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O filme mais bonito que entrou na Netflix em fevereiro: lindo, melancólico e impossível de esquecer Divulgação / Warner Bros.

O filme mais bonito que entrou na Netflix em fevereiro: lindo, melancólico e impossível de esquecer

“Te Amarei para Sempre”, de Robert Schwentke, abre com Henry DeTamble sendo arrancado do próprio presente e jogado em outro ponto do tempo sem controle. Ele reaparece sem escolher lugar e, em mais de uma dessas chegadas, surge sem roupas, obrigado a se cobrir e se proteger antes de qualquer conversa. A volta não vem com glamour: o retorno vira sobrevivência imediata e desmonta o que tinha sido combinado minutos antes.

Henry tenta manter uma rotina como bibliotecário em Chicago, e a biblioteca vira o cenário do primeiro grande desalinho com Clare Abshire. Ela aparece reconhecendo o homem que ele ainda não reconhece, e o encontro já nasce com um lado adiantado na relação e o outro tentando entender o que perdeu no caminho. “Te Amarei para Sempre” mantém essa diferença como motor de casa: Clare carrega lembranças de encontros com versões futuras de Henry, enquanto Henry precisa lidar com um romance que parece ter começado fora da ordem. Eric Bana sustenta esse atraso permanente com um corpo sempre prestes a desaparecer, como se a própria presença fosse um empréstimo.

Clare carrega a história de ter conhecido Henry desde a infância, a partir de visitas repetidas dele a um período em que ela ainda era menina. Henry volta para encontrá-la nessa idade e cria uma convivência irregular que molda o modo como ela espera e organiza o reencontro adulto. O obstáculo é concreto: o mesmo homem aparece em idades e estados diferentes, e a vida dela segue em linha contínua enquanto ele some. A consequência prática é uma relação colada em datas e antecipações, com Clare tentando reduzir o risco de cada chegada e Henry incapaz de lembrar esse passado, porque para ele ele ainda não aconteceu.

Henry aprende truques de sobrevivência para lidar com o lado material dos saltos, incluindo arrombar fechaduras para conseguir roupa e abrigo quando cai em algum lugar fora de hora. Ele não apenas desaparece; ele reaparece precisando resolver o básico antes de retomar qualquer promessa. Essa repetição dá ao romance uma aspereza difícil de maquiar: o encontro depende de improviso, e a conversa pode ser cortada no meio pela próxima ausência. Em vez de mistério, a rotina vira um ciclo de sumir, retornar e recompor o mínimo.

O casamento leva o problema para um rito que deveria ser fixo e público, e Henry não consegue garantir nem a própria presença nesse marco. Ele desaparece antes da cerimônia, e uma versão mais velha dele ocupa o lugar para que o evento aconteça. Clare aceita o compromisso diante dessa substituição temporal, e a própria cena define a convivência dali em diante: a presença pode vir em versões, mas nunca vem com garantia. Rachel McAdams sustenta a consequência sem discurso de apoio, porque a cerimônia feita apesar da falha já estabelece o tipo de dia a dia que ela terá de administrar.

A tentativa de formar família empurra Henry e Clare para um terreno em que o salto deixa de ser apenas desencontro e vira interrupção repetida. O casal tenta engravidar, e as gestações sofrem interferência ligada à condição dele, acumulando perdas que não se resolvem com uma conversa única. Henry reage com uma decisão médica secreta — a vasectomia — numa tentativa de interromper o sofrimento, mas a escolha escondida cria um novo atrito dentro do casamento. Quando um Henry mais jovem visita Clare em outro ponto temporal e ela engravida, a vida a dois volta a ser reorganizada por um encontro fora de fase, como se a casa dependesse sempre de uma aparição inesperada.

Alba amplia o alcance do problema ao aparecer como sinal de continuidade do fenômeno na família. Henry a encontra em um salto futuro e ouve dela que também viaja no tempo, como ele, e o horizonte doméstico deixa de ser apenas administrar a ausência do marido. Com amigos no entorno, como Gomez, o núcleo segue fechado no trabalho diário de manter rotina com um parceiro que pode desaparecer no meio do que acabou de prometer. A cada retorno, o que fica sem resposta é simples: o próximo encontro vai acontecer — e ninguém ali pode marcar a hora.

Filme: Te Amarei para Sempre
Diretor: Robert Schwentke
Ano: 2009
Gênero: Drama/Fantasia/Ficção Científica/Romance/Tragédia
Avaliação: 9/10 1 1
★★★★★★★★★