário, publica obras importantes e conquista espaço em um ambiente tradicionalmente masculino.

O sucesso, porém, não resolve seus problemas. Quanto mais sua carreira cresce, mais complexas se tornam as relações ao redor. O casamento passa por períodos turbulentos. A maternidade surge como tema constante. As expectativas impostas às mulheres continuam presentes, mesmo quando elas alcançam posições de prestígio.

Rosario não é transformada em uma figura idealizada. Ela é brilhante, mas também vulnerável. Demonstra coragem em alguns momentos e insegurança em outros. Toma decisões acertadas e comete erros. Essa combinação torna a personagem humana e próxima do espectador.

Há uma sensação de que Rosario precisa administrar várias versões de si mesma ao mesmo tempo. A escritora reconhecida. A esposa. A mãe. A intelectual. A mulher que tenta preservar sua individualidade em um ambiente que constantemente exige concessões.

Uma sociedade construída por homens

Embora acompanhe a vida particular da protagonista, “O Eterno Feminino” também registra as transformações culturais do México ao longo das décadas. Universidades, redações, eventos literários e ambientes familiares ajudam a ilustrar os limites impostos às mulheres naquele contexto histórico.

Natalia Beristain não transforma essas questões em discursos didáticos. Elas aparecem nas situações mais comuns. Surgem em comentários aparentemente inofensivos, em oportunidades negadas e na surpresa de alguns homens diante do sucesso feminino.

O filme mostra que o preconceito nem sempre se manifesta de forma explícita. Muitas vezes ele aparece disfarçado de conselho, proteção ou preocupação. Esse olhar torna a narrativa ainda mais interessante porque revela mecanismos sutis que continuam familiares mesmo décadas depois.

Um retrato íntimo de Rosario Castellanos

Ao focar os conflitos emocionais da escritora, a diretora constrói uma obra que funciona tanto para quem conhece Rosario Castellanos quanto para quem nunca ouviu falar dela. A biografia serve como ponto de partida para uma reflexão sobre identidade, reconhecimento e pertencimento.

A alternância entre diferentes momentos da vida da personagem ajuda a revelar permanências e mudanças. A jovem universitária que tenta ser ouvida continua presente na escritora consagrada. O cenário muda, os livros se acumulam, os aplausos chegam, mas algumas inquietações permanecem.

Karina Gidi sustenta grande parte dessa força dramática. Sua atuação transmite a sensação de alguém que alcançou conquistas importantes sem jamais encontrar um território completamente seguro. Daniel Giménez Cacho também se destaca ao construir um Ricardo Guerra cheio de ambiguidades e contradições.

“O Eterno Feminino” termina deixando a impressão de que acompanhamos não apenas a formação de uma grande escritora, mas também o preço cobrado por uma sociedade que insistia em limitar mulheres talentosas. Além de registrar uma carreira literária, o filme revela as dificuldades enfrentadas por alguém que se recusou a permanecer em silêncio quando quase todos ao redor pareciam esperar exatamente isso.


Filme: O Eterno Feminino
Diretor: Natalia Beristain
Ano: 2017
Gênero: Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
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