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A casa própria costuma aparecer no cinema como recompensa, herança, refúgio ou sinal de chegada. Em “Sonhador Americano”, ela surge como obsessão. Não é exatamente um lar que Phil Loder deseja, mas uma prova material de que sua vida ainda pode ser corrigida por uma compra. A diferença é decisiva. O filme dirigido por Paul Dektor parte de uma ideia bastante boa: quando a moradia vira fantasia de status, a ética passa a parecer um detalhe administrável. Há algo de ácido nessa premissa, sobretudo em um tempo em que comprar uma casa se tornou, para muita gente, menos um projeto de vida e mais uma ficção econômica. “Sonhador Americano” entende a força dessa contradição. O problema é que nem sempre encontra uma forma dramática à altura dela.

Phil, interpretado por Peter Dinklage, é um professor de economia que conhece a teoria, mas não consegue convertê-la em conforto material. Ele observa o mercado imobiliário como quem olha uma vitrine fechada por dentro: tudo está ali, perto o suficiente para provocar desejo, longe demais para ser alcançado sem alguma distorção moral. A chance aparece quando ele entra em um acordo improvável com Astrid Fanelli, uma viúva idosa vivida por Shirley MacLaine. A negociação envolve a compra de uma propriedade por um valor muito abaixo do mercado, com uma condição que torna a oportunidade tão sedutora quanto incômoda. O filme não precisa sublinhar a crueldade da situação. Ela está no próprio cálculo. Phil quer chamar de sorte aquilo que, no fundo, depende da espera pelo desaparecimento de outra pessoa.

A casa como miragem

O ponto mais interessante de “Sonhador Americano” é não tratar Phil como um ganancioso puro. Ele é também um homem frustrado, ressentido, algo patético, esmagado por uma lógica social que promete mérito enquanto encarece qualquer sensação de estabilidade. Isso não o torna inocente. Ao contrário, torna sua falha mais reconhecível. Dinklage sabe ocupar essa região ingrata. Seu Phil não é um vilão doméstico nem um perdedor simpático demais para ser julgado. É alguém que transforma carência em argumento, ambição em direito e humilhação em desculpa. A atuação encontra humor justamente nesse intervalo entre a inteligência do personagem e sua incapacidade de perceber a própria mesquinharia.

Essa ambiguidade impede que o filme vire apenas uma farsa sobre um homem tentando levar vantagem. Phil sabe que existe algo errado em seu plano, mas prefere organizar a culpa com palavras mais confortáveis. Oportunidade. Mercado. Chance. Recomeço. A comédia funciona quando revela esse vocabulário íntimo da conveniência, esse esforço de parecer razoável diante de uma decisão moralmente torta. Ninguém gosta de se imaginar oportunista. É bem mais fácil acreditar que se está apenas usando uma brecha do sistema. “Sonhador Americano” acerta quando observa esse mecanismo sem transformar o personagem em caricatura.

Shirley MacLaine ajuda a quebrar a previsibilidade desse jogo. Astrid poderia ser apenas a figura em torno da qual o acordo gira, uma espécie de obstáculo narrativo para o desejo de Phil. Não é isso que acontece nos melhores momentos. Há na personagem uma mistura de fragilidade, ironia e controle que muda a temperatura das cenas. A relação entre ela e Phil tem algo de duelo educado, de conversa atravessada por interesses que ninguém declara por completo. O filme melhora quando os dois dividem o quadro, porque a história deixa de ser apenas sobre um homem querendo uma casa e passa a tratar, ainda que de modo irregular, de duas pessoas testando os limites uma da outra.

O problema é que “Sonhador Americano” não sustenta sempre essa tensão. A premissa pede uma comédia dramática mais cortante, talvez mais desconfortável, capaz de empurrar Phil com mais firmeza contra as consequências de sua ambição. O roteiro prefere um caminho menos áspero, com desvios que mantêm a trama em movimento, mas nem sempre aprofundam o conflito central. O filme tem um núcleo forte e sabe disso. Ainda assim, às vezes parece contornar sua melhor ideia, como se temesse levar a sátira longe demais.

Carisma não basta

Essa irregularidade pesa porque “Sonhador Americano” depende muito mais dos atores e do conceito do que de uma construção cinematográfica realmente marcante. A direção é correta, acompanha os personagens, organiza as situações e deixa o elenco respirar. Mas raramente encontra uma imagem, um ritmo ou uma solução de encenação que amplie o comentário social embutido na história. O filme parece satisfeito em ser uma comédia dramática de boa premissa, quando poderia ser uma sátira mais venenosa ou um estudo de personagem mais preciso. Fica em uma zona intermediária, nem sempre confortável para o próprio material.

O tom também oscila. A graça amarga de Phil combina com o tema, mas algumas passagens suavizam demais o incômodo que a história sugere. “Sonhador Americano” quer rir da obsessão imobiliária, mas recua diante da crueldade que essa obsessão produz. Quer tratar seus personagens com humanidade, o que é uma escolha legítima, mas em alguns momentos confunde humanidade com redução do atrito. O resultado não chega a desmontar o filme, embora limite sua força. Há instantes em que ele parece prestes a dizer algo mais duro sobre propriedade, envelhecimento, solidão e fracasso social. Logo depois, volta a um registro mais seguro.

Ainda assim, seria injusto tratar o filme como uma oportunidade perdida sem nuances. Há inteligência no ponto de partida, há bons encontros entre Dinklage e MacLaine, há uma leitura pertinente de um mundo em que a casa deixou de ser apenas necessidade e virou certificado de valor pessoal. O que falta é maior confiança na própria acidez. A história de Phil funciona porque o desejo dele é pequeno diante do peso simbólico que carrega. Seu sonho não é grandioso; é apertado, caro, ansioso e um pouco vergonhoso. O filme percebe isso, mas poderia explorar melhor a tristeza dessa constatação.

“Sonhador Americano” vale mais pela pergunta que formula do que pelas respostas que encontra. O que alguém aceita ignorar para se sentir vencedor? Até que ponto uma injustiça pessoal autoriza uma esperteza contra outra pessoa? O longa não desenvolve essas questões com toda a contundência possível, mas também não as desperdiça. Fica uma obra simpática, desigual, sustentada por intérpretes experientes e por uma ideia que continua interessante mesmo quando a narrativa perde pressão. Não é pouco, mas também não basta para transformar a boa premissa em um grande filme. Como comédia dramática, “Sonhador Americano” tem algo na cabeça. Só falta mais coragem para encarar o desconforto que ele mesmo coloca à mesa.


Filme: Sonhador Americano
Diretor: Paul Dektor
Ano: 2022
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 3/5 1 1
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