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Se os Mamonas Assassinas virassem mamoneiras…

Se os Mamonas Assassinas virassem mamoneiras…

Não é possível existir outro ecossistema sociocultural no planeta capaz de produzir algo como foram os Mamonas Assassinas, fenômeno intenso e fugaz que acometeu a cena pop brasileira nos anos 1990. Em maior ou menor grau, besteiróis existiram e existem em outras praças, mas não consigo entender nem explicar nada que seja tão escrachado, engraçado, explícito — e ao mesmo tempo sofisticado — como foi a produção desses jovens guarulhenses que tiveram fim trágico há exatos 30 anos, a serem lembrados na próxima segunda (2).

Daqueles caprichos da história, contudo, toda a escatologia composta e executada pela banda em suas aderentes músicas que chocavam adultos pudicos, encantavam adolescentes cheios de hormônios e faziam crianças se divertirem sem entender nem metade da missa, pareceu pouca diante das imagens proibidonas que correram o mundo, em disquetes censurados e sites de gosto duvidoso, revelando de forma repugnante e crua o resultado do acidente aéreo que ceifou a curta vida dessas figuras tão bem-humoradas.

Foi quando a escatologia transcendeu de sentido. Da nojeirice das músicas, virou o tratado filosófico ou até mesmo teológico acerca do fim dos tempos. O apocalipse da banda de besteirol quase pornográfico, quem diria, rendeu um passeio semântico pelo dicionário.

Mas, no que parece um plot twist de mau gosto, leio na ‘Folha’ que decidiram exumar os restos mortais de Dinho, Bento, Júlio, Sérgio e Samuel. Apesar de entender a validade da homenagem, não consigo deixar de pensar que se trata de um golpe de marketing a ideia de cremar, 30 anos depois, esses ídolos dos anos 1990 e, com as cinzas, adubar cinco árvores a frisar a memória deles.

Ao menos tivessem a delicadeza de plantar mamoneiras, estaria honrada a irreverência juvenil do grupo.

Edison Veiga

Edison Veiga é escritor e jornalista e vive em Bled, na Eslovênia, desde 2018. Publicou oito livros, entre eles ‘Titereiro’ e ‘O Menino que Sabia Colecionar’.