Tudo já teria sido dito e escrutinado, afirma-se. Se assim é, por que diabos eu, que não sou crítico, escreveria algo sobre o filme “Je M’Appelle Agneta” (“Meu Nome é Agneta”)? Talvez porque o “tudo” ali acima não inclua, é certo, as sensações personalíssimas de cada um de nós diante de arte ou entretenimento.
Continuo, portanto. A Agneta do filme se redescobre, eis o resumo do que se vê na tela, ponto. Bem, li um texto qualquer, certa vez, em que se pretendia inverter a “jornada do herói” de milhares de filmes e livros sobre a tal mudança de vida. Vocês sabem, personagens recriando sua história em países com sol, mar, vinhedos, tulipas ou coisas assim. O contrário sugerido pelo texto poderia ser “baiana(o) viaja para a Alemanha, após se divorciar, e descobre alegria nos rigores do frio e do protestantismo, trocando acarajé por joelho de porco e se tornando uma/um cozinheira(o) de fama internacional com essa iguaria germânica”.
Tantas pessoas recomeçando “Au bout de la terre”, como na canção de Charles Aznavour, e eu aqui, no sofá, lendo, assistindo a séries e bebendo litros de café. Pensemos, por exemplo, no livro de Elena Ferrante, “Dias de Abandono”. Ainda irei terminar de o ler, mas já imagino seu final (apesar de haver um “consternada” logo no segundo parágrafo — espero ter sido má escolha do tradutor). Sem ironia ou pegadinha, o “arquétipo” que mencionei, digamos assim, de “mulher se redescobrindo”, tornou-se comum. Sim, há o que sabemos de relacionamentos; a vida, porém, é igualmente trágica para muitos de nós homens — também nos afundamos num poço e dele não saímos com facilidade. Ou não, o que pode dizer muito de nós para que as mulheres precisem se refazer em países distantes (mudamos bastante: antigamente afirmavam que, fora Frankenstein, todos os arquétipos literários seriam greco-romanos ou bíblicos). Essa onda de superação me é estranha, para homens ou mulheres, porque ela nos conduz no mesmo rumo, rumo que pode ser um tipo de fuga. Não sei bem, confesso, pois preciso elaborar essa ideia. Em “Memória de Elefante”, noutro exemplo, Lobo Antunes, um Leopold Bloom que trocou Dublin por Lisboa, vaga pela cidade e não tem sequer a casa que Bloom tinha para o “retorno”. Ainda assim, parece estar mais vivo do que muitos que “renasceram”. É uma moda que irá durar? As heroínas do século 19 morriam; as de hoje renascem. A ver.
Contudo, feito o nariz de cera, o meu tema agora é distinto, como sempre. Afundado no sofá, café ao alcance da mão, assisti a “Meu Nome é Agneta”. Agneta, obviamente, larga a vida e o marido insossos e parte para a França, onde passa a cuidar de um idoso de vida “colorida”, como ele se define. Renascimento por uma amizade improvável. E de novo confesso: apesar do clichê, gosto desses filmes, porque a mudança no rumo contrário, descrita no segundo parágrafo, é só uma piada, o que desejamos mesmo é vinhedo e vida nova.
A César o que é de César, aos críticos o que é dos críticos. Vale dizer: limito-me a dizer que o filme sueco me pegou de jeito, talvez pelo momento em que me encontro, talvez pela interpretação quase perfeita de dois ou três atores, muito pela trilha sonora magnífica. Resta-me, como pretendo desde o início destas mal traçadas, descrever algo que a fuga de Agneta, da Suécia para o interior francês, trouxe-me. Há uma cena do filme em que se toca o dueto “Brindisi”, às vezes chamado “Libiamo”, da ópera “La Traviata”, e foi nessa cena que o primeiro tapa me acertou o rosto. Filme à parte, ouvir um dueto com coro, do qual eu quase havia me esquecido por causa das atribulações da vida, fez-me passar um domingo procurando várias versões suas — duas biografias de Verdi também vieram no conjunto. Daí para algumas árias e coros que muito me agradam foi um pulo — “Va, pensiero” repetido em moto-contínuo por quase meia hora.
Se Agneta se redescobre na França, ouvir óperas num domingo triste me fez reativar alguma parte de mim que estava esquecida. Einar, o idoso de quem Agneta cuida (interpretado por um excepcional ator), desorganiza o que ela pretende organizar minimamente, e essa dinâmica mantém os dois amigos juntos, que então aprendem a se escutar, tanto que ela, dançando ao redor de uma fonte, num esquecido vilarejo francês, deixa de ser uma sueca invisível e pode ser Anita Ekberg, também sueca, na Fontana do Trevi, por obra do seu novo cotidiano. Assim é a vida, assim são os relacionamentos (de amizade e amor, pouco importa): sempre se desorganizando e trazendo em si a necessidade de ouvir. Recordar-me disso, às vezes perdido de mim mesmo, foi também um legado do filme — que venha a desorganização que tensiona planos, de preferência ao som de “Libiamo”, eu tendo aprendido a ouvir quem se deve ouvir. Agradeço a Verdi e à própria Agneta. Tack, grazie e merci, e se uma única tarde se salvou com beleza e promessa de melhoras nesta construção abalada que sou, o filme já cumpriu parte do que pretendia: alcançou alguém nos seus sótãos escuros e pouco visitados. Meu nome é Marcelo.
(Este texto é para uma mulher que gosta de “La Traviata” e de “A Dama das Camélias”, livro que inspirou Verdi e seu libretista.)

