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Tim Burton cria terror que mais cativa do que assusta, e faz história no cinema, na Netflix Divulgação / The Geffen Company

Tim Burton cria terror que mais cativa do que assusta, e faz história no cinema, na Netflix

Às vezes a vida muda de repente, mas morrer e continuar preso na própria casa é um tipo de problema que ninguém realmente sabe como resolver. Em “Os Fantasmas se Divertem”, clássico dirigido por Tim Burton, a morte não é o fim da história para Adam Maitland (Alec Baldwin) e Barbara Maitland (Geena Davis). Na verdade, é apenas o começo de uma situação bastante incômoda. Depois de um acidente inesperado, o casal descobre que virou fantasma, e que continuará vivendo dentro da própria casa de campo por muito tempo. O detalhe é que “viver” agora significa assistir à vida continuar sem eles, o que rapidamente se torna um problema quando novos moradores compram o imóvel.

Adam e Barbara eram o tipo de casal tranquilo, daqueles que parecem perfeitamente felizes com uma rotina pacata no interior. Eles gostam da casa, gostam do silêncio e claramente pretendiam passar muitos anos ali. Quando percebem que morreram, a primeira reação é de pura confusão. O mundo continua igual, os móveis estão no mesmo lugar, mas ninguém consegue vê-los. Aos poucos, eles entendem que estão presos à propriedade e que existe um conjunto estranho de regras para fantasmas iniciantes.

A situação fica ainda mais complicada quando a casa é comprada por Charles Deetz (Jeffrey Jones) e sua esposa Delia (Catherine O’Hara). Eles chegam trazendo uma energia completamente diferente para o lugar. Charles quer um recomeço longe da cidade, enquanto Delia, uma artista excêntrica, começa imediatamente a imaginar reformas radicais e uma nova identidade para a casa. Para Adam e Barbara, aquilo parece quase uma invasão. De repente, o lar que sempre foi deles começa a mudar diante dos olhos, e eles não têm nenhum poder real para impedir.

O plano que surge parece simples: assustar os novos moradores até que desistam da casa. Só existe um pequeno problema. Adam e Barbara são fantasmas absolutamente péssimos na tarefa de assustar alguém. As tentativas de susto são desajeitadas, tímidas e acabam sendo mais constrangedoras do que assustadoras. Tim Burton encontra aqui uma das ideias mais divertidas do filme: transformar o terror em comédia, mostrando que nem todo fantasma nasceu com talento para o trabalho.

No meio dessa confusão aparece Lydia Deetz (Winona Ryder), a filha adolescente de Charles. Lydia é introspectiva, um pouco sombria e claramente deslocada dentro da própria família. Enquanto os pais estão ocupados com reformas e projetos artísticos estranhos, ela parece muito mais interessada no que existe além do visível. E é justamente Lydia quem percebe que Adam e Barbara estão ali. Diferente dos adultos, ela consegue vê-los e conversar com eles, criando uma relação inesperada com o casal fantasma.

Esse encontro muda completamente o rumo da história. Adam e Barbara passam a enxergar Lydia como alguém que realmente os entende, o que torna a ideia de expulsar toda a família um pouco mais complicada. Ao mesmo tempo, a convivência entre vivos e mortos começa a ficar cada vez mais confusa, porque os adultos continuam ignorando completamente o que está acontecendo dentro da casa.

É nesse ponto que surge a figura mais imprevisível do filme: Beetlejuice, interpretado com energia caótica por Michael Keaton. Ele se apresenta como uma espécie de especialista em lidar com humanos inconvenientes, um “bio-exorcista” capaz de expulsar vivos de lugares ocupados por fantasmas. A proposta parece perfeita para Adam e Barbara, que já perceberam que seus próprios métodos não funcionam.

Mas Beetlejuice não é exatamente confiável. Na verdade, ele é barulhento, exagerado, oportunista e claramente interessado em transformar qualquer situação em um espetáculo. A presença dele muda o clima do filme imediatamente. O que antes era uma disputa doméstica entre moradores vivos e fantasmas tímidos começa a ganhar proporções muito mais caóticas.

Tim Burton conduz tudo com aquele estilo visual que mais tarde se tornaria sua marca registrada. A casa vira um espaço onde o estranho e o cotidiano convivem o tempo todo, e cada tentativa de resolver o problema cria uma situação ainda mais absurda. O humor surge justamente desse contraste: Adam e Barbara continuam tentando agir como um casal comum, mesmo quando já estão oficialmente mortos.

O que faz “Os Fantasmas se Divertem” continuar funcionando tão bem é essa mistura improvável de gêneros. O filme tem elementos de terror, mas nunca perde o senso de humor. Tem fantasia, mas também trata a vida após a morte quase como uma burocracia estranha cheia de regras confusas. E no centro de tudo está um grupo de personagens muito diferentes tentando conviver dentro da mesma casa.

Adam quer recuperar o lar que sempre considerou seu. Barbara tenta manter alguma lógica na situação. Lydia procura entender um mundo que os adultos ignoram completamente. E Beetlejuice… bem, Beetlejuice parece apenas interessado em transformar o caos em algo ainda maior.

A graça do filme está justamente em observar como essa convivência impossível vai se desenrolando. E quanto mais os personagens tentam controlar a situação, mais claro fica que aquela casa deixou de obedecer a qualquer regra normal.

Filme: Os Fantasmas Se Divertem
Diretor: Tim Burton
Ano: 1988
Gênero: Comédia/Fantasia/Terror
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.