Na Holanda ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, “Riphagen”, dirigido por Pieter Kuijpers, acompanha Dries Riphagen, vivido por Jeroen van Koningsbrugge, um criminoso que enriquece entregando judeus escondidos aos alemães, enquanto Jan van Liempd, interpretado por Kay Greidanus, tenta usar sua função na polícia para ajudar a resistência e impedir que a rede de traições avance.
Dries Riphagen não é um vilão de uniforme impecável, daqueles que entram em cena anunciando a própria monstruosidade. Ele é perigoso porque sorri, conversa, oferece ajuda e sabe parecer útil. Em plena ocupação nazista, ele se aproxima de judeus escondidos em Amsterdã dizendo que pode proteger dinheiro, joias, documentos e imóveis até a guerra acabar. A promessa parece generosa. Mas é uma armadilha calculada por alguém que aprendeu a transformar medo em negócio.
Vítimas
A primeira vítima acompanhada de perto é Esther Schaap, interpretada por Anna Raadsveld. Escondida e vulnerável, ela acredita que Riphagen pode ajudá-la a sobreviver. Ele usa um discurso sentimental, menciona uma ligação pessoal com uma mulher judia e age com gentileza suficiente para conquistar confiança. O detalhe mais cruel está nisso. Riphagen não precisa arrancar tudo pela força desde o começo. Ele convence Esther a entregar seus bens e ainda faz com que ela indique outros judeus escondidos. A vítima, sem saber, vira ponte para novas vítimas.
Enquanto Riphagen finge proteger pessoas perseguidas, Jan van Liempd tenta trabalhar contra os nazistas por dentro. Ele é policial em uma estrutura ligada aos ocupantes, mas colabora com a resistência liderada por Gerrit van der Veen. Sua posição lhe dá acesso a informações, documentos e operações que ajudam o grupo a sabotar planos alemães. Em uma das frentes mais importantes, a resistência produz identidades falsas e tenta retirar arquivos das mãos nazistas. Cada papel salvo pode significar uma vida menos exposta.
Resistência
O problema é que a resistência também está cercada por medo, pressa e infiltração. Betje Wery, vivida por Anna Raadsveld em uma composição marcada pela ambiguidade, é presa em uma estação de trem e ameaçada com deportação. Com os pais já enviados a um campo de concentração, ela passa a colaborar com os nazistas para sobreviver. Usando o nome Bella, aproxima-se de Charly, um dos amigos de Jan, e consegue chegar ao grupo. A entrada dela muda o grau de perigo das reuniões, porque a informação passa a circular dentro da própria rede que deveria proteger seus membros.
“Riphagen” mostra que a guerra também é feita de portas abertas na hora errada, papéis vistos por quem não deveria e pessoas obrigadas a escolher entre culpa e sobrevivência. Betje não é tratada apenas como uma traidora simples, mas como alguém esmagado por uma chantagem brutal. Isso não absolve suas escolhas, mas torna a situação mais amarga. O filme observa esse terreno sem precisar gritar. Bastam uma conversa, um documento descoberto e uma missão comprometida para que a resistência perca pessoas, rotas e segurança.
Vida pessoal
No campo pessoal, Riphagen se envolve com Greetje, interpretada por Lisa Zweerman. Ela o conhece sem saber quem ele realmente é. Para ela, ele parece um homem corajoso, envolvido em atividades clandestinas contra os nazistas e disposto a proteger famílias perseguidas. A mentira funciona tão bem que os dois se casam e passam a viver em uma casa tomada de judeus deportados. Greetje acredita morar no resultado de um esforço honrado. O espectador sabe que aquele conforto nasceu de roubo, prisão e morte.
Essa relação ajuda a revelar o talento mais perturbador de Riphagen. Ele não engana apenas inimigos ou vítimas distantes. Ele monta uma vida doméstica inteira sobre versões falsas. O criminoso brutal que colabora com os alemães consegue parecer marido apaixonado dentro de casa. A diferença entre uma cena e outra não suaviza sua crueldade. Pelo contrário, torna tudo mais inquietante, porque mostra um homem capaz de adaptar o rosto ao ambiente, sem perder o controle sobre o próprio lucro.
Pieter Kuijpers não transforma a história em uma sucessão de discursos. O enredo avança por ações concretas. Riphagen recolhe bens, tira fotografias com judeus que pretende trair e guarda essas imagens para se defender depois da guerra. Jan acompanha pistas, percebe falhas nas operações e tenta alcançar o criminoso antes que ele desapareça outra vez. Greetje passa a duvidar do marido quando objetos e versões começam a não combinar. A tensão nasce menos de grandes revelações e mais de pequenos encaixes que chegam tarde demais.
O colar de São Cristóvão entregue por Esther é um desses elementos importantes. Antes, ele parece apenas um gesto de gratidão de alguém que ainda acredita estar sendo ajudada. Depois, quando aparece com Greetje, ganha peso de prova. Jan mostra a ela uma fotografia de Esther usando a joia, e a mentira de Riphagen começa a ruir dentro da própria casa. É uma cena forte porque não depende de espetáculo. Um objeto basta para ligar vítima, roubo e casamento em uma mesma sequência de engano.
Perseguição
A partir daí, o filme acompanha uma perseguição frustrante. Jan quer levar Riphagen à justiça, mas o criminoso escapa com uma combinação irritante de esperteza, força física, sorte e proteção. Mesmo quando a guerra se aproxima do fim, nada se resolve de maneira limpa. A libertação do país não apaga os rastros deixados pelos colaboradores, nem garante que todos serão punidos. Para quem espera uma reparação organizada, “Riphagen” oferece um tipo de incômodo mais próximo da realidade.
O filme mostra como a ocupação nazista permitiu que criminosos locais prosperassem à sombra da máquina alemã. Riphagen não age apenas por ideologia. Ele age por dinheiro, status, casas, joias e poder. Essa dimensão material torna a história ainda mais repulsiva. A perseguição aos judeus aparece ligada também à cobiça de homens que viram na barbárie uma oportunidade de ascensão social. É difícil imaginar algo mais baixo, embora a história humana viva se esforçando para competir consigo mesma.
Inimigo cordial
Jeroen van Koningsbrugge dá a Riphagen uma presença calculada, quase cordial quando interessa, violenta quando precisa. Kay Greidanus faz de Jan uma figura movida por dever e desgaste, alguém que sabe o preço de cada atraso. Lisa Zweerman dá a Greetje a vulnerabilidade de quem foi enganada dentro da própria vida. Anna Raadsveld, como Esther e Betje, sustenta dois pontos dolorosos da narrativa. De um lado, a confiança explorada. De outro, a sobrevivência contaminada pela delação.
“Riphagen” é uma crítica dura à facilidade com que a maldade pode vestir roupa civil, frequentar restaurantes e posar para fotografias. O filme incomoda porque seu criminoso não depende de grandes frases para revelar quem é. Ele recolhe chaves, guarda joias, entrega endereços e segue adiante. Quando alguém percebe a extensão do estrago, muita coisa já foi tomada, vendida ou arquivada sob uma versão falsa.

