O lado predador de cada um vive à sorrelfa, arreganhando os dentes, mostrando as garras e ansiando por uma chance de dar o bote, desconsiderando princípios, normas, códigos de conduta e farejando caminhos para burlar a lei. Fazer justiça com as próprias mãos é o sintoma mais óbvio do caos patrocinado por autoridades ineptas, e quando o indivíduo acha que pode agir inspirado pela revolta ou pelo desânimo, a barbárie é uma questão de tempo. Tráfico humano, traumas pós-guerra e vigilantismo vão entrando em doses homeopáticas em “Atos de Violência”, sem que isso leve a nenhuma reflexão profunda sobre o estado de degenerescência da vida em comunidade. O diretor Brett Donowho e o roteirista Nicolas Aaron Mezzanatto perdem uma excelente oportunidade de ir além do lugar-comum de cenas de ação decerto vigorosas, mas que tornam-se cansativas numa história já apresentada tantas e tantas vezes.
Pecados capitais
Roman McGregor e Mia, sua namorada de infância, aproveitam juntos as últimas horas antes do casamento, mas também reservam um espaço na agenda para os amigos, como se assiste nos primeiros minutos. Mia está empolgada com a despedida de solteira, porém se soubesse como a farra iria acabar, talvez optasse por um programa mais calmo. A certa altura, dois capangas de Max Livingston, o chefão da máfia de Cleveland, Ohio, no nordeste americano, aproximam-se das garotas, tentam uma investida romântica e são rechaçados. Ela decide que aquela é a deixa para voltar para casa, sai da boate com toda a discrição pela porta dos fundos, mas os bandidos aparecem e jogam-na dentro de um carro, com planos de integrá-la ao plantel de escravas sexuais com que Max sacia o apetite de milionários do mundo todo. Roman dá a notícia aos irmãos mais velhos, Deklan e Brandon, veteranos do exército com muita raiva acumulada, e então uma guerra tem início.
Lei e desordem
A polícia averigua o caso representada pelo detetive James Avery, que tenta fazer com que Roman, Deklan e Brandon acreditem na força das instituições, embora também tenha gana de chutar o balde. Se tivesse espaço, Cole Hauser poderia ter realizado uma exposição mais ampla do transtorno de estresse pós-traumático de Deklan, o verdadeiro herói aqui, e quiçá “Atos de Violência” fizesse mais sentido. Quanto a Avery, este é sem dúvida um papéis mais incoerentes e sem substância de Bruce Willis, que chega a ficar perdido no caudaloso enredo. Caudaloso e, paradoxalmente, raso.
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