Em “O Dom da Premonição”, Sam Raimi troca o espetáculo pelo silêncio incômodo e coloca no centro Annie Wilson, vivida por Cate Blanchett, uma viúva que cria três filhos e paga as contas fazendo leituras psíquicas na própria sala de estar. Annie não é tratada como guru nem como charlatã caricata; ela é uma mulher cansada, prática, que cobra pouco, escuta muito e tenta manter a dignidade num ambiente que oscila entre a fé conveniente e o moralismo feroz. Quando Jessica King (Katie Holmes), jovem popular da cidade, desaparece, as visões de Annie deixam de ser curiosidade doméstica e passam a interessar à polícia. A partir daí, aquilo que era fonte de renda vira também fonte de risco.
O assassinato que abala a comunidade coloca Annie sob os holofotes de um jeito desconfortável. Ela decide procurar o delegado e compartilhar o que vê, não por heroísmo, mas porque sente que ignorar as imagens seria pior. Essa decisão a aproxima da investigação, mas também a expõe a olhares tortos e comentários venenosos. Raimi conduz essa transição com cuidado: a casa simples de Annie, antes espaço de consulta e confidência, passa a ser território de tensão. Cada batida na porta pode significar um novo cliente ou um novo problema.
No meio desse turbilhão está Donnie Barksdale, interpretado por Keanu Reeves, um homem agressivo e imprevisível que se sente ameaçado pelas insinuações que circulam pela cidade. Reeves abandona qualquer traço de romantismo aqui e compõe alguém bruto, ressentido, que reage mal à ideia de ser observado ou julgado. A presença dele aumenta o peso da história e coloca Annie em confronto direto com algo mais concreto do que visões: o medo real.
Katie Holmes, como Jessica, representa a face pública da tragédia. Sua personagem é o tipo de jovem que parece ter tudo sob controle, mas cuja vida privada guarda fissuras. O desaparecimento dela não é apenas um crime; é o estopim que revela o lado oculto de uma comunidade que prefere aparências organizadas a verdades desconfortáveis. Annie, ao enxergar o que os outros tentam esconder, passa a carregar um fardo que ninguém pediu, mas que todos querem usar quando convém.
O que mais chama atenção é como Raimi administra o suspense sem ser exagerado. Ele mostra algumas visões, oculta outras, retarda respostas e mantém o espectador no mesmo lugar incerto da protagonista. Não há pressa em transformar o dom de Annie em espetáculo visual; o foco está nas consequências práticas de falar o que se vê. Cada revelação altera sua posição na cidade, afeta seus filhos e redefine sua relação com a polícia.
“O Dom da Premonição” trata o sobrenatural como algo quase burocrático: Annie precisa explicar, repetir, sustentar o que diz diante de autoridades e vizinhos. Não é uma fantasia escapista, mas um drama com tintas de horror que cresce a partir da desconfiança. E Cate Blanchett segura tudo com uma atuação contida, cheia de pequenos gestos e silêncios que dizem mais do que qualquer discurso inflamado.
O filme acompanha a escalada dessa investigação e o custo pessoal que ela impõe. Annie poderia recuar e proteger apenas sua família, mas escolhe continuar colaborando, mesmo sabendo que isso a coloca numa linha tênue entre respeito e hostilidade. É nesse espaço apertado que o filme mostra sua autenticidade: a história de uma mulher que vê demais em um lugar que prefere não enxergar nada.
★★★★★★★★★★





