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Tem vazamento no banheiro, a chave quebrou na fechadura. Um dente esfarelou, e os outros estão cheios de cáries e infiltrações, faz cinco horas que o cachorro da vizinha está uivando. A Enel vai cortar a energia, o robô da imobiliária encaminhou-me para o Serasa, o robô do Serasa quer fazer acordo, sugeri ao robô do Serasa que fizesse um acordo com o micro-ondas que o pariu. A namorada do Tinder tem duas filhas pequenas para cuidar, e mais uma mãe que parece uma neandertal. Vi uns vídeos da velha em ação (agora entendo por que a filha compartilhou um vídeo da mãe metendo o facão numa bananeira) e avaliei que devia comunicar oficialmente ao museu de fósseis biológicos e história natural, mas acabei abstraindo por causa de outro susto que tomei, provocado pela filha. No nosso último encontro ela inventou de enfiar o dedo no meu cu. A vida não é feita de prazeres, mas de reciprocidades. Plantio e colheita. Só que eu jurava para mim mesmo que nunca havia plantado mandioca, milho ou qualquer outra porcaria que pudesse ser enfiada no meu rabo por uma namorada do Tinder. Fase braba. Tive de recorrer aos protocolos cristãos, e eles só fizeram confirmar a ação da velha e filha neandertais.

Minhas sementes devem ter caído no meio do caminho, e os urubus as devoraram. Ou os abrolhos as sufocaram, ou foram esturricadas pela exposição ao sol. Talvez o solo não prestasse. E eu menos que o solo.

Daí fui até a igreja de Nossa Senhora do Monte Serrat, no Largo da Batata. O padre começou dizendo que minha colheita poderia acontecer no outro mundo. Quiçá no outro mundo!

— E neste mundo da carne, da dissipação e da iniquidade, padre, tenho chance?

— Se você fosse um urubu da própria carniça, talvez. Tirando isso, só mesmo os urubus profissionais com o auxílio dos abutres que devoram semente e fígado. Tudo junto. Daí que é difícil sobrar qualquer coisa. Quem mandou não andar na linha?

— Nem uma sementinha?

— Nada. Nem para remédio, nada. Mas me diz, você escreve livros se vitimizando, livros de autoajuda?

— Não.

— Atua no ramo da culinária, master-chef, regionalismo requentado?

— Não.

— Comete biografias de banqueiros?

— Nunca me procuraram, mas eu acho que não ia dar conta.

— Escreve pela militância?

— Pela incapacidade, padre.

— A melanina do Machadão faz diferença para você? É a favor do aborto, tá preocupado com as demandas dos boycetas por RG e meia-entrada?

— Pera aí, padre. Uma coisa de cada vez. Boycetas, meia-entrada?

— Sim, meu filho, boycetas, aquelas minas feias que se transformam em gordinhos mal-acabados, marrentos.

— Ah, seu padre, até encaro as feias. Mas não curto gente marrenta. Acho que aborto na maioria das vezes é eufemismo para assassinato, o que mais?

— A melanina do Machadão, meu filho.

— Vai mudar o que ele escreveu?

— Não. Mas já existem edições com rodapés contextualizando a coisa.

— Machadão não escrevia para jumentos, padre. Acho rodapé um saco, além do que é uma inutilidade explicar aquilo que fala por si, e que, portanto, não pediu, e nem precisa de explicação. Sobretudo se for ficção. E também não tô nem aí pras “contextualizações” de gente recalcada e sem talento.

— Santa tosquice, filho!

— Santa?

— Abençoada! Um dom do Espírito Santo. Mas não vai se achando, não. Trata-se de cruz, não é prêmio.

— O que o senhor quer dizer com isso?

— Vais economizar uns trinta Pais Nossos e umas cinquenta Ave Marias. Deve para o Mastercard?

— Como é que é, padre?

— Pensei em voz alta, esquece. Quero saber se você deve pro Mastercard. Deve?

— Com certeza, padre. E pro Waltinho também.

— Tá fodido. Ainda lê Bukowski?

— Opa, claro que sim.

— Ouve Nando Reis, Ana Carolina, AnaVitória? Pensa em fazer um mestrado, dar oficinas de bonsai na Flip, ou trocar as chuletas e bistecas por mandioquinhas e alfaces hidropônicas?

— Não fode, padre.

— Sente-se um canalha?

— Às vezes, ultimamente por falta de opção.

— Paga aluguel?

— Todo mês, e dois condomínios atrasados religiosamente.

— Caso perdido.

— Pô, padre! Pelo amor de Deus, misericórdia!

— Pelo amor de Deus e misericórdia é a puta que o pariu. Você é caso perdido. Vai ser gauche na vida.

— Estou empenhado, padre. E não sou nenhum santo, devo ser um canalha mesmo.

— Por quê?

— Outro dia atropelei um cachorro. Vi pelo retrovisor uma maçaroca só de asfalto e cachorro se remoendo: dava para ouvir os ganidos a quilômetros de distância. Não fiz nada, segui em frente.

— E daí?

— Eu só queria tirar uma casquinha do mundo, padre. Uma sementinha de merda que germinasse na minha quinta…

— As sementes apenas germinam nas quintas dos agiotas e dos filhos da puta, meu filho, let it be.

O padre ainda suspirou e me disse — como se falasse para si mesmo — que levar dedada da namorada do Tinder não é pecado. Mas que podia viciar. P’reu ficar esperto com a sogra neandertal, e ir em paz. Let it be.

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