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“O Estranho Thomas” parte de uma ideia capaz de sustentar um suspense sobrenatural mais estranho, mais seco e talvez mais perturbador. Thomas, vivido por Anton Yelchin, é um jovem cozinheiro de uma pequena cidade no deserto californiano que vê mortos, reconhece sinais de tragédia e tenta impedir aquilo que quase ninguém ao seu redor consegue perceber. A premissa tem apelo imediato porque aproxima o insólito de uma rotina muito comum: uma lanchonete, ruas tranquilas, amores juvenis, conversas com a polícia local. Stephen Sommers percebe esse potencial, mas nem sempre consegue conduzi-lo com firmeza. O filme quer ser mistério, romance, aventura, comédia sombria e suspense sobrenatural. Em alguns trechos, essa mistura dá personalidade ao conjunto. Em outros, deixa a sensação de que a história está sempre correndo atrás de si mesma.

Baseado no romance de Dean Koontz, “O Estranho Thomas” funciona melhor quando observa seu protagonista antes de empurrá-lo para a próxima ameaça. Thomas não é apresentado como um herói grandioso, nem como um investigador brilhante, nem como um sujeito consumido por pose trágica. Ele trabalha, ama Stormy, sua namorada, e mantém uma relação de confiança com o chefe de polícia Wyatt Porter. A vida dele seria quase banal se não fosse atravessada por mortos silenciosos, presságios e criaturas que surgem como prenúncio de violência. Esse contraste entre a normalidade ensolarada e a presença constante da morte dá ao filme seu traço mais interessante. O sobrenatural não aparece como espetáculo distante, mas como interferência no cotidiano.

Anton Yelchin é decisivo para que essa chave funcione. Sua interpretação dá a Thomas uma leveza que não anula o medo e uma melancolia que não pesa demais. Ele evita transformar o personagem em uma coleção de manias ou em um rapaz definido apenas pelo dom que carrega. Há nele uma doçura inquieta, uma prontidão meio cansada diante do absurdo, como se enxergar o invisível fosse menos um privilégio do que um trabalho ingrato. Quando o roteiro se apressa, Yelchin segura a dimensão humana da história. Quando a narrativa acumula pistas, visões e explicações, ele mantém Thomas próximo, falho, vulnerável. É uma atuação que dá mais unidade ao filme do que a própria direção consegue oferecer.

O dom e o ruído

O principal problema de “O Estranho Thomas” está na maneira como confunde velocidade com tensão. O filme avança sem muita pausa, apresenta suas regras, convoca suas criaturas, cria uma ameaça coletiva e tenta manter tudo em movimento. A narração em primeira pessoa ajuda a organizar o universo, mas também reduz parte do mistério. Em vez de deixar certas imagens amadurecerem, o roteiro frequentemente explica, comenta ou passa adiante. O resultado é um ritmo ágil, mas nem sempre intenso. Há muitos acontecimentos, embora nem todos tenham o peso dramático que deveriam.

Essa pressa aparece com mais força na construção do perigo. As criaturas associadas à tragédia são essenciais para a mitologia do filme, mas sua presença visual nem sempre produz desconforto. Em alguns momentos, elas funcionam como bons sinais de ameaça. Em outros, parecem suavizar justamente aquilo que deveria ficar mais sombrio. A direção de Sommers tem familiaridade com o entretenimento de aventura, e isso traz vantagens: o filme raramente fica parado, não se leva a sério demais e entende que existe algo de pulp nessa história. Mas essa mesma inclinação prejudica a atmosfera quando tudo ganha o mesmo impulso. O medo, o humor, o romance e a ação competem por espaço, em vez de se fortalecerem.

A mistura de tons não seria um defeito por si só. Pelo contrário, “O Estranho Thomas” poderia crescer justamente por não caber em uma categoria confortável. O problema é que a costura fica instável. O romance de Thomas e Stormy pede delicadeza, a investigação pede precisão, o horror pede espera, e a aventura pede aceleração. O filme escolhe acelerar quase sempre. Com isso, algumas relações parecem mais afirmadas do que construídas, e certas viradas chegam antes de terem acumulado força suficiente. A trama mantém a curiosidade, mas raramente deixa a inquietação se instalar de verdade.

Charme irregular

Mesmo com esses limites, “O Estranho Thomas” não é um filme sem vida. Willem Dafoe oferece a Wyatt Porter uma presença firme, funcionando como contraponto adulto ao caos que Thomas tenta decifrar. Addison Timlin, como Stormy, sustenta o eixo afetivo da narrativa e ajuda a mostrar que o protagonista não vive apenas em função de seus presságios. O elenco dá ao material uma consistência que o roteiro nem sempre retribui. Há vínculos interessantes, mas desenvolvidos com economia excessiva. O filme acredita na força dessas relações antes de permitir que elas respirem plenamente na tela.

Também fica a sensação de que a história tenta apresentar um universo maior do que cabe em sua duração. Há regras, mitologia, personagens e ameaças que parecem pedir mais espaço. “O Estranho Thomas” às vezes soa como o primeiro capítulo de algo que não chegou a se consolidar, e essa impressão pesa sobre a experiência. Em vez de aprofundar o mundo que apresenta, o filme alterna explicação e correria. A adaptação preserva o apelo de uma ideia chamativa, mas nem sempre encontra uma forma cinematográfica à altura dela.

Ainda assim, há algo de curioso em sua imperfeição. “O Estranho Thomas” não tem a precisão de um grande suspense, nem a atmosfera de um horror mais marcante, nem a força emocional que sua premissa poderia render. Mas possui uma identidade própria. Seu cenário tem personalidade, seu protagonista tem graça e sua mistura de fantasia pop com ameaça sobrenatural evita o piloto automático. O filme funciona melhor quando se concentra no modo como Thomas atravessa o absurdo com estranha naturalidade. Funciona pior quando tenta provar que pode ser muitas coisas ao mesmo tempo.

A leitura mais justa passa por esse meio-termo. “O Estranho Thomas” falha no controle do tom, apressa conflitos e reduz parte da tensão ao transformar ameaça em movimentação constante. Ao mesmo tempo, não merece ser tratado como simples produto descartável. Há imaginação na premissa, há charme na ambientação e há uma atuação central que segura o filme mesmo quando a narrativa se dispersa. Anton Yelchin torna Thomas mais interessante do que a trama ao redor dele. Esse é o maior mérito e, de certo modo, a maior limitação do longa: o personagem fica na memória com mais força do que o filme que o abriga.


Filme: O Estranho Thomas
Diretor: Stephen Sommers
Ano: 2013
Gênero: Suspense
Avaliação: 3/5 1 1
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