O que você faria se recebesse a ligação de uma criança de apenas cinco anos pedindo socorro? Presa em um carro, cercada pelos corpos dos seis familiares mortos, com um tanque de guerra virado para ela, apenas à espera de algum movimento para fuzilá-la como fez com os outros. Essa é a história real e angustiante de Hind Rajab, uma menina que viu sua família morrer em Gaza e esperou por mais de três horas a chegada de uma ambulância para socorrê-la.
É impossível assistir “A Voz de Hind Rajab” e sair ileso. Dirigido pela tunisiana Kaouther Ben Hania, o longa acompanha uma ligação que se estende por horas entre a central do Crescente Vermelho Palestino e a menina. O filme tem pouco mais de uma hora e meia, mas distorce a percepção do tempo. Tudo parece durar mais do que deveria, ou talvez exatamente o que deveria, enquanto acompanhamos, em tempo quase real, a ligação.
Quem atende são Omar (Motaz Malhees) e Rana (Saja Kilani), operadores que tentam segurar a comunicação como quem tenta guardar água com as mãos. Do outro lado, não há muito o que fazer além de conversar, acalmar e prometer que está chegando. E esperar. Esperar bastante. Enquanto isso, uma cadeia de autorizações burocráticas se arrasta, como se o tempo institucional não tivesse qualquer relação com o tempo de uma criança em perigo.
Encenação e documento se misturam
O filme escancara não só a brutalidade do ataque, direcionado a uma família civil em fuga, como também o prolongamento dessa violência no impedimento de socorro. A ligação começa, na verdade, com a prima adolescente de Hind, Hamadeh, que ainda está viva após o primeiro ataque. É através dela que os socorristas entendem o que aconteceu. E é também através da ligação que escutam seu fuzilamento. Hind fica sozinha. Esperando por mais de três horas um resgate que parece nunca acontecer.
Um dos aspectos mais perturbadores do filme é a sua matéria-prima: os áudios são reais. A voz de Hind não é reencenada, não é reinterpretada. Ela atravessa o filme como documento bruto, impossível de suavizar. Já os socorristas aparecem em um jogo entre encenação e registro, com atores e reconstruções que se misturam a documentos do acontecimento. Não há imagens explícitas de violência. E talvez por isso mesmo o golpe emocional seja ainda maior. O horror não está no que vemos, mas no que ouvimos, e no que não podemos fazer. Nada pode ser feito.
Brutalidade que dói
Segundo o jornal The Guardian, cerca de 20 mil crianças foram mortas nos últimos dois anos por israelenses na Faixa de Gaza. 82 desde os ataques de 10 de outubro de 2025. Acordos de cessar-fogo foram violados repetidamente.
“A Voz de Hind Rajab” é, com folga, um dos filmes mais intensos e difíceis de encarar dos últimos anos. Premiado com o Leão de Prata no Festival de Veneza, onde foi ovacionado por 23 minutos, o longa atravessa a temporada de premiações cercado por uma recepção que mistura admiração e desconforto, como uma pedra que insiste em descer pela garganta. Se tivesse levado os principais prêmios internacionais, não seria exagero. Seria coerência.

