Em “Vizinhos Bárbaros”, Julie Delpy leva o público à pequena Paimpont, na Bretanha, em 2024, para narrar uma comédia sobre refugiados, preconceito e a delicada diferença entre parecer solidário e realmente acolher alguém.
Paimpont está em clima de festa cívica. A pequena cidade francesa se prepara para receber uma família de refugiados ucranianos, e a mobilização dos moradores tem algo de cerimônia oficial, campanha humanitária e evento de bairro. Bandeiras são erguidas, discursos ganham tom solene e a chegada dos estrangeiros vira motivo de orgulho local. A comunidade quer se ver bonita no retrato. Quer mostrar que está do lado certo da história. Quer, sobretudo, acolher pessoas que já imaginou antes de conhecer.
A família que chega não é ucraniana. É síria. A partir desse detalhe, o filme acompanha a reação dos moradores diante de Marwan Fayad (Ziad Bakri), sua esposa Louna (Dalia Naous), seu pai Hasan (Fares Helou) e as crianças da família, que desembarcam carregando perdas, documentos insuficientes, memórias de guerra e a necessidade urgente de recomeçar.
A recepção muda de tom
A decepção de parte dos moradores aparece antes mesmo de qualquer convivência real. O que era entusiasmo passa a ser uma cordialidade dura, cheia de sorrisos apertados e frases constrangedoras. A cidade, que parecia preparada para abrir portas, começa a selecionar quem considera mais digno de ajuda. O incômodo nasce daí. Paimpont não rejeita a ideia abstrata de acolher refugiados. O problema surge quando os refugiados têm nome, sotaque, religião, origem e necessidades concretas.
Julie Delpy interpreta Joëlle, professora progressista que tenta organizar a acolhida e corrigir os moradores mais hostis. Ela se esforça para fazer tudo certo, mas também vira alvo da própria rigidez. Sua boa vontade vem acompanhada de certo gosto por dar aula aos outros, mesmo fora da sala. O filme ri dessa figura sem transformá-la em vilã. Joëlle quer ajudar, mas nem sempre percebe que acolhimento não cabe inteiro em discurso bem-intencionado.
Do outro lado está Hervé Riou (Laurent Lafitte), um encanador xenófobo que verbaliza o que outros preferem disfarçar. Ele reclama, provoca e espalha desconfiança com a tranquilidade de quem se acha guardião da cidade. Anne Poudoulec (Sandrine Kiberlain), comerciante local, circula nesse ambiente de conveniência social, onde cada morador mede suas palavras conforme a plateia ao redor. O constrangimento cresce porque a hipocrisia deixa de ser ruído de fundo e passa a orientar decisões práticas.
Os Fayad tentam recomeçar
Marwan Fayad é um dos pontos mais sensíveis do filme. Interpretado por Ziad Bakri, ele não chega à França como alguém sem passado. Chega como um homem que já teve profissão, reputação e autonomia. O exílio, porém, apaga parte dessa história diante dos olhos alheios. Em Paimpont, ele precisa provar valor a pessoas que o veem primeiro como refugiado e só depois como indivíduo. Essa inversão fere sua dignidade e torna cada gesto de adaptação mais pesado.
Louna, vivida por Dalia Naous, reage de modo diferente. Ela tenta construir alguma estabilidade para a família, mesmo quando percebe a resistência da cidade. Sua postura tem pragmatismo e cansaço. Não há ingenuidade em sua esperança. Há cálculo de sobrevivência. Hasan, interpretado por Fares Helou, carrega uma irritação mais visível. Ele perdeu terra, rotina e autoridade familiar, e a nova cidade lhe oferece abrigo, mas também o obriga a aceitar olhares que diminuem sua história.
As crianças da família enfrentam a adaptação na escola, onde a convivência costuma revelar preconceitos sem filtro. Comentários, estranhamentos e pequenas exclusões mostram que a infância não está protegida da política dos adultos. O filme acerta ao deixar essa tensão aparecer no cotidiano, sem transformar cada situação em sermão. A família Fayad precisa aprender códigos locais enquanto os moradores decidem, muitas vezes em grupo, quanto espaço estão dispostos a conceder.
A comédia nasce do constrangimento
O mérito de Julie Delpy está em tratar um tema pesado com uma leveza cheia de farpas. “Vizinhos Bárbaros” é engraçado porque mostra pessoas tentando parecer melhores do que são. A piada nasce quando a generosidade pública tromba com o preconceito privado. Um morador quer ser visto como solidário, mas reclama da origem da família. Outro defende a acolhida, mas impõe regras com ar de superioridade. A cidade inteira parece disputar uma medalha moral que ninguém merece receber sem ressalvas.
Essa escolha dá ao filme um ritmo de comédia de costumes. Paimpont funciona quase como um laboratório de vaidades locais. O prefeito, os comerciantes, a professora, o encanador e os vizinhos formam um painel de pequenas autoridades domésticas. Cada um tenta preservar sua imagem, seu comércio, sua influência ou seu conforto. Enquanto isso, os Fayad precisam lidar com burocracia, moradia, idioma, escola e trabalho. A diferença entre os problemas de uns e de outros sustenta boa parte da ironia.
A câmera acompanha esse ambiente com olhar de observação, próxima de uma reportagem de bairro que flagra as pessoas antes de elas organizarem a melhor versão de si mesmas. A beleza da Bretanha aparece, mas nunca como cartão-postal inocente. As ruas e casas de Paimpont parecem acolhedoras, embora muitas portas permaneçam meio fechadas. Essa contradição ajuda a manter o filme vivo. O cenário é bonito, mas a convivência cobra preço.
Uma sátira sobre boas intenções
Joëlle pode ser generosa e irritante. Hervé pode ser ridículo e perigoso. Anne pode parecer educada e ainda assim participar de uma rede de pequenas omissões. Marwan pode ser orgulhoso porque perdeu demais para aceitar qualquer tratamento. Louna pode sorrir sem deixar de perceber a violência escondida nas gentilezas.
O filme também toca numa ferida bastante atual. Refugiados não são recebidos da mesma forma quando mudam de origem, cor, religião ou imagem pública. A cidade de Delpy reage melhor à ideia de acolher quem já foi previamente aceito pela opinião geral. Quando a família síria chega, a fantasia humanitária perde o verniz. A comédia fica mais amarga porque revela uma seleção afetiva do sofrimento alheio.
Ainda assim, Julie Delpy não abandona o prazer de fazer cinema popular. Há ritmo, situações absurdas, personagens reconhecíveis e diálogos que cutucam sem pedir licença. “Vizinhos Bárbaros” observa a França contemporânea por meio de uma pequena comunidade que deseja parecer aberta ao mundo, desde que o mundo chegue no pacote esperado. Quando os Fayad passam a ocupar espaço real em Paimpont, os moradores precisam abandonar a pose e lidar com pessoas de carne, memória e futuro.

