Halle Berry é uma das intérpretes de carreira mais irregular de Hollywood. Berry, Oscar de Melhor Atriz pela comovente performance de uma viúva em busca de reparação no drama racial “A Última Ceia” (2001), de Marc Forster, passa anos no ostracismo, como se à caça de papéis em que sua versatilidade seja apreciada, o que nem sempre sói acontecer. Parece haver uma linha invisível que divide seus trabalhos entre bons e nem tanto, malgrado ela esteja sempre decidida a se arriscar e dobrar apostas na nobre intenção de elevar o filme que estrela. Estranhamente, “Mulher-Gato” não está em nenhuma das duas categorias — apesar de Berry ser a alma (rarefeita) da história. Desenvolvida como óbvio contraponto feminino do Batman, a maior sacada de Bob Kane (1915-1998), Leslie H. Martinson (1915-2016) e Bill Finger (1914-1974), a personagem não diz a que veio na adaptação de Pitof, e contempla de binóculo a graça diabólica da inesquecível versão de Michelle Pfeiffer para a anti-heroína em “Batman: O Retorno” (1992), de Tim Burton.
Longo começo
Patience Phillips é uma das reencarnações de Bast, deusa egípcia do amor e da fertilidade. Essa é a conclusão a que se chega depois de um longo preâmbulo, durante o qual pipocam na tela informações sobre o poder mágico dos felídeos, quando começaram a ser importados para os Estados Unidos e curiosidades afins, que só interessam àqueles que já perseguiram roedores e fizeram a cama no telhado em outras vidas. Patience gozou desse privilégio, mas só vai saber depois de passar por alguns dissabores na vida íntima e na carreira, apresentados com esmero pelo roteiro de John Brancato e Theresa Rebeck. O afeto dos colegas não é o bastante para fazê-la vencer o momento de baixa criativa, e a situação da designer piora muito quando seu chefe lhe diz com todas as letras que o seu rendimento está bem longe do satisfatório.
A bisbilhotice matou o gato
Patience recebe um prazo curto para fazer os ajustes que o mandachuva da Hedare Beauty exigiu, atravessa a noite no escritório e assim que termina, corre para entregar o projeto do Beau-Line, um creme antienvelhecimento que promete uma verdadeira revolução na pele das felizardas que o puderem adquirir. Pitof inclui uma sequência de terror suave para explicar a metamorfose que gera a Mulher-Gato, coprotagonizada por Midnight, bichana nascida pelas mãos da inteligência artificial. Depois de 104 minutos, uma só pergunta vem à cabeça: por que, Halle Berry?!
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