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Rose Byrne brilha e ganha indicação ao Oscar de Melhor Atriz por papel dolorosamente real em filme que acaba de chegar no Telecine Divulgação / A24

Rose Byrne brilha e ganha indicação ao Oscar de Melhor Atriz por papel dolorosamente real em filme que acaba de chegar no Telecine

Quando a vida resolve desmoronar, ela raramente avisa antes, e às vezes o colapso começa de forma tão literal quanto um teto caindo sobre a própria cabeça. É daí que nasce “Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria”, drama dirigido por Mary Bronstein que acompanha a tentativa desesperada de uma mulher de manter a rotina funcionando enquanto tudo ao redor parece ruir ao mesmo tempo.

No centro da história está Linda, vivida por Rose Byrne, uma psicóloga que passa os dias ouvindo os problemas de outras pessoas enquanto tenta segurar os próprios pedaços da vida. A situação já não é simples: ela praticamente cria sozinha a filha pequena, uma menina com uma doença misteriosa que exige atenção constante. O marido quase nunca aparece e a sensação é de que toda a responsabilidade doméstica, emocional e prática caiu sobre os ombros dela. Como se isso já não fosse suficiente, um enorme vazamento no prédio provoca um desastre dentro do apartamento da família. O teto cede, o espaço se torna inabitável e Linda precisa sair às pressas com a filha, levando apenas o essencial e improvisando um novo lugar para ficar.

A solução provisória é um motel, desses que parecem existir apenas para estadias rápidas, mas que de repente precisa funcionar como casa, escritório e refúgio. É ali que Linda tenta reorganizar a vida enquanto enfrenta uma sequência de problemas que não param de surgir. A filha continua doente, os médicos não conseguem explicar exatamente o que está acontecendo, e o apartamento destruído depende de burocracias e promessas vagas para ser consertado. Ao mesmo tempo, ela tenta manter o trabalho funcionando, atendendo pacientes e fingindo uma estabilidade que claramente já não existe.

Rose Byrne conduz tudo com uma intensidade nervosa que dá ao filme boa parte da sua força. Linda fala rápido, reage rápido e parece viver permanentemente um passo atrás das próprias urgências. Há momentos em que ela tenta transformar o absurdo da situação em humor, um comentário irônico, uma risada nervosa, mas logo a realidade volta a apertar. A sensação constante é de exaustão, como se cada pequeno problema tivesse o peso de um desastre completo.

Entre os pacientes que Linda acompanha, um desaparecimento inesperado adiciona mais tensão à história. Esse sumiço não apenas bagunça sua agenda profissional, mas também desperta uma inquietação difícil de ignorar. Como terapeuta, ela sente responsabilidade pelo que pode ter acontecido, mas como mãe já está completamente sobrecarregada. Essa mistura de papéis cria um conflito silencioso: até onde ela consegue continuar cuidando da vida dos outros quando a própria vida está prestes a explodir.

Outro ponto curioso surge nas sessões que Linda faz com o próprio terapeuta, interpretado por Conan O’Brien. A relação entre os dois é estranha, desconfortável, quase hostil em alguns momentos. Em vez de acolhimento ou orientação clara, as conversas frequentemente viram pequenos embates, como se o espaço de terapia fosse mais um lugar de tensão do que de alívio. Essas cenas trazem um humor seco, meio constrangedor, que combina bem com o tom geral do filme.

Danielle Macdonald aparece em um papel que adiciona mais uma camada a esse mundo instável que Linda tenta administrar. A presença dela ajuda a ampliar o ambiente ao redor da protagonista, mostrando que a história não se resume apenas ao drama doméstico, mas também a uma rede de relações onde apoio e frustração caminham lado a lado.

Mary Bronstein dirige tudo com um olhar muito atento aos pequenos detalhes da rotina. Em vez de apostar em grandes reviravoltas, o filme constrói sua tensão a partir do acúmulo de problemas cotidianos. Um telefonema que não é atendido, uma promessa de reparo que nunca se concretiza, uma consulta médica que levanta novas dúvidas. Cada elemento empurra Linda um pouco mais para o limite.

O resultado é um drama que observa de perto o desgaste emocional de alguém tentando manter tudo de pé sem ter estrutura para isso. “Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria” não transforma Linda em heroína nem em vítima absoluta. Ela erra, se irrita, perde a paciência e às vezes toma decisões discutíveis. Mas justamente por isso a personagem parece real. Em muitos momentos, o filme transmite aquela sensação conhecida de quando tudo acontece ao mesmo tempo e não existe tempo suficiente para resolver nada com calma.

Ao acompanhar essa sequência de crises, o longa constrói um retrato bastante humano do que significa estar exausto, mas ainda assim continuar tentando. E é nesse esforço contínuo, meio desorganizado, meio teimoso, que a história encontra sua força, mostrando que às vezes a única coisa possível é seguir em frente, mesmo quando parece que o teto inteiro da vida acabou de cair.

Filme: Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria
Diretor: Mary Bronstein
Ano: 2025
Gênero: Drama/Suspense
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.