“Prometheus” parte de uma pergunta antiga: quem nos criou? O filme transforma essa inquietação numa expedição espacial que mistura fé, ciência e interesses corporativos. Dirigido por Ridley Scott, o filme acompanha a arqueóloga Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e o cientista Charlie Holloway (Logan Marshall-Green), que identificam um mesmo padrão em pinturas rupestres espalhadas pelo planeta e defendem que aquilo é um convite deixado por uma civilização avançada. Para testar a teoria, eles convencem o bilionário Peter Weyland (Guy Pearce) a financiar a viagem. O dinheiro vem, mas junto com ele chegam regras, vigilância e gente interessada em algo além da pesquisa acadêmica.
A bordo da nave Prometheus, a missão já nasce sob tensão. Meredith Vickers (Charlize Theron), representante da empresa, mantém postura rígida e deixa claro que segurança e controle vêm antes de qualquer entusiasmo científico. Quem observa tudo com calma quase inquietante é o androide David (Michael Fassbender), que administra a nave durante a hibernação da tripulação e demonstra uma curiosidade própria, às vezes mais intensa que a dos humanos. Fassbender constrói um personagem fascinante, elegante e perturbador na medida certa, alguém que parece sempre um passo à frente, mesmo quando não explica o que está pensando.
Quando a equipe finalmente chega ao planeta indicado pelas pinturas, o clima de descoberta rapidamente divide espaço com desconfiança. Shaw quer respostas que confirmem sua fé e sua teoria sobre a origem da vida na Terra. Holloway busca reconhecimento científico. Vickers protege os interesses da empresa. Weyland, ainda que distante, move peças com um objetivo muito pessoal. Cada um entra naquela construção alienígena por um motivo diferente, e é justamente essa diferença que fragiliza o grupo.
Ridley Scott conduz a história com senso de escala impressionante, mas o que realmente sustenta o filme é o conflito entre crença e ambição. Shaw é o coração emocional da trama. Noomi Rapace entrega uma personagem determinada, vulnerável e obstinada ao mesmo tempo, alguém que insiste em buscar sentido mesmo quando tudo ao redor sugere recuar. David, por sua vez, funciona como contraponto: ele observa, testa limites e parece menos interessado em respostas espirituais do que em possibilidades práticas. A relação entre os dois cria algumas das cenas mais inquietantes da narrativa.
Há também o elemento de suspense que cresce à medida que a equipe explora o ambiente desconhecido. As decisões tomadas sob pressão mudam rapidamente o equilíbrio dentro da nave. Portas se fecham, protocolos são ativados, e o espaço que antes simbolizava avanço científico passa a representar confinamento. Scott retoma o clima claustrofóbico que marcou sua fase em “Alien, o Oitavo Passageiro”, mas aqui a ameaça não é apenas física. Ela é também intelectual e existencial.
“Prometheus” é um filme ambicioso. Nem todas as perguntas recebem respostas claras, e isso certamente divide o público. Ainda assim, a proposta de expandir o universo da ficção científica para discutir criação, poder e arrogância humana é corajosa. O roteiro aposta menos no susto imediato e mais na inquietação gradual, na sensação de que o conhecimento pode custar caro demais.
A intenção do longa não é apenas mostrar a imagem grandiosa do planeta distante ou da nave atravessando o espaço, mas a ideia incômoda de que descobrir a verdade sobre nossas origens talvez não nos traga conforto algum. E é justamente essa coragem de encarar o desconhecido, mesmo quando ele não oferece garantias, que torna “Prometheus” uma experiência provocadora e, para muitos, inesquecível.
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