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O filme mais bonito sobre envelhecer e recomeçar que chegou à Netflix em fevereiro: você vai sair mais leve Divulgação / Eagle Films

O filme mais bonito sobre envelhecer e recomeçar que chegou à Netflix em fevereiro: você vai sair mais leve

“Ruth & Alex”, de Richard Loncraine, parte de uma decisão doméstica que, em poucas horas, vira agenda externa: vender o apartamento num prédio sem elevador no Brooklyn, depois de décadas subindo escadas. Ruth e Alex concordam com a mudança e, no mesmo gesto, entregam a condução a Lily, sobrinha de Ruth e corretora. Lily põe o imóvel no mercado e encurta a margem de hesitação; com o anúncio ativo, a casa passa a ser medida por horários de visita e pelo toque do telefone, como se a rotina tivesse sido terceirizada.

O open house toma a sala e muda a forma de circular pelo próprio espaço. Compradores, barganhadores e curiosos entram, avaliam, perguntam, calculam, e o casal precisa responder como se estivesse justificando a própria vida em metros e preço. “Ruth & Alex” encontra um desgaste exato nesse entra-e-sai: a porta aberta empurra Ruth e Alex para um papel de anfitriões sob avaliação, com conversas atravessadas por prazos. Diane Keaton dá a Ruth uma firmeza construída em gesto prático — recuar, impor limite, voltar a explicar — e a repetição das visitas vai assentando um cansaço que se entende sem discurso.

Ruth e Alex passam a procurar outro endereço movidos pelo mesmo motivo que disparou a venda: reduzir a escalada diária e encontrar, se possível, um elevador. Eles olham anúncios, comparam alternativas, e a promessa de uma mudança “melhor” sempre chega acoplada a condições que pedem resposta rápida. A possibilidade de um apartamento em Manhattan entra como opção concreta e empurra a conversa para exigências que dependem do ritmo das ofertas em circulação. A procura, em vez de aliviar, estreita a margem: escolher algo novo enquanto o antigo está exposto torna cada decisão mais cara em tempo e energia.

Dorothy desloca o centro do fim de semana com um problema que não admite adiamento: doença, veterinário, decisão sobre tratamento. A consulta apresenta a opção de operação e transforma afeto em conta, com o dinheiro virando parte do cuidado. Alex hesita diante do gasto, e a hesitação vira obstáculo direto para agir; quando ele concorda em fazer o possível, a mudança aparece no plano do concreto, não da fala. Morgan Freeman conduz Alex por esse ponto sem enfeite: a obrigação com o cachorro passa a disputar espaço com as negociações do apartamento, e o casal carrega duas urgências no mesmo corpo.

Lily mantém o processo andando com o ritmo de quem precisa fechar. Ela lista o imóvel, recolhe reações, recebe ligações e devolve ofertas ao casal com pressa, e cada chamada encurta a conversa particular de Ruth e Alex sobre o que querem. A ajuda de família vira cobrança operacional: Lily fala em termos de mercado e tempo; Ruth e Alex tentam sustentar uma cadência que permita pensar antes de decidir. O atrito aparece nas pausas, na irritação, na dificuldade de dizer “sim” ou “não” com segurança, porque a decisão nunca chega sozinha — vem acoplada ao próximo telefonema.

O noticiário de alerta na cidade, ligado a um incidente em ponte, atravessa o período como ruído que muda o ambiente. A informação não resolve nada para Ruth e Alex, mas altera o humor do entorno: a rua parece mais alerta, as reações ficam mais reativas, e o fim de semana já comprimido ganha imprevisibilidade fora do controle do casal. Entre visita e ligação, o apartamento deixa de ser apenas cenário de negociação e passa a funcionar como abrigo instável, sempre vulnerável ao que acontece do lado de fora.

As ofertas por celular transformam o apartamento em sala de comando. Lily repassa contrapropostas em tempo real, e Ruth e Alex atravessam os cômodos enquanto a negociação corre, como se precisassem tocar o que está prestes a sair das mãos. A sequência aperta porque prende o casal ao que está ao alcance — o telefone, a casa, o tempo — e pede decisões rápidas sem desviar para explicação. Nesse ponto, o open house deixa de ser evento social e vira disputa de prazos: Ruth e Alex tentam decidir sem serem empurrados pela próxima chamada.

Ruth e Alex chegam ao choque entre a velocidade das ofertas e o tempo doméstico. Dorothy exige gasto e atenção imediatos; o novo endereço desejado pede resposta; a venda cobra ritmo; Lily insiste em fechar. O casal fica diante de uma escolha pendente: ceder ao tempo do mercado ou segurar a decisão e arriscar perder a chance por demorar.

Filme: Ruth & Alex
Diretor: Richard Loncraine
Ano: 2024
Gênero: Comédia/Drama
Avaliação: 8/10 1 1
★★★★★★★★★★