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Escondido na HBO Max, drama baseado em best-seller do New York Times merece ser descoberto hoje mesmo! Divulgação / Rose and Oaks Media

Escondido na HBO Max, drama baseado em best-seller do New York Times merece ser descoberto hoje mesmo!

Alexandra Fuller é uma escritora britânica-zimbabuense que viveu na Rodésia, atual Zimbábue, durante a década de 1970 e início dos anos 1980, nos anos finais do regime de minoria branca que dialogava diretamente com a lógica do Apartheid na África Austral. Em “Don’t Let’s Go to the Dogs Tonight”, livro de memórias publicado em 2001, ela narra sua infância em meio à guerra de independência e aos meses que antecedem as eleições que marcariam o fim da colonização britânica. Adaptado para o cinema por Embeth Davidtz, o filme, que no Brasil recebeu o título “Feras no Jardim”, opta por transformar essas lembranças fragmentadas em uma narrativa mais linear e concentrada na perspectiva de Bobo, apelido de Alexandra, aos 8 anos.

O título em inglês remete ao poema de A. P. Herbert, “The Old Vicarage, Grantchester”, publicado em 1912, que sugere a ideia de se entregar ao prazer e ao caos. A frase pode ser traduzida livremente como “vamos nos perder esta noite”. Ao acrescentar o “Don’t”, porém, Alexandra altera completamente o sentido. O que antes era convite vira súplica. Soa como um pedido de Bobo à mãe: “Não vamos perder o controle esta noite”. E por que à mãe? No filme, Nicola, também interpretada por Embeth Davidtz, é uma mulher britânica com mentalidade colonial, mas atravessada por traumas profundos que moldaram sua visão de mundo. Ela lutou pelas terras que a família ocupa, criou vínculos reais com aquele espaço, enterrou ali dois filhos mortos tragicamente. Agora, alcoólatra e emocionalmente instável, sente que tem mais direito àquela fazenda do que qualquer outra pessoa.

O momento político é delicado. A minoria branca liderada por Ian Smith está prestes a perder o poder para os movimentos de libertação negros que culminariam na eleição de Robert Mugabe. Ainda assim, o contexto histórico funciona menos como aula política e mais como atmosfera. Ele explica o clima de paranoia, medo e desconfiança que atravessa a fazenda. O filme acompanha tudo sob o olhar infantil de Bobo, que tenta construir identidade, amor e pertencimento enquanto os adultos ao seu redor estão ocupados demais tentando sobreviver. É sob os cuidados da empregada africana Sarah que ela encontra acolhimento, segurança e a atenção que uma criança precisa.

Apesar da relação afetuosa entre Sarah e Bobo, o filme não romantiza a desigualdade que estrutura esse vínculo. Pelo contrário, permite que o espectador a perceba. Bobo, embora criança, internaliza frases e atitudes preconceituosas da mãe e vive essa dualidade. Ainda assim, é difícil julgá-la. Ela não compreende totalmente o que está acontecendo; ela sente. E sente através da atmosfera tensa criada pelos adultos.

O filme ajuda a entender os dois lados da moeda. Mostra como enxerga o mundo um colono à beira da perda de privilégios, diante de uma insegurança que também é real, não apenas a perda de status, mas o medo concreto da violência e da morte. Ao mesmo tempo, humaniza seus personagens sem romantizá-los. Nicola é produto de seu tempo, de sua cultura e de sua formação. Sistemas injustos são sustentados por pessoas comuns que reproduzem medos, preconceitos e comportamentos aprendidos. O longa examina o colonizador no momento do colapso.

Conforme o país reconquista sua independência, a infância de Bobo também se transforma. A inocência se desfaz e ela começa a perceber que aquilo que parecia natural era sustentado por desigualdade e opressão. Nos minutos finais, há uma reorganização simbólica da estrutura de poder. À medida que o povo africano recupera seu espaço político, Bobo enxerga Sarah não mais como empregada, mas como uma rainha. É uma inversão silenciosa de autoridade.

Filme: Feras do Jardim
Diretor: Embeth Davitz
Ano: 2024
Gênero: Biografia/Drama/Guerra
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.